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Na Fuggerei paga-se 7 cêntimos de renda. Mas tem de se rezar pel’O Rico



Mais de 500 anos depois de o bairro da Fuggerei ter nascido em Augsburgo, as rendas mantêm-se abaixo de um euro. Há regras a cumprir, inalteradas desde 1521.

Imagine, por um segundo, que pagava apenas 88 cêntimos por ano de renda. Sim, leu bem e é real: bem-vindo à Fuggery.

Localizada em Augsburgo, Fuggerei é o projeto de habitação social mais antigo do mundo e continua a disponibilizar habitação subsidiada a residentes da cidade bávara em situação de carência económica.

Hoje, vivem na Fuggerei cerca de 150 pessoas, distribuídas por 140 apartamentos. A Fuggerei recebe entre 30 e 40 candidaturas por ano, com uma lista de espera que tem atualmente 80 pessoas.

Oportunidade para recomeçar

Noel Guobadia é um jovem bem-disposto de 27 anos que vive na Fuggerei desde a adolescência. A mãe, então solteira, atravessava dificuldades financeiras quando se mudou para o bairro, com Noel e o irmão mais novo. No início, estava apreensivo.

“É um bairro antigo onde, na altura, a maioria das pessoas que lá vivia era idosa, e eu preocupava-me constantemente com a forma como isto ia funcionar”, contou à DW em 2022. “Fomos a primeira família com um evidente contexto migratório. Alguns dos residentes poderiam ficar chocados.”

A configuração da Fuggerei, que oferece espaços de encontro e incentiva a interação social entre vizinhos, ajudou a dissipar quaisquer hesitações.

“A comunicação resolve tudo”, disse Guobadia. “Sentamo-nos todos juntos na esplanada. Ajuda-se alguém, ocasionalmente, a configurar a televisão e, de repente, é como se tivesse uma segunda família.”

Aos 20 anos, mudou-se para o seu próprio apartamento na Fuggereia apenas duas portas de distância da mãe e do irmão. Considera as “Omis e Opis” (as avós e os avôs) da Fuggerei amigos: partilham piadas e cervejas, e ele recebe conselhos.

Um dos aspetos mais singulares da Fuggerei é a renda anual, inalterada, de um florim renano — moeda de ouro da Renânia, usada nos séculos XIV e XV. Um desses florins corresponde a menos de 1 euro na moeda atual.

Para Guobadia, o baixo custo de vida na Fuggerei foi uma oportunidade para se desenvolver como jovem adulto sem o stress esmagador de tentar pagar a renda.

“[A Fuggerei] tirou-me um dos meus maiores medos: consegui viver com o pouco dinheiro que ganhava durante o meu estágio, porque esse grande peso da renda deixou de existir”, disse. “Deram-me a oportunidade de me concentrar em mim e de começar a construir bases para a minha vida.”

Uma comunidade

Ilona Barber, na Fuggerei há seis anos, também deixou de ter dificuldade em sobreviver com a sua magra pensão.

“No Natal, recebi a mensagem de que o apartamento era meu. Foi o meu presente de Natal”, contou a mulher de 71 anos. Mudou-se para um apartamento de rés-do-chão com 55 metros quadrados, dois cães, dois gatos e seis pássaros, e tornou-se uma presença habitual na Fuggerei.

Quando não está a trabalhar na caixa junto ao portão de entrada, a cobrar a taxa de entrada aos turistas — uma das fontes de receita da Fuggerei — faz pequenos recados para os vizinhos e participa em eventos comunitários, como noites de cinema e encontros para café.

“Prezo muito a solidariedade, a comunidade que temos aqui”, disse. “E o facto de não ser preciso estar a contar cada cêntimo.”

A Fuggerei também dá aos residentes acesso a dois assistentes sociaisincluindo Doris Herzog, cujas responsabilidades incluem receber e analisar candidaturas, mediar conflitos entre vizinhos e ajudar em tarefas burocráticas.

“Eu contacto as seguradoras de saúde, os serviços médicos e, muitas vezes, acompanho as pessoas às suas reuniões para garantir que conseguem o que precisam para continuar a viver com a maior autonomia possível nas suas próprias casas”, explicou Herzog.

As regras da Fuggerei

Não é só a renda da Fuggerei que se mantém inalterada desde 1521. Outra regra fundamental: os residentes têm de rezar pelo fundador, Jakob Fugger, três vezes por dia.

A condição faz parte do contrato de arrendamento e está ligada a outro requisito para viver na Fuggerei: os inquilinos têm de ser católicos.

Embora seja bastante difícil verificar se todos os residentes cumprem as três orações diárias, Herzog confirma junto do secretariado paroquial o estatuto dos candidatos, para garantir que pertencem à comunidade católica.

Os candidatos também têm de ser residentes oficiais de Augsburgo e, os que o podem fazer, espera-se que ajudem em pequenas tarefas na Fuggerei, como jardinagem ou trabalho como guarda-noturno.

Depois das 22h, os portões da Fuggerei fecham oficialmente. Os residentes que queiram entrar após essa hora têm de pagar uma pequena quantia simbólica ao guarda-noturno de serviço, normalmente 50 cêntimos.

“Uma aldeia dentro de uma cidade”

O bairro assemelha-se a uma espécie de condomínio fechado medieval, com espaços verdes, uma pequena praça onde os residentes se podem sentar nos bancos à volta e pôr a conversa em dia, e uma fonte. Residentes e funcionários descrevem frequentemente a Fuggerei como “uma aldeia dentro de uma cidade”.

O nome do bairro vem do seu fundador, Jacob Fuggerum destacado comerciante e empresário de Augsburgo, cuja família era sinónimo do comércio de cobre. Embora Fugger exigisse aos inquilinos que rezassem por ele três vezes por dia como forma de reduzir o seu próprio tempo no purgatório, foi também um pioneiro ao criar habitação acessível para os pobres.

Astrid Gabler, diretora de comunicação da Fundação Fugger, diz que a ideia de Fugger de criar um espaço para cidadãos empobrecidos voltarem a ganhar estabilidade era invulgar para a época.

“Fugger deu às pessoas a possibilidade de terem direito à privacidade quando caíam na pobreza”, afirmou.

Na época, as famílias empobrecidas eram frequentemente separadas e enviadas para casas de trabalho.

“Fugger manteve as famílias unidas”explicou Gabler. “Acreditava que as famílias que tinham privacidade tinham melhores hipóteses de voltar a erguer-se.”

A 23 de Agosto de 1521, Fugger assinou o decreto que fundou a Fuggerei. O bairro continuaria a crescer e a mudar com o avançar dos séculos: foram acrescentados mais apartamentos, bem como uma loja de recordações e um museupara o número crescente de turistas que o visitam todos os anos. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi construído um bunker para proteger os residentes dos bombardeamentos.

A Fuggerei como modelo

Gabler disse que uma componente-chave da celebração do 500.º aniversário foi o chamado “Código Fugger”um plano para futuras Fuggerei em todo o mundo.

“Jakob Fugger criou a Fuggerei ‘in exemplum’, isto é, como modelo”, disse. “Queremos que as pessoas pensem em construir as Fuggerei do futuro em todo o mundo.”

A Fuggerei pertence à Fundação Fugger e é apoiada por um fundo gerido por um conselho sénior, composto por membros atuais da elite da família Fugger.

Assim, embora a Fuggerei defenda, por um lado, uma habitação social sustentável e independente, por outro continua intimamente ligada a gerações da família Fugger.

As Fuggerei do futuro seguirão este modelo, baseado em riqueza privada, ou serão fundações financiadas publicamente? Ou uma combinação de ambos? São questões ainda por explorar.



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