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Autoridades brasileiras descrevem “cenário de guerra” no Rio Grande do Sul. O que provocou as cheias devastadoras? – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Mai 12, 2024

Entre a primeira e a segunda semana de maio a intensidade da chuva foi tão significativa que em algumas das principais cidades do estado do Rio Grande do Sul registou-se em apenas dez dias o triplo das chuvas esperadas para um mês inteiro. Várias apareceram mesmo num ranking do instituto meteorológico Ogimet entre as que tiveram um índice de precipitação mais elevado no mundo.

Devido às chuvas intensas, o rio Guaíba, que passa por Porto Alegre, ultrapassou a marca histórica de 1941 e alcançou um nível inédito de 5,33 metros. Se o nível da água já baixou entretanto, poderá voltar a atingir os 5 metros devido às chuvas que recomeçaram na sexta-feira e que se espera que se mantenham ao longo de domingo, segundo um relatório da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) citado pela CNN Brasil.

Especialistas no Brasil têm comparado as graves inundações às históricas cheias de 1941 no Guaíba, em Porto Alegre. No entanto, explicam que este desastre natural está a ser ainda mais devastador do que o anterior. O próprio nível do rio Guaíba é um indicador disso.

Durante o fenómeno de 1941, o rio chegou a atingir os 4,76 metros, um número muito significativo já que se considera que existe uma enchente a partir dos 3 metros. Na semana passada esse recorde foi batido por várias vezes e estabeleceu um novo recorde: 5,33 metros. No entanto, isso aconteceu num período de tempo muito inferior.

Segundo uma avaliação da empresa Rhama Analysis — especializada em recursos hídricos — partilhada com o Globo, em 1941 o nível do Guaíba levou 10 dias para passar de 1,16 metro para a marca histórica de 4,76 metros. Este ano, mesmo com a proteção adicional de comportas, construídas na década de 70, foram necessários apenas 6 dias para o nível do rio passar de 1,24 metros para 5,33 metros.

Isso aconteceu porque, apesar de em 1941 a chuva ter sido mais persistente, tendo atingido Porto Alegre durante cerca de 12 dias, os volumes diários de precipitação foram baixos. Desta vez a tempestade teve maior intensidade e foi mais concentrada particularmente em quatro dias seguidos. Como consequência, as autoridades tiveram menos tempo para comunicar com a população na área de risco e pôr em marcha um plano de contingência.

Um estudo divulgado esta semana aponta que este foi um fator que contribuiu para tornar as chuvas do Rio Grande mais intensas. Segundo uma estimativa do ClimaMeter, um grupo liderado por investigadores do centro de ciências climáticas da Universidade Paris-Saclay, as chuvas que atingiram a região Sul do Brasil entre final de abril e início de maio foram 15% mais intensas devido às alterações climáticas.

Este número tem por base uma análise de dados meteorológicos dos últimos 40 anos. Os investigadores compararam os padrões climáticos no final do século XX com os observados nas décadas mais recentes — de 2002 a 2023. Concluíram que as depressões atmosféricas semelhantes à que afetou o Rio Grande do Sul são atualmente 15% mais intensas.

“Apesar de o El Niño-Oscilação Sul poder ter favorecido a forte precipitação, não chega para explicar as mudanças associadas a este evento quando se comparam os períodos do passado e presente. Interpretamos as cheias no Brasil como um fenómeno cujas características locais podem ser atribuídas principalmente às alterações climáticas provocadas pelo homem”, referem.

“Um dos efeitos da mudança climática é justamente este: ter chuvas mais intensas e em duração menor. O que aconteceu agora foi um sinal muito claro disso”, disse ao Globo Carlos Eduardo Morelli Tucci, professor emérito do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e diretor de hidrologia da Rhama Analysis.

Por esta altura as autoridades começam a preparar um plano de reconstrução da região, mas esperam grandes dificuldades. “É um cenário de guerra no estado. E, como cenário de guerra, vai ter de ter também um pós-guerra”, dizia esta semana o governador do Rio Grande do Sul durante um conferência de imprensa ao lado do Presidente Lula da Silva. Em declarações ao jornal Globo, Marcelo Dutra, professor de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, apontava no mesmo sentido: “Vai ser a maior operação de reconstrução de infraestrutura pública, residencial e de indústria.”



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