
Claire Spottiswoode
O guia-do-mel com um “parceiro de caça” humano
É raríssimo, mas ainda acontece. Ouça a chamada de recrutamento que moradores de aldeias do norte de Moçambique fazem para invocar o guia-do-mel.
Nas aldeias do norte de Moçambique, ainda há quem “fale” com pássaros para encontrar mel.
Um estudo recente mostra que comunidades de caçadores de mel na Reserva Especial do Niassa, em Meculausam diferentes “dialetos” de chamamentos para cooperar com uma ave selvagem em específico, o maior pássaro-do-mel ou guia-do-mel (Indicador indicador).
Nesta parceria rara estabelecida entre pessoas e animais não domesticados, os caçadores recorrem a dois tipos principais de vocalizações, segundo o estudo publicado a 21 de janeiro na Sociedade Ecológica Britânica.
As primeiras vocalizações são chamadas de recrutamento e são usadas para atrair a ave e iniciar a sessão de caça; as segundas são chamadas de coordenaçãoque permitem manter contacto enquanto o guia-do-mel conduz os humanos até uma colmeia.
Ao longo do percurso, a ave vai indicando a direção e insistindo para que o grupo a siga, numa espécie de “negociação” contínua mediada por som, como compara a Vida Selvagem da BBC. Quando a colmeia é localizada, os caçadores usam fumo para acalmar as abelhas e recolher o mel.
O guia-do-mel não sai de ‘asas a abanar’: aproveita os restos. Consome a cera e larvas, com a ajuda da mão humana.
Apesar de este ser um novo estudo, não é o primeiro a evidenciar o trabalho de equipa entre moçambicanos e estas aves. E a ligação não vem de agora: é milenar, segundo a Geografia Nacionalque notou uma colaboração semelhante na Tanzânia e no Quénia.
Este nem sequer é o primeiro estudo feito na Reserva Especial do Niassa. Uma investigação de 2016 já tinha mostrado que, com a ajuda destas aves, os caçadores têm mais de três vezes maior probabilidade de encontrar uma colmeia do que quando procuram sozinhos.
Uma outra investigação, publicada em 2023 na Science, mostrou que não são só os humanos que aprendem a atrair a ajuda destes pássaros. Também os pequenos voadores passam por um processo de aprendizagem.
Mas o novo estudo sugere que esta cooperação é moldada pela cultura. Os investigadores gravaram os chamamentos de 131 caçadores em 13 aldeias do Niassa e compararam as semelhanças entre comunidades. Descobriram que aldeias vizinhas tendem a usar chamamentos mais parecidos e que aldeias mais distantes exibiam maiores diferenças. Mais ou menos como acontece com variações regionais da fala humana.
A variação resulta sobretudo de processos culturais transmitidos socialmente, e não determinados pelo habitat, sublinham os investigadores.
A autora principal do novo estudo, Jéssica Van Der Walexplica ainda que estas aves “não podem aprender com os pais, porque são parasitas de ninhada: tal como os cucos, põem os seus ovos em ninhos de outras aves”, mas que “podem aprender observando outros guias-de-mel a interagir com os humanos.”
“Os humanos aprendem e mantêm os sinais locais necessários para cooperar com os indicadores-de-mel, e os indicadores-de-mel, por sua vez, estão provavelmente a aprender e, assim, a ajudar a reforçar estes dialetos humanos locais – tal como aprendem variações em larga escala nos sinais humanos em toda a África, mais semelhantes a diferentes línguas humanas”, acrescenta a autora sénior do estudo (e já envolvida em estudos anteriores sobre os guias-do-mel) Claire Spottiswoodedo Instituto FitzPatrick de Ornitologia Africana da Universidade da Cidade do Cabo, que lidera o projeto de investigação sobre estas aves.
Eis a tribo Hadzabe, na Tanzânia, a chamar e a coletar mel com a ave:
