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“Uma das coisas boas da natureza humana é que há sempre momentos maus” – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Mar 15, 2024


É uma história que dura uma fração de segundo. Na rapidez com que a lemos, apesar das suas 130 páginas, mas também no mundo que Fernanda Melchor consegue fazer caber no pensamento de um rapaz que não demorará mais que um rapid eye movement de um sonho que pudesse ter tido, deitado na esteira quente no chão a ferver da sala do casebre onde vive com a mãe e a prima grávida, numa pequena povoação mexicana, numa noite de verão insuportável de quente.

Paradaise (ed. Elsinore) conta parte da cronologia de episódios da vida de Polo, um rapaz adolescente, pobre, a quem a mãe tira da escola por não estudar e o põe a trabalhar a cortar relva num condomínio de luxo. O avô morreu de desolação mergulhada em álcool, o futuro não o vislumbra senão a fazer parte do mundo de criminalidade em que entrou o primo, que nunca mais viu, e por isso passa todos os tempos livres que tem a beber as garrafas de aguardente trazida por um miúdo rico, gordo e obcecado por uma vizinha que tem idade para ser mãe dele.

A linguagem com que a autora do anterior Temporada de Furacões expressa os pensamentos de Polo, aqui a personagem e o narrador de Paradaise, é tão voraz, tão demasiado escorreita que as palavras conseguem o condão de se apagarem e metamorfosearem-se em sentimentos, em imagens, em pensamentos desconexos, arbitrários, solitários – sempre tão solitários –, contando no meio disto tudo as histórias das outras personagens que fazem um retrato devastador da realidade mexicana, aqui explorada em três eixos: os ricos, os pobres, os traficantes de droga. Fernanda Melchor continua a escrever assim e será um dia Nobel.

A capa da edição portuguesa de “Paradaise”, de Fernanda Melchor, publicada pela Elsinore

Tem formação em jornalismo. Como é que fez a pesquisa para este romance?
Na verdade, nunca exerci a profissão. Fui editora num jornal. Foi o meu primeiro emprego na área do jornalismo. E depois fui contratada pela universidade onde estudei, em Veracruz, para trabalhar na área de relações públicas. Nos meus tempos livres, escrevia crónicas porque sentia que precisava de me exprimir. Havia tantas coisas a acontecer nessa altura: a violência, o narcotráfico… Achava que havia muitas histórias sobre a cidade que estavam escondidas. Reuni as crónicas num livro chamado This Is Not Miami. Foi o meu primeiro livro. Depois, escrevi um romance de ficção chamado Falsa Liebre. Não foi traduzido em inglês, foi publicado só em espanhol e em sueco. A minha vida mudou completamente quando me mudei de Veracruz, que é uma cidade portuária no Golfo do México, para Puebla, onde estou agora. Puebla é uma cidade no Vale Central do México, muito perto da Cidade do México. É uma cidade colonial e muito bonita. Mudei-me para porque queria continuar a estudar, para fazer um mestrado em Arte e Estética. Além disso, precisava de uma bolsa de estudo. E decidi ficar aqui porque acho importante para um escritor ter uma distância entre o assunto e a escrita, o trabalho.

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Porquê?
Para mim, é importante ter uma distância de Veracruz. Claro que estive lá e escrevi sobre ela. Mas, ao vir para Puebla, tornou-se uma obsessão escrever sobre Veracruz. Trouxe comigo todos os meus arquivos, todos os meus ficheiros, porque costumava ler muitos jornais quando trabalhava para a universidade. Mas acabava sempre a ler as notícias sobre crimes. E havia um caso que estava a obcecar-me há muito tempo. Foi o que usei no romance Temporada de Furacões. O crime aconteceu numa aldeia muito pequena, perto de Veracruz. Encontraram o corpo de uma pessoa que consideravam a bruxa da aldeia. E essa pessoa foi assassinada, cortaram-lhe a garganta. A polícia e os jornalistas que cobriram o caso deram muito ênfase ao facto de a bruxa ter sido morta porque estava a fazer bruxaria ao assassino, que agiu como se isso fosse uma espécie de auto-defesa. Era também muito óbvio que a bruxa pertencia ao movimento LGBT. Foi muito chocante, tratou-se de um crime de ódio. Ninguém questionou o sobrenatural e ninguém questionou a ideia de crime passional. Supostamente, a bruxa estava a fazer bruxaria ao assassino porque queria que ele voltasse para ela. Foram amantes durante anos. O assassino era muito jovem, era menor quando eram amantes. Senti que esta era a essência das coisas que aconteciam em Veracruz: crime de ódio, passional, mas também a existência do sobrenatural, a descrença, a ignorância.

E femicídio? A mulher é sempre o diabo.
Exatamente. Este motivo da bruxa é muito interessante do ponto de vista feminista. Também se podia ver que o local onde o crime ocorreu era muito isolado, apesar de estar na estrada de acesso à cidade, em que se vivia em condições muito, muito más, do ponto de vista económico e social, zero educação, zero condições de saúde. E pensei: isto é o México, isto é Veracruz, tenho de escrever sobre isto. No início, queria escrever um romance de não-ficção, como em A Sangue Frio, do Truman Capote. Eu era obcecada por esse livro. Foi também o livro que destruiu Truman Capote. Tem aquela coisa do livro maldito. Adoro simplesmente a forma como este escritor foi capaz de mostrar a humanidade de uma coisa horrível. Olhamos para os perpetradores e pensamos na vida horrível que eles têm. Mas, ao mesmo tempo, dizemos: mas que coisa horrível que eles fizeram. Se calhar mereciam-no. Coloca-nos na posição de compreender o quadro completo e é uma obra de arte espantosa também do ponto de vista jornalístico. Estava muito entusiasmada.



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