
O Brasil tem uma característica que torna a sua organização de poderes um tanto difícil de entender. Os ministros do STF, a corte máxima da nação, para ocuparem o cargo não precisam obedecer a hierarquia nenhuma, nem vir dos tribunais inferiores, nem mesmo ter sido juízes na vida. O presidente da República, leia-se Poder Executivo aponta o indicado por seu único, exclusivo e particular critério. Daí, o postulante é sabatinado pelo Senado, Casa Legislativa que tem como uma das funções criar o núcleo dos textos que são interpretados pelo Judiciário em sua rotina – além, é claro, de barganhar causas frente ao Executivo. Uma vez satisfeitos com a bateria de questões, os parlamentares batem o martelo e dão a aprovação definitiva.
Pois essas rusgas que vêm sendo fendidas semana após semana entre Judiciário, Executivo e Legislativo deixam no ar uma suspeita intrigante: há, pelo que se vê, um clima de “você me deve”, ou no bom português, troca de favores. O marco foi o julgamento do mensalão, depois do qual o condenado José Dirceu veio a público choramingar que o ministro Luiz Fux o teria traído, por causa de um trato firmado entre os dois. Nos idos de 2010, o então ministro do STJ queria obsessivamente progredir ao Supremo, e Dirceu, capo do partido da presidente que o indicou, atuou nos bastidores para essa efetivação.
A independência necessária nas decisões de Fux e de outros ministros não só no caso do mensalão tem incomodado a classe política. Vide o projeto de lei completamente esdrúxulo apresentado pelo deputado petista Nazareno Fonteles, do Piauí, que visa a condicionar certas decisões da Justiça a crivo posterior do Congresso.
E é justamente nesse momento de crescente atrito que a presidente Dilma Rousseff anuncia o nome do advogado Luís Roberto Barroso como seu escolhido para o posto de ministro do STF. Numa breve análise no histórico do procurador do estado do Rio, já é possível perceber uma simpatia pelas causas compartilhadas com o PT. Ele foi o advogado de defesa responsável pela prorrogação da estada do terrorista de extrema esquerda Cesare Battisti no Brasil, tirando-o da cadeia após o julgamento de seu processo de extradição para a Itália, onde era um dos criminosos de guerra mais procurados.
Curiosamente também, o anúncio de Dilma foi feito dias depois da convenção que elegeu Aécio Neves presidente nacional do PSDB e adversário virtual do PT na corrida ao Planalto. Mais curiosamente ainda, Barroso vai herdar a relatoria dos processos que estavam nas mãos do presidente do Supremo Joaquim Barbosa e que ainda não têm sessão marcada. Entre eles está o do mensalão tucano, no qual o ex-governador de Minas Eduardo Azeredo é apontado como beneficiado e integrante de um esquema de desvio de verbas operado pelo publicitário Marcos Valério para injetar recursos em campanhas eleitorais do PSDB.
Interesses, ligações parentais e relações de amizade sempre permearam os critérios para as nomeações ao STF. O viés político nelas não requer que se destrinche a árvore genealógica ou as causas defendidas pelos envolvidos: em 1990, Fernando Collor, num exemplo notório, alçou sem parcimônias seu primo Marco Aurélio à cadeira de ministro. Resta saber como os outros dez juristas do mais alto tribunal do Brasil vão receber o novo colega Barroso. Ou alguém ainda tem dúvida se o Senado vá barrá-lo e cravar um feito inédito na história do país?
Ah, a política, como é pitoresca a ponto de provocar risadas! O governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, ontem classificou de “esquizofrenia” a hipótese de a presidente Dilma ter dois palanques em 2014 no estado. Cabral, como todos os brasileiros que leem jornal sabem, quer implodir na marra a candidatura a governador do petista Lindbergh Farias. Chegou até a fazer uma citação no mínimo irônica ao laço familiar que possui com o senador tucano Aécio Neves, adversário de Dilma na corrida à Presidência. Ontem, já colocou panos quentes na polêmica, dizendo que não é nada disso, que não vai apoiar o PSDB (seu ex-partido, ressalte-se) etc., etc., etc..
As coisas na política mudam rápido. Bem, ou as coisas ou noticiário sobre elas. O certo é que em política se diz uma coisa em uma semana e se assina embaixo de outra na semana seguinte. É o que está ocorrendo, por exemplo, com as projeções de futuro próximo para o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Na semana passada, o noticiário garantia que ele tinha vencido o embate com o governador baiano Jaques Wagner e seria o coordenador nacional da campanha à reeleição da presidente Dilma. Nesta semana, as notícias já são de que ele será deslocado do Ministério da Educação para a Casa Civil, em substituição a Gleise Hoffmann, que vai se candidatar a governadora do Paraná. Vai ver que na próxima semana arranjam outro destino para o bigode de Mercadante.
Encarregada da articulação política do governo e cobrada de forma cada vez mais enérgica pela presidente Dilma sobre o desempenho da base aliada no Congresso, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, se não conseguiu domar as rebeldias verificadas no Legislativo em votações do maior interesse do Planalto, pelo menos agora já sabe exatamente com quem o governo conta e em que proporção pode confiar em cada aliado.
Na corrida pela posição de mulher mais poderosa do planeta no ranking da revista Forbes, a presidente Dilma Rousseff ultrapassou a ex-secretária de estado norte-americana Hillary Clinton e ficou em segundo lugar, superada apenas pela primeira-ministra alemã Angela Merkel, que, digamos assim, é a tricampeã da lista. Dilma havia ficado em terceiro lugar nas duas edições anteriores do ranking e agora suplantou Hillary, que virou ex e logo caiu para o quinto lugar. A outra brasileira que participa do ranking é a presidente da Petrobras, Graça Foster, que aparece no 18o lugar, à frente da presidente argentina Cristina Kirchner, que caiu dez posições e agora está em 22o lugar. A lista foi publicada hoje.
Embora não se tratasse de comida baiana, o jantar de ontem no Palácio Jaburu entre o vice-presidente Michel Temer, governadores, ministros e líderes do PMDB tinha um cardápio tão apimentado que a presidente Dilma Rousseff, que seria a comensal convidada de honra, preferiu preservar o estômago – que, por sinal, nos últimos tempos vem sofrendo com alguns pratos fortes que ela tem tido de engolir.
Quando a situação parecia estar mais calma entre o Judiciário e o Legislativo no Brasil, depois de a corda ter sido esticada quase ao máximo há cerca de duas semanas, quem agora volta a tensionar as relações entre os dois Poderes é o presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, que aproveitou palestra na Faculdade de Direito de Brasília para explicitar o que muita gente acha do Legislativo, mas nunca teve coragem de dizer. Barbosa disse que os partidos brasileiros “são de mentirinha” e que o Congresso é inteiramente dominado pelo Executivo, não tem a iniciativa de legislar, não discute os projetos. Ilustrou o que disse com o exemplo irrefutável da votação estilo Usain Bolt da MP dos Portos pelo Senado, na semana passada. A reação no Legislativo foi imediata, e o presidente em exercício da Câmara, deputado André Vargas (PT), foi logo dizendo que Barbosa não está à altura de presidir o Supremo Tribunal Federal. O clima ficou tal que o STF teve que fazer seu mea culpa e emitiu nota oficial afirmando que a fala de Barbosa foi um “exercício intelectual feito em um ambiente acadêmico” e que “a intenção não foi criticar o Legislativo”. Então tá…
Terá sido somente criar confusão o que moveu a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, a postar no Twitter declaração em que colocava genericamente na oposição a culpa pelos boatos de que o Bolsa-Família iria acabar? Todos sabem a consequência desastrosa desse disse-me-disse, que terminou levando milhares de brasileiros às agências da Caixa Econômica Federal no último fim de semana. A oposição ficou indignada com a declaração da ministra pelas redes sociais e chamou-a de irresponsável.