
Charles DB King
Charles DB King na Libéria, Alberto Fujimori no Peru: a maior fraude e a maior surpresa de sempre em presidenciais.
Estávamos em 1927, há praticamente 100 anos. A Libéria foi a votos. Eleições gerais, que na prática são eleições presidenciais.
Quem foi votar não tinha noção (ou alguns até podiam ter), mas estavam a participar na eleição mais fraudulenta de semprede acordo com o livro de recordes do Guinness.
O então presidente Charles DB King conseguiu a terceira vitória. Chegou aos 234 mil votos, contra os 9 mil do adversário Thomas JR Faulkner.
Além da margem esmagadora poder levantar dúvidas, um “pormenor” saltou à vista: Charles D.B. King conseguiu 234 mil votos – e só havia 15 mil eleitores.
Mas o resultado ficou. Valeu.
Ó Ciência Popular lembra que a Libéria é a mais antiga república moderna de África, fundada por negros que foram libertados nos EUA, no início e nos meados do século XIX.
Thomas J. R. Faulkner era do Partido Popular, Charles D. B. King era do True Whig Party. Apesar de ter perdido, não se calou: acusou King de permitir a escravatura na Libéria, e que altos funcionários do Governo e o exército estavam envolvidos no transporte forçado de trabalhadores para a então Fernão do Pó (hoje Bioco), ilha que era território espanhol – já depois de ter sido do império português.
As acusações não passaram ao lado de outros países. Houve reacções internacionais, pressões, e foi estabelecido um Comité da Sociedade das Nações para examinar as denúncias.
Em 1930, a Sociedade das Nações publicou o relatório do comité, o “Relatório Christy”: confirmou muitas das alegações de Faulkner e implicou vários funcionários do governo, incluindo o vice-presidente Allen Yancy. Havia escravos na construção de obras públicas, como estradas no interior do país; algumas tribos praticavam servidão doméstica que poderia ser considerada escravatura.
Nesse ano, três anos depois das eleições presidenciais, o presidente Charles D. B. King e o vice-presidente Allen Yancy (entre outros) demitiram-se.
Surpresa no Peru
Depois da fraude, a surpresa. E mudamos de continente.
Não Peru, eles 1990, Mário Vargas Llosajá muito famoso na época devido à sua carreira de escritor, venceu a primeira volta. Com margem ligeira (3 pontos percentuais), no entanto.
Na segunda volta, o candidato da Frente Democrática apareceu como favorito evidente. Mas do outro lado estava Alberto Fujimori, segundo jogo Mudança 90.
Mas quem era Alberto Fujimori? Esse é o ponto: era um estreante em política, um desconhecido que ficava perto de 1% nas sondagens três meses antes, recordava o Los Angeles Times nessa altura.
Então, como é que venceu? Muito por causa do que estava a acontecer no Peru naquela época.
O governo liderado por Alan Garcia desdobrou-se em tentativas de nacionalização do sistema bancário; e isso começou a originar a fúria dos locais, apesar da justificação do governo – controlar a inflação incontrolável, que tinha começado em 1987.
O mesmo governo de García começou a ser “atingido” por escândalos de corrupção e por terrorismo.
Mario Vargas Llosa aparecia como uma cara nova na política. Até se pensou que ia vencer logo na primeira volta.
Mas acabou por se “colar” um pouco à agenda fazer governo, ao apresentar uma lista de privatizações.
O candidato do partido no poder (Aliança Revolucionária Popular Americana) era Luis Alva Castro; ficou em 3.º na primeira volta, nem passou à segunda.
A campanha foi avançando e Alberto Fujimori – mesmo vindo de um partido novo e mais pequeno – foi subindo. Tinha um perfil mais moderado e acabou por atrair o apoio até dos candidatos tradicionais.
Chegado ao dia da segunda volta, o candidato com ascendência japonesa conseguiu mais de 62%, bem longe dos quase 38% de Mário Vargas Llosa.
Uma vitória surpreendente, esmagadora, e que colocou Fujimori como presidente até 2000 – ano da sua terceira vitória, mas em eleições consideradas fraudulentas.
Ainda em 2000, e após cada vez mais acusações de corrupção generalizada e crimes contra a humanidade dentro do seu governo, Fujimori fugiu para o Japão. E foi a partir do Japão que apresentou a sua demissão, por fax. O congresso do Peru não aceitou a sua demissão; preferiu a sua destituição; era “permanentemente incapaz moralmente” de exercer o cargo.
Alberto Fujimori viria a ser condenado a 25 anos de prisão.
