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⁨Os chimpanzés entendem a morte?⁩



Mães chimpanzés e bonobos carregam crias mortas durante dias, mas será que isso prova que compreendem a morte?

Desesperadas, mães, não querendo dizer adeus, carregam o corpo dos filhos que já morreram. Não estamos a falar de mães humanas, mas sim de mães-chimpanzé.

O comportamento é comum e muitas vezes observado, tanto em chimpanzés como em bonobos, e tem levado os cientistas a questionar se se trata de luto, o que implica uma noção de morte, ou do contrário: um prolongamento automático do cuidado materno, sem uma compreensão clara da irreversibilidade da morte?

Um novo estudo, ainda não revisto por pares, analisou 83 casos publicados de “transporte de cadáver de crias” (ICC, na sigla em inglês). Chimpanzés e bonobos pertencem ao género Pan e são os nossos parentes vivos mais próximos, motivo pelo qual o seu comportamento é frequentemente usado para discutir quais capacidades cognitivas podem ser partilhadas com os humanos, explica o Ciência IFL.

Os autores do trabalho disponível na bioRxiv defendem que, na maioria das situações descritas, o transporte do corpo não exige, por si só, uma noção “completa” de morte como estado biológico irreversível. Em vez disso, o fenómeno poderá resultar sobretudo de um padrão de cuidado enraizado: a mãe continua a agir como se a cria ainda estivesse viva, porque a rotina e o vínculo materno foram fortemente reforçados ao longo do tempo.

O estudo aponta para várias associações que sustentam esta última hipótese. Uma das principais é a relação entre a duração do ICC e a idade da cria no momento da morte.

Em média, as mães transportariam durante mais tempo as crias mais velhas do que os recém-nascidos — quanto mais tempo a mãe passou a cuidar da cria, mais forte tende a ser o vínculo e mais “automático” se torna o conjunto de comportamentos de cuidado, o que torna mais difícil interrompê-los de imediato, mesmo depois da morte.

Outra associação observada diz respeito ao intervalo entre nascimentos no grupo. Em populações com maiores espaçamentos reprodutivos, a duração do ICC seria, em geral, mais longa.

UM forma como a cria morre também parece influenciar o padrão. O ICC tende a durar mais quando a morte ocorre por doença do que quando resulta de infanticídio cometido por machos adultos. Uma interpretação possível é que, na ausência de um evento violento, a morte pode ser “mais ambígua” e menos percetível para a mãe. Mas os autores dão outra explicação: o risco social. Após infanticídio, manter o corpo pode aumentar a tensão com machos e expor a fêmea a novas agressões, tornando o abandono mais rápido uma estratégia de redução de risco.

Mas depois há casos que parecem inexplicáveis ​​em que, por exemplo, as mães transportaram os cadáveres durante tanto tempo que estes mumificaram. Para os autores, mesmo este cenário pode ser compatível com uma explicação baseada em hábitos de cuidado e vínculo, sem necessariamente implicar uma representação mental da morte como “final”.

Recorde-se que há registo de outras espécies — até marinhas — com um comportamento de “luto” semelhante.

Há relatos de elefantes na Índia a cobrirem ou “enterrarem” corpos de crias e de macacos-japoneses a manterem interações de cuidado com companheiros mortos. No oceano, uma das imagens mais mediáticas foi a de uma orca que, em 2018, transportou a cria morta durante 17 dias; o mesmo animal foi novamente observado em comportamento semelhante após outra perda no início de 2025.

E claro, não podemos esquecer a reação da famosa gorila Koko, com formação em Língua Gestual Americana, que terá sido capaz de expressar tristeza pela morte do seu gatinho de estimação, All Ball, e lamentado o falecimento do seu amigo Robin Williams. E, quando questionada sobre para onde vão os gorilas após a morte, sinalizou: “Buraco confortável, adeus”. Ou o caso de Mama, a chimpanzé que, diz-se, deitou-se para morrer, mas sorriu mais uma vez quando viu o seu antigo amigo.



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