
Após uma semana de chuva intensa e ventos fortes que causaram 10 mortes e deixaram 68 concelhos em calamidade, Portugal enfrenta, esta quarta-feira, a chegada de uma nova tempestade, ainda com populações privadas de eletricidade e a precisar de ajuda.
Todos os distritos de Portugal continental estão esta quarta-feira, e até quinta, sob aviso amarelo devido à previsão de chuva por vezes forte, passando a aguaceiros, devido à passagem da depressão Leonardo.
O IPMA informou, em comunicado, que as ondulações frontais associadas à depressão Leonardo irão afetar o estado do tempo em Portugal continental até sábado, com períodos em que a precipitação será persistente e por vezes forte, queda de neve nas terras altas do Norte e Centro, vento forte e agitação marítima forte.
“Para os dias seguintes prevê-se a passagem de novas superfícies frontais e a continuação deste padrão muito instável”, é referido na nota.
O sistema frontal começa pela região sul e irá estender-se, pouco a pouco, às restantes regiões do continente durante o dia, prevendo-se que o período com valores acumulados de precipitação mais elevados e vento mais intenso seja na noite de quarta para quinta-feirapassando gradualmente a regime de aguaceiros, que poderão ser de granizo e acompanhados de trovoada.
Como vai estar o tempo em cada distrito
Devido a esta previsão meteorológica, o IPMA emitiu aviso amarelo de chuva por vezes forte para os distritos de Évora, Faro, Setúbal e Lisboa até às 15h e a partir desta hora até às 09h de quinta-feira.
Viseu, Vila Real, Santarém, Viana do Castelo e Braga estão sob aviso amarelo por causa da chuva até às 21h e depois entre às 03h e às 09h de quinta-feira.
Bragança, Porto, Guarda, Leiria, Beja, Castelo Branco, Aveiro, Coimbra e Portalegre vão estar sob aviso amarelo devido à chuva entre as 03h e as 09h de quinta-feira.
O IPMA colocou igualmente todos os distritos em alerta por causa do ventonos dois dias, prevendo-se rajadas até 90 quilómetros por hora e até 100 nas serras.
Devido ao estado do mar, as barras marítimas de Aveiro, Caminha, Douro, Esposende, Figueira da Foz, Vila Praia de Âncora, Póvoa do Varzim, Vila do Conde, Ericeira, Nazaré, São Martinho do Porto, Albufeira e Alvor estão encerradas a toda a navegação.
Já as barras marítimas de Leixões, Viana do Castelo, Lisboa e Portimão estão condicionadas.
Leonardo começa a fazer estragos
A nova depressão já inundou algumas zonas de Grândolatendo a circulação da Linha ferroviária do Sul sido suspensa naquela localidade do distrito de Setúbal.
Além disso, de acordo com a CP, mantinham-se também, pelas 09h, a suspensão na Linha do Douro, entre Régua e Pocinho, e na Linha do Oeste.
A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) registou, entre as 00h e as 07h, 121 ocorrências relacionadas com o mau tempo.
Segundo a proteção civil, a maioria das ocorrências (33) foram registadas na sub-região de Lisboa e na Península de Setúbal com 26.
17,1% da população em situação de calamidade
Os 68 concelhos em situação de calamidade após a passagem da depressão Kristin têm 17,1% da população residente em Portugal e 16,7% da área total.
A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados, durante reparações, ou intoxicação com origem num gerador.
Os autarcas dão conta das necessidades da população em sucessivos apelos para a reconstrução de casas e infraestruturas, que exigem materiais e mão-de-obra qualificada.
Os estragos estão ainda a ser contabilizados, desde a destruição total ou parcial de casas, redes de abastecimento de energia e comunicações, num momento em que se teme o agravamento das condições meteorológicas e uma nova subida das águas dos rios, já a transbordar.
O rasto da tempestade afetou fortemente as vias de comunicação, estradas, caminhos-de-ferro, escolas, deixando populações isoladas e pessoas desalojadas. Os feridos contabilizam-se em centenas.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
Escolas encerradas na quarta-feira da semana passada deverão começar a reabrir apenas uma semana depois, mas algumas só abrem portas na segunda-feira.
Na Marinha Grande, o fornecimento de energia elétrica foi restabelecido em metade do concelho, enquanto as comunicações apenas foram repostas no centro da cidade, de acordo com a informação disponível na terça-feira.
Noutras zonas do país, como no distrito de Castelo Branco, há ainda municípios sem comunicações móveis ou com instabilidade nas redes.
As Forças Armadas foram envolvidas no socorro à população, mas a ajuda demorou a chegar ao terreno e continua a ser solicitada para ajudar a reconstruir telhados levados pelo vento e outras ações para repor a normalidade possível.
O Governo determinou, entretanto, a isenção de portagensdurante uma semana, para facilitar a mobilidade nas zonas mais afetadas pela depressão Kristin, em quatro troços com origem e destino em nós das autoestradas 8, 17, 14 e 19.
O Governo estima que sejam necessários cerca de 20 milhões de euros para intervenções de recuperação.
A quem contava com as verbas do Plano de Recuperação e Resiliência, o presidente da Comissão de Auditoria e Controlo do PRR já avisou que não é possível “contar com o dinheiro” do plano para acudir ao impacto causado pelo mau tempo.
Ó país mobiliza-se para enviar ajuda às populações mais afetadasorganizando grupos de voluntários para recolha de bens e limpeza de vias, com muitas estradas cortadas pela queda de árvores ou inundações.
Com as barragens na capacidade máxima, os solos saturados e a previsão de continuação de chuva, esperam-se cheias junto aos riosnomeadamente o Dourona Régua, mas também noutros locais.
A Comissão Europeia manifestou solidariedade com Portugal, face aos impactos do mau tempo, defendendo uma resposta articulada, recurso ao fundo de solidariedade e investimento em redes elétricas mais resilientes.
A passagem da depressão Kristin, na madrugada do dia 27 de janeiro, deixou inoperacionais 774 quilómetros (7%) de linhas de muita alta tensão e derrubou 61 postes.
Aproximadamente 1,7 milhões de clientes ficaram sem energia elétricaem consequência das condições meteorológicas adversas que se fizeram sentir durante aquela noite, de acordo com a E-Redes, do grupo EDP.
Desde terça-feira, vários distritos do continente e os arquipélagos da Madeira e dos Açores mantém-se sob aviso devido ao vento, chuva, agitação marítima e queda de neve.
