Psol e milícias: contradições e inverdades de Marcelo Freixo

Chico Alencar, Randolfe Rodrigues, Berg Nordestino e Marcelo Freixo em evento no Centro do Rio. A candidatura de Berg teve a benção da alta cúpula do Psol.

O deputado Marcelo Freixo, candidato do Psol à prefeitura do Rio, concedeu entrevista hoje negando a existência de qualquer crise em seu partido em decorrência do episódio da expulsão do candidato a vereador Berg Nordestino, citado no relatório final da CPI das Milícias, em 2009, como suspeito de relações com a chamada milícia do Deco, com atuação na área da Praça Seca, na Zona Oeste.

Além da negativa de Freixo em entrevista, o partido emitiu duas notas oficiais, uma em tom mais raivoso, assinada pela presidente do Psol no Rio de Janeiro, deputada Janira Rocha, e outra mais amena, subscrita pelo deputado Chico Alencar. Tanto a entrevista de Freixo quanto as duas notas evidenciam exatamente o contrário do que pretendem: que há uma crise em pleno andamento no Psol.

A entrevista e as notas apresentam uma série de contradições e algumas mentiras. O candidato Marcelo Freixo, por exemplo, afirma textualmente que “não há nada contra ele (Berg) na Justiça e por isso não havia investigação ou indiciamento”. Ora, se não havia, por que o candidato a vereador de um partido dito democrático é expulso sumariamente, sem qualquer investigação anterior e sem sequer ser comunicado pelo partido?

A entrevista, Freixo abriu com uma mentira deslavada sobre Berg Nordestino: “Na verdade não o conheço, nunca estive com ele”. Nem precisamos desmentir, a foto que abre esta matéria diz tudo. Outra: “O Psol, assim que identificou o problema, expulsou imediatamente, comunicou e tornou isso público”. Não é verdade. O Psol só agiu quando a denúncia saiu na imprensa. Na entrevista, ele insistiu na mentira de que mandou email na sexta-feira para a Secretaria de Segurança Pública (que desmentiu oficialmente). Bem que ele poderia mostrar uma cópia dos emails enviados em sua caixa de mensagens. Por que não fez isso?

Pior é o motivo pelo qual Freixo disse que há duas semanas o Psol começou a desconfiar do candidato Berg Nordestino: “não por qualquer denúncia, mas porque o perfil da candidatura dele fugia ao padrão que a gente conhece da campanha do Psol”. O que o deputado quis dizer com isso? O que seria o padrão Psol? Ele não explicou, mas dá para desconfiar: o padrão mauricinho, o estilo Zona Sul, que não é compatível com o padrão “paraíba” do Berg, talvez um dos poucos candidatos que o partido tinha com perfil realmente popular.

Mais honesto foi o deputado Chico Alencar em sua nota, ao admitir que “a decisão de desfiliar o Sr. Berg Nordestino é política”. Mais adiante, ele afirma que, embora não tenha antecedente criminal nem processo penal, o candidato a vereador “não pode permanecer no PSOL por seus vínculos com o ex-vereador e atual detento Luiz André da Silva, o chefe de milícias Deco”. Pergunta-se: alguma investigação feita nestes poucos dias em que o problema veio à tona confirmou tais vínculos?

Já a nota da deputada Janira Rocha tem a marca da pouca responsabilidade que caracteriza sua atuação política, ao “denunciar a tentativa de infiltração, em seus quadros (do Psol), de membros dessa organização criminosa (as milícias)”. Ontem, ela já tinha emitido outra nota falando em espionagem. Não vale a pena se estender muito nos comentários sobre as notas de Janira, nas quais ela tenta justificar o “justiçamento sumário” contra Berg – da mesma forma como fazem as milícias.

O Psol, na verdade, está querendo se fazer de inocente, para justificar o fato de não ter controle sobre sua chapa de 59 candidatos a vereador, que é a menor chapa entre os partidos (a de Paes tem 1.320 candidatos, a de Rodrigo Maia 156, a de Otávio Leite 78 e a de Aspásia 76). Ora, como é que o Psol acolhe sem mais delongas a candidatura de uma liderança comunitária de uma conhecida área de milícia, que o Freixo tão bem diz conhecer, e agora diz que não sabia? Esta é a pergunta que não quer calar.

O rito sumário de expulsão do Berg Nordestino foi para salvar o relatório final da CPI das Milícias. Se o cara for inocente, o relatório está errado, fica sob suspeita. Se o cara for culpado, o Psol, um partido tão rigoroso com tudo e com todos, é que atesta sua incapacidade de selecionar bem seus quadros e seus candidatos a vereador.

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