
A instabilidade internacional e a sucessiva desvalorização da coroa sueca em relação ao euro está a levar Estocolmo a reconsiderar a sua oposição à moeda única. No entanto, há receios sobre a perda de independência.
A Suécia, que resistiu durante muito tempo a abandonar a sua moeda nacional, está a reavaliar a sua posição sobre a adesão ao euronum contexto internacional cada vez mais instável. As crescentes tensões impulsionadas pela guerra na Ucrânia e a incerteza em torno do comércio e da política externa dos EUA estão a conduzir a uma reavaliação de pressupostos antigos sobre a soberania monetária entre setores tradicionalmente mais céticos em relação à adesão à moeda única.
Durante décadas, a Suécia encarou a sua participação no bloco europeu com a sua famosa mentalidade “lagom” — a filosofia sueca moderada do “nem muito, nem pouco”. Na prática, isto traduzia-se em aderir à UE, mas mantendo sempre alguma independência através do controlo da coroa sueca, que as autoridades consideravam importante para a resposta aos choques económicos.
Embora o país nunca tenha garantido uma recusa formal do euro — ao contrário da vizinha Dinamarca —, um referendo em 2003, que resultou num claro “não”, pôs a questão de lado. Desde então, nem Bruxelas nem o Banco Central Europeu pressionaram Estocolmo para reconsiderar a decisão.
Este consenso, no entanto, começa a desfazer-se. A ministra das Finanças, Elisabeth Svantesson, declarou esta semana ao parlamento que o seu Partido Moderado criará uma comissão de peritos para avaliar os custos e os benefícios da adopção do euro, caso se mantenha no poder após as eleições parlamentares de Setembro. A medida sinaliza uma abertura que não existia antes, mesmo que o governo não chegue a comprometer-se com a adesão.
Os analistas dizem que o debate renovado está a ser impulsionado menos pelos argumentos económicos tradicionais e mais pelos receios de choque geopolítico. A adesão da Suécia à NATO após a invasão da Ucrânia pela Rússia demonstrou como as preocupações com a segurança podem abalar posições políticas consolidadas. Agora, as políticas comerciais erráticas dos EUA sob a administração de Donald Trump e a instabilidade global mais ampla estão a alimentar as preocupações com a vulnerabilidade da coroa sueca numa crise.
“Os decisores políticos podem temer que, numa crise grave — como uma escalada militar na região do Báltico — a coroa sueca possa desvalorizar demasiado depressa, com graves repercussões para a economia”, afirmou Stefan Gerlach, economista-chefe do EFG Bank, ao Político. Um cenário deste tipo poderá forçar o banco central da Suécia, o Riksbank, a aumentar drasticamente as taxas de juro para conter a inflação, levando potencialmente a economia à recessão.
O histórico recente da coroa sueca reforça estas preocupações. Na última década, a moeda perdeu mais de 20% do seu valor face ao euro, com uma recuperação ligeira nos últimos meses. Uma perda repentina da confiança dos investidores, desencadeada por tensões geopolíticas, poderá reacender a volatilidade e o ciclo de quebras.
O próprio Riksbank reconheceu a crescente incerteza. Após a sua última reunião de política monetária, o banco central alertou que embora a economia sueca tenha demonstrado resiliência até à data, a confiança das famílias e das empresas poderá deteriorar-se rapidamente.
Ainda assim, a resistência em relação ao euro continua profundamente enraizada. Os críticos temem que a adesão à moeda única exponha a Suécia a futuras crises na zona euro e a potenciais resgates soberanos, ao mesmo tempo que priva o país da sua política monetária independente.
A opinião pública reflete esta ambivalência. De acordo com um inquérito do Eurobarómetro realizado no ano passado, apenas 39% dos suecos acreditavam que o país estava pronto para adoptar o euro, embora este número tenha aumentado sete pontos percentuais na última década. O apoio poderá crescer ainda mais se as tensões internacionais se intensificarem e pressionarem a coroa sueca.
Lars Calmfors, que presidiu ao último painel de avaliação do euro da Suécia na década de 1990, publicou um relatório em Dezembro argumentando que os benefícios da adesão ao euro superam agora os custos. O especislista apontou uma integração comercial mais profunda, uma maior estabilidade financeira e um alinhamento geopolítico mais estreito com a Europa como vantagens essenciais, mesmo que isso signifique abdicar da independência monetária.
Calmfors sugeriu ainda que as pressões externascomo a persistência de Trump na anexação da Gronelândia e a ameaça de Putin a pairar sobre os países nórdicos, podem já estar a influenciar a opinião pública sueca em direção ao euro.
Qualquer movimento no sentido da adesão seria um processo longo, enfatizou Svantesson, sublinhando a sensibilidade política da questão. O governo depende do apoio dos Democratas Suecos, um partido populista de direita que é firmemente contra o euro. No entanto, os economistas alertam que o sentimento pode mudar rapidamente.
“Um drone russo a sobrevoar o espaço aéreo sueco pode ser suficiente”, disse Gerlach.
