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O síndroma do Xá da Pérsia – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Jun 16, 2024

Base das Lajes. 23 de Março de 1980. O avião que transporta o deposto xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi, está imobilizado na pista. O avião das Evergreen AirLines fez oficialmente escala nos Açores, para reabastecimento. Uma paragem que se esperava não ir além da meia hora. Mas a meia hora transforma-se em horas. Intermináveis.

Dentro do avião a preocupação aumenta. O xá da Pérsia, a sua mulher, Farah Diba e a pequena comitiva que os acompanha e que há meses andam de país em país em busca de asilo, começam a questionar o porquê da demora. A pergunta que está na cabeça de todos equivale para cada um a uma sentença de morte: estariam os EUA a negociar com o Irão a entrega do Xá? Razões não faltam aos EUA para tentar negociar: no Irão estão por essa data 54 reféns americanos. O seu cativeiro começou em Novembro de 1979, quando centenas de estudantes iranianos em fúria com o facto dos EUA terem autorizado a entrada do xá naquele país para efectuar tratamentos médicos (o xá sofria dum linfoma em  estado avançado), acabaram a invadir a embaixada dos EUA e a sequestrar quem ali se encontrava.

Cinco meses depois de ter começado, a crise dos reféns tornara-se a crise dos EUA. Para mais os EUA estava a entrar em ano eleitoral. Trazer os reféns para casa é também crucial para o presidente Carter conseguir um segundo mandato (Aos promotores da tese de que se em 2023 à frente de Israel estivesse um líder que não fosse de direita, o Hamas não teria atacado ou tendo atacado seria mais fácil negociar, recomendo que regressem à crise dos reféns de 1980. Então a culpa estava no facto de Carter ser visto como uma pomba do partido Democrata. Esta aparente contradição é o resultado mais que directo de se explicar o terrorismo pela natureza das vítimas e dos seus governos e não pelos terroristas e pelas suas intenções, o que não deixa de ser revelador da nossa forma auto-punitiva de estar).

Mas voltemos à pista das Lajes nessa noite de Março de 1980. Quem se encontra dentro do avião sabe que o Irão desenvolve esforços para que o Xá seja extraditado e que existe o risco real que tal aconteça. Só não sabem que ao mesmo tempo que na pista da Lajes o avião continua parado, agora, que já está reabastecido, alegadamente porque precisa de autorização para sobrevoar certos territórios, a administração norte-americana está mesmo a negociar, naquele preciso momento, com Teerão a entrega do Xá em troca dos reféns.

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O acontecido naquela noite de um domingo de Março de 1980 na pista das Lajes é uma espécie de viagem à má fé estrutural inerente ao terrorismo. O terrorista conta com a insuportabilidade civilizacional que é para a cultura ocidental (e não só) ter alguns dos seus feitos reféns. Mas na sua lista de objectivos não se conta apenas o sequestro. Entra também o desgaste causado pelas tentativas de resgate em quem as organiza: ora porque falham, ora porque são desproporcionadas, ora porque causam vítimas, ora porque cedem, ora porque não cedem… Quando agora o líder do Hamas escreve que para Israel a vitória pode ser pior que a guerra é precisamente a esta inversão do ónus da acção que se refere.

Mas voltemos a Março de 1980 e às Lajes. Nessa noite é do domínio da cedência o que os americanos estão a preparar: entregar o xá aos iranianos. Mas a possível cedência americana foi precedida por outras mais discretas mas igualmente simbólicas: a França, que acolhera o Ayatollah Khomeini durante o seu exílio, recusa agora receber o xá depois deste ter saído do Irão em Janeiro de 1979. A Grã-Bretanha, a Suíça e a África do Sul  também responderam negativamente à possibilidade de acolher o xá. Outro países nem nunca responderam.

Entre Janeiro de 1979 em que deixa o Irão e Março de 1980 em que o avião em que viaja fica retido na pista das Lajes, aquele que que fora o rei dos reis, Mohammad Reza Pahlavi, passou pelo Egipto, por Marrocos (donde saíra por ameaça de rapto); pelas Bahamas onde só teve asilo por três meses; pelo México; pelos EUA (só para ser operado) e pelo Panamá donde o governo iraniano assessorado por um advogado francês (há coisas que nunca mudam nesta matéria) o tenta extraditar. É então que surge a possibilidade do Egipto.  Anwar Sadat oferece asilo a Mohammad Reza Pahlavi e à sua família. Estes aceitam. Mas para chegarem ao Egipto têm de sair do Panamá e passar pelo Açores. E é aí que estão nessa noite de Março a meio da sua viagem para o Egipto. Primeiro para reabastecer. Depois a aguardar autorização para sobrevoar determinados territórios. Na realidade o avião estava imobilizado por ordem de um chefe de gabinete da Casa Branca que aguardava uma resposta perceptível de Teerão. Como esta não chegou o DC9 das Evergreen Air Lines levantou finalmente voo rumo ao Egipto. Mohammad Reza Pahlavi morreria no Cairo quatro meses depois. Sadat seria assassinado em 1981 por fundamentalistas islâmicos .

Porquê recordar isto agora? Afinal o que tem o destino de Mohammad Reza Pahlavi a ver com o mundo em 2024? Muito se por muito se entender a política de alianças. Em 2024, uma parte do mundo pretende varrer Israel da face da Terra. Nada de novo portanto. Mas uma outra parte do mundo de que fazem parte países como Espanha ou a Noruega e dirigentes como muitos socialistas portugueses com o seu apelo ao reconhecimento sem condições do estado da Palestina preparam-se e preparam-nos para deixar cair um dos nossos. Ou metaforicamente falando para o fazer seguir a caminho de Teerão como se equacionou fazer com Reza Pahlavi.

Por outras palavras, em 2024, Ucrânia? Israel – qual pode suceder ao Xá como o antigo aliado que se deixa cair?



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