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Suicídio – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Jun 14, 2024

Segundo Arnold Toynbee, historiador inglês do séc. XX, “as civilizações morrem por suicídio, não por serem assassinadas”. O colapso de uma cultura terá, então, uma origem interna em resultado da divergência irreconciliável de valores entre as elites e a população em geral.

Com o que se passa hoje no mundo ocidental, não há necessidade de procurar na História exemplos que suportem a afirmação de Toynbee. O que está a acontecer nos Estados Unidos e na Europa, em que a estrutura de poder está colocada em causa por milhões desiludidos, é uma demonstração eloquente dessa asserção. Em França, estamos num momento que se arrisca a ter algumas semelhanças com o que aconteceu em 1789, quando um sistema social forte e com séculos de dominância, acaba subitamente em fumo e em sangue. O eterno não será seguramente uma característica da obra humana e, pelos vistos, uma civilização colapsa quando os problemas, reais ou percebidos das pessoas, não encontram resposta na acção da elite governante.

Martin Wolf, quando esteve em Lisboa a apresentar o seu livro “A crise do capitalismo democrático”, chamou a atenção para a realidade actual, em que o acumular de crises deu origem a multidões de pessoas zangadas, desiludidas e furiosas, que acabam depois por votar em loucos. Martin lembra que, sendo o nosso sistema político, económico e social o casamento entre a democracia liberal e o capitalismo de mercado, a democracia não funciona se não dispusermos de uma economia de mercado vibrante.

As últimas décadas não têm sido economicamente fáceis para a nossa civilização ocidental, e as elites que nos governam, tendo democraticamente acedido ao poder, confrontam-se hoje com a incompreensão ruidosa e violenta dos governados. O que se passa então? Para Martin Wolf “A erosão da democracia resulta de falhas económicas de longo prazo na distribuição, na mobilidade e no crescimento”. Ou seja, o nosso modelo deixou de funcionar e os loucos entraram em cena chamando a si a disponibilidade para resolver os problemas que o poder vigente não consegue dominar. Mas como um desastre raramente acontece sozinho, a somar à incompetência das elites em compreender o que inquieta as pessoas, estas aceitam ingenuamente como válidas promessas vazias de conteúdo, sem se preocuparem com a sua viabilidade.

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A engrenagem do caos, partilhada entre líderes que não decidem – ou que decidem mal – e os que acreditam em milagres, fica assim lançada. No caso da França, está-se na iminência de descobrir o que acontece quando o poder se esgota repetidamente desvalorizando a realidade, nomeadamente, quando ignora o impacto de uma imigração não assimilável e que ambiciona à alteração da sociedade de acolhimento. Mas há mais motivos que provocam o desconforto e a revolta dos eleitores: as promessas e garantias de benefícios económicos e sociais, repetidamente afirmados pela classe política, mas que sendo os recursos insuficientes, têm obrigado os Governos a endividar-se.

E em Portugal? Se a credulidade quanto à capacidade dos loucos em fazer milagres é infelizmente comparável, já sobre a imigração ainda estamos alguns passos atrás na linha da fábrica do caos da França e do Reino Unido. No entanto, vontade de acelerar para o precipício não tem faltado. Desde a criminosa abertura à imigração sem qualquer restrição (agora felizmente a ser revista), até à intenção alucinante de promover o seu agrupamento familiar em Portugal. A única classificação possível do que se passa, é muito simplesmente de tentativa de SUICÍDIO.

E então, vale a pena olhar para o que aconteceu em França quando, depois de a economia ter chamado emigrantes italianos, espanhóis e portugueses – portadores de uma matriz cultural que possibilitava a sua integração – veio o recurso maciço a emigrantes muçulmanos que trazem consigo dificuldades, muitas vezes intransponíveis, de integração. Hoje em França há um consenso sobre a causa indiscutível para a fractura social e cultural que alimenta o caos, e essa causa foi a lei que possibilitou, indiscriminadamente, o reagrupamento familiar dos migrantes. Esta regra, que era a expressão jurídica da generosidade humanista das elites no poder, não surgiu da extrema-esquerda, mas teve antes como protagonistas, entre outros, Giscard d’Estaing e os tribunais superiores. A festa e o orgulho que esta manifestação de solidariedade universal provocou na altura, acabou por ditar, no tempo, uma das principais causas da crise que leva agora a França ao caos. Mesmo sendo diferido, é o que se pode chamar de suicídio.

Não sabemos o que irá acontecer em França, mas devemos ter o mínimo de sensatez para não cometer em Portugal o mesmo erro. Também não sabemos se o que vai acontecer com a França implicará ou não a implosão da Europa, embora os riscos não possam infelizmente ser negligenciados. Resta exigir que neste jardim à beira-mar plantado, o reflexo de sobrevivência possa ultrapassar a força dos fabricantes de desastres e a dos salvadores das crises que nos querem levar ao inferno.

Temos o direito de exigir uma política racional de imigração, que promova condições para a existência de vida futura. Temos seguramente de passar a recusar tabus ideológicos que nos levem a situações sem retorno.

Não será impossível, mas vai sendo tarde.



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