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Bayer sagra-se campeão alemão pela primeira vez na história (e sem derrotas esta época) – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Abr 14, 2024

Quando o Benfica tentou fazer uma derradeira diligência para convencer Alejandro Grimaldo a renovar com o clube, o “mal” já estava feito. Mais: com alguma surpresa, e aproveitando um dia de folga após a goleada ao Portimonense no Algarve que praticamente sentenciou a conquista do título, deslocou-se a Leverkusen e fez as habituais imagens de apresentação com a camisola do Bayer. Surpreendeu na Luz, surpreendeu toda a gente. A perceção geral que havia nesse dia 15 de maio era que o espanhol iria trocar uma equipa campeã, onde estava há sete anos e meio e que lhe permitia jogar a Liga dos Campeões pelo sexto classificado da Liga alemã, com um contexto diferente do que estava habituado e que ia jogar a Liga Europa. Se alguém recuasse até esse dia sem saber o que tinha passado entretanto, continuaria a dizer que não fazia sentido. Se alguém recuasse até esse dia sabendo o que sabe hoje, percebia na perfeição. E a “culpa” foi de Xabi Alonso.

Após duas experiências iniciais como técnico na formação do Real Madrid e na equipa B da Real Sociedad, o técnico espanhol assumiu o comando dos farmacêuticos sem qualquer currículo mas com enorme vontade de saltar para a ribalta do futebol europeu. A primeira temporada de 2022/23, quando substituiu Gerardo Seoane ainda no início de outubro, não foi particularmente feliz na Bundesliga mas teve uma ida às meias da Liga Europa onde só caiu frente à Roma. O antigo médio internacional acreditava que montara uma base de futuro para discutir aquilo que o Bayer pouco ou nada teve: títulos. Foi isso que explicou a Grimaldo quando falou com o lateral sobre uma possível chegada a Leverkusen, colocando em cima da mesa aquilo que estava a esperar do jogador em termos táticos e garantindo que poderia abrir de vez a porta da seleção.

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Grimaldo acreditou no compatriota. O mais prático teria sido ficar na Luz com um contrato reforçado entre os mais bem pagos do plantel. O mais desafiante teria sido ouvir ofertas que tinha de Espanha e Itália, que foi sempre adiando até aos últimos meses da temporada. Arriscou o menos prático e confortável que nem por isso deixaria de ser muito desafiante. Um ano depois, fez história na melhor época da carreira, com 11 golos e 15 assistências (ambos recordes pessoais numa só época) apenas em 41 encontros realizados.

O lateral espanhol, a par de outros pesos pesados da equipa como Florian Wirtz, Patrick Schick, Palacios ou Frimpong, até começou aquele que poderia ser o encontro do título no banco, tendo em conta a margem que o Bayer Leverkusen foi ganhando ao longo do tempo com muito mérito entre o demérito de um Bayern a anos luz daquilo que fez durante mais de uma década em que foi campeão de forma ininterrupta. A seis jornadas do final, e para depender apenas de si, os farmacêuticos necessitavam apenas de uma vitória, sendo que pelo meio tinham ainda a segunda mão dos quartos da Liga Europa diante do West Ham. Por isso, Xabi Alonso, que está também na final da Taça da Alemanha, decidiu fazer algumas poupanças mas sem tirar a habitual mecânica de um dos melhores conjuntos da Europa e único entre as principais ligas que não sofreu qualquer derrota em encontros oficiais esta temporada. A conquista do título era uma questão de tempo.

Foi já. Este domingo, na receção ao Werder Bremen, com uma vitória por 4-0 que acabou por ser curta entre os golos de Boniface (25′, de grande penalidade), Xhaka (60′, num fantástico pontapé de fora da área) e Wirtz (68′, em mais um grande golo de meia distância após ter entrado ao intervalo na partida, 83′ e 90′, levando a uma primeira invasão pacífica do relvado que veio depois atrasar o final da partida). Ao todo, o Bayer Leverkusen confirmou o título com 25 vitórias, quatro empates e 74-19 em golos tendo no total de todas as provas 38 triunfos e cinco igualdades com 123 golos marcados e apenas 31 sofridos. E tudo com um mercado praticamente a “zero”, com as vendas de Moussa Diaby e Mitchel Bakker a servirem quase para pagar as chegadas cirúrgicas de Nathan Tella, Boniface (que esteve algum tempo lesionado esta época), Hoffman, Xhaka e Arthur, além de Grimaldo e Stanisic, ex-Bayern, que terminavam contrato em 2023.

Com isso, o clube que outrora chegou a ser conhecido como Bayer “Neverkusen” por andar sempre perto das decisões mas sem títulos conquistados vingou-se de tudo e todos. Vingou-se das críticas, vingou-se das paródias, vingou-se dos cinco Campeonatos em que terminou na segunda posição, vingou-se das quatro derrotas em finais de Taças e Supertaças (onde tem o único título, em 1992/93), vingou-se daquela final da Liga dos Campeões de 2001/02 diante do Real Madrid em Glasgow que teve Iker Casillas em estreia saído do banco por lesão de César. Nessa equipa que também foi vice-campeã nacional estavam Ballack, Lúcio, Hans-Jörg Butt, Ramelow, Oliver Neuville, Berbatov ou Ulf Kirsten. Ou seja, jogadores nunca faltaram. O que mudou agora além de todo o contexto e conjuntura? O sucesso da ideia de jogo de um treinador.

“O hype é definitivamente justificado. Ele traz padrões, promove uma mentalidade vencedora, treina como jogamos e fazemos todas as ações em cada sessão de treino com a mesma intensidade. É aí que está o verdadeiro segredo. Somos claros sobre o que fazemos. Taticamente, é fantástico. Na forma como batemos os cantos, nas maneiras de pressionar o adversário… Ele traz a inteligência do futebol com ele. É difícil perceber de fora para quem não está connosco diariamente mas a atmosfera mudou desde que ele chegou também pelo que viveu como jogador no Real Madrid ou no Liverpool”, explicou o guarda-redes Lukas Hradecky.

São muitos os trabalhos que abordam aquilo que Xabi Alonso conseguiu construir em termos táticos e que explica, em muitos casos, a “explosão” individual de jogadores que já eram bons mas que multiplicaram os seus números em prol do coletivo como Grimaldo, Wirtz ou Schick, entre outros. O The Coaches Voice fez uma súmula de todas essas nuances, destacando em cinco pontos a variação do sistema de jogo e a forma como o mesmo é interpretado, o jogo posicional da equipa, a organização do meio-campo com e sem bola, as zonas de pressão consoante os momentos ou a potenciação do melhores das individualidades. Ainda assim, é na forma como lidera e na comunicação com os jogadores e para fora que entroncam outras das virtudes, talvez aquelas que mais se foram destacando e chamando a atenção de outros clubes europeus.

Muito daquilo que Xabi Alonso é ficou resumido na conferência de imprensa depois da paragem para os últimos jogos das seleções. Nesse momento, e por estar a ver o seu nome envolvido com vários clubes como o Liverpool, o Bayern ou o Real Madrid, o espanhol fez uma reflexão sobre aquilo que pretendia na carreira e o momento que atravessava, falou com os responsáveis do Bayer Leverkusen e anunciou em conferência de imprensa que iria permanecer no clube em 2024/25. Se como jogador o antigo médio sabia o que era ganhar por Real Sociedad, Liverpool, Real Madrid e Bayern (duas Ligas dos Campeões entre dezenas de títulos no plano nacional) e também por Espanha, por quem se sagrou campeão mundial e bicampeão europeu, como treinador sabe o que é preciso para ganhar “bebendo” com o tempo de alguns dos melhores técnicos.

Filho de Periko, também ele antigo jogador de futebol que se sagrou três vezes campeão por Real Sociedad e Barcelona, Xabi Alonso, que cresceu no mesmo bairro de outro treinador da moda como é Mikel Arteta, fez a formação no País Basco, andou em alguns dos melhores clubes europeus e quis acabar a carreira no Bayern a ser orientado por Pep Guardiola, a sua grande referência no banco. “Foi aí que comecei o meu caminho como treinador”, assumiu em entrevista. A outra parte do sucesso tem muito a ver com a sua maneira de ser. Muito discreto, educado, respeitador. Muito ambicioso, solidário, trabalhador. A colocar a família no centro de tudo (o que lhe valeu um “choque” com Benítez, quando falhou um jogo com o Inter para ficar com a mulher antes de serem pais pela primeira vez) e a deixar de fora qualquer ruído ou facto extra futebol.





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