
Super-reconhecimento, super-memória, ecolocalização. Muitas pessoas comuns têm capacidades que o resto de nós poderia chamar de super-poderes. Mas é possível aprendermos estas habilidades.
O Homem-Aranha consegue trepar paredes. O Ciclope consegue disparar feixes de energia dos olhos. A Mulher-Maravilha tem tanto super-força como super-agilidade. Coisas de super-heróis…
Já os seres humanos comuns podem não conseguir voar, erguer edifícios ou correr tão depressa como uma bala, mas muitas pessoas comuns têm super-poderes, ou pelo menos o que parecem ser talentos sobre-humanos.
Algumas destas capacidades podem ser inatas, mas outras podemos conseguir aprender por nós próprios, explica a Descobrir.
1. Super-Reconhecimento: Rostos que se Destacam na Multidão
Já alguma vez se cruzou com alguém e pensou: “Eu sei que já vi aquele rosto algures”, mas simplesmente não consegue recordar-se de quem é ou onde se conheceram?
Os super-reconhecedores não têm esse problema. São pessoas que são muito melhores do que a maioria a reconhecer rostos — até os rostos de pessoas que não veem há anos.
Ricardo Russelprofessor de psicologia no Gettysburg College, descreveu pela primeira vez esta condição num artigo de 2009 na revista Boletim e revisão psiconômica.
O super-reconhecimento é o extremo oposto do espectro da prosopagnosiaou “cegueira facial”, a incapacidade de reconhecer rostos, explica Russel.
Há áreas cerebrais específicas envolvidas na percepção de rostos, mais notoriamente a Área Fusiforme da Face (FFA), mas até agora nenhuma investigação definitiva explicou o fenómeno do super-reconhecimento.
Tal como a prosopagnosia, o super-reconhecimento é uma condição um tanto discreto. “Não sabemos realmente que a temos a não ser que façamos um teste formal. Ou talvez possamos aprender com o tempo que estamos a ver as coisas de forma subtilmente diferente das outras pessoas”, afirma Russell.
Até as pessoas que sabem que são super-reconhecedoras tendem esconder esse facto. Dizer às pessoas que as reconhecemos quando elas não estão à espera pode por vezes fazer-nos parecer um pouco “intrusivos”diz Russell.
Ainda assim, esta rara capacidade pode ser útil. No Reino Unido, por exemplo, as forças policiais recrutam super-reconhecedores para tarefas como identificar suspeitos apanhados em circuito fechado de televisão e vasculhar multidões em eventos públicos à procura de infratores conhecidos.
2. Super-Memória e Mnemónicos: A Prática Leva à Perfeição
O super-poder de algumas pessoas é a memória. Os campeões de memóriapor vezes chamados mnemonistassão pessoas que conseguem memorizar longas listas de itens, como números ou cartas de baralho organizadas aleatoriamente.
Em 2025, Vishva Rajakumarum estudante de 20 anos de Puducherry, na Índia, memorizou 80 dígitos aleatórios em 13,5 segundos. Naturalmente, venceu o Campeonato do Mundo da Liga da Memória.
Por mais impressionantes que sejam estas proezas, os mnemonistas são mais como o Batman do que como o Super-Homem: esta capacidade é adquirida. Os super-memorizadores aprendem técnicas para os ajudar a recordar longas listas.
Uma dessas técnicas, o método de dois locitambém conhecido pelo nome de Palácio da Memóriaenvolve atribuir a cada item da lista que se quer memorizar um lugar específico num mapa imaginadotalvez a casa onde crescemos ou o bairro onde vivemos, explica a campeã de desportos de memória Katie Kermode.
Depois, percorremos mentalmente a casa ou o bairrorecolhendo essas memórias. Não é bem assim tão simples, nem tão fácil como parece, mas é eficaz — e com prática, a maioria das pessoas consegue dominá-lo.
O facto de estes talentos não serem inatos não significa que os cérebros destes campeões da memória sejam iguais aos cérebros do resto de nós. Um estudo de 2017 na revista Neuron descobriu que a prática destas técnicas pode resultar em alterações duradouras no padrão de conexões do cérebro.
Claro, para que esta técnica funcione com você, tem de praticare só ajuda com as coisas que está a tentar memorizar. Até os super-memorizadores se esquecem ocasionalmente de onde deixaram as chaves do carro.
3. Ecolocalização: Usar os Nossos Ouvidos para Navegar
Quando pensa em ecolocalizaçãoprovavelmente pensa em morcegos ou baleias. Mas os humanos também conseguem ecolocalizar.
Segundo Lore Thalerneurocientista na Universidade de Durham, no Reino Unido, “os seres humanos usam a ecolocalização, de forma passiva, a toda a hora” — ainda que sem consciência de que o estão a fazer.
Quando os humanos ecolocalizam, projetam estalos feitos com a boca ou por vezes estalidos de dedos, e os sons ricochetam em quaisquer objetos à sua frente, explica Thaler num estudo publicado em 2013 na revista Frontiers.
Com esta técnica, é possível estimar a que distância está um objeto pelo tempo que o eco demora a voltar. Se o objeto está à direita ou à esquerda pode ser determinado notando em que ouvido o eco é mais alto. Thaler estuda este fenómeno há anos, e treina pessoas a aperfeiçoar a técnica.
Pensava-se outrora que apenas as pessoas cegas conseguiam dominar esta capacidade. No entanto, Thaler e a sua equipa provaram o contrário: treinaram pessoas cegas e com visão, e encontraram pouca diferença na sua capacidade de aprender o método.
“Não é terrivelmente difícil“, diz o neurocientista.
No entanto, Thaler afirma que, como é mais benéfico para as pessoas cegasestas envolvem-se mais no treino, embora saliente que a técnica é um complementonão um substituto para cães-guia e bengalas longas.
“As pessoas que usam a ecolocalização ao que chamamos nível de peritosão todas pessoas cegas, porque para elas é mais útil do que para pessoas com visão normal”, explica.
Embora os benefícios sejam óbvios para as pessoas cegas, Thaler diz que as pessoas com visão que aprenderam a técnica relatam que esta aumenta a sua sensibilidade geral ao som. “Gostam bastante”, afirma.
A investigação de Thaler descobriu que a ecolocalização é processada inicialmente nos mesmos centros cerebrais que qualquer outro som, como o córtex auditivo primário, e depois ativa outras áreasincluindo muitas áreas que estão associadas à visão.
Estas são apenas algumas das características aparentemente sobre-humanas que as pessoas comuns possuem. Talvez mais de nós devêssemos usar capas.
