
Simon Meier./Escritório Estadual de Gestão do Património e Arqueologia da Saxónia-Anhalt
Vista aérea do fosso trapezoidal do Neolítico Médio; a perturbação causada pela terraplenagem do final da Idade Média pode ser observada no sudeste.
Outra erdstall descoberta. Afinal, para que serviam estas passagens estreitas e discretas que os nossos antepassados escavavam?
Arqueólogos na Alemanha descobriram recentemente mais um túnel subterrâneo antigo e bastante invulgar, no interior de um complexo funerário pré-histórico. O achado que a equipa responsável descreve como “muito especial” volta a lançar dúvidas sobre algo ainda muito compreendido: as chamadas erdstallsque parecem ser passagens estreitas e discretas, escavadas por humanos, espalhadas por várias regiões da Europa.
O túnel mais recente foi identificado perto da localidade de Reinstedt, no estado federal da Saxónia-Anhalt, segundo o Archeonews. Trata-se de uma estrutura enterrada com cerca de 60 centímetros de largura e 1,2 metros de altura e terá sido construída há entre 800 e 1.100 anos.
No interior, os investigadores encontraram uma pequena câmara com fragmentos de cerâmica datáveis dos séculos XIII ou XIV. Numa cavidade à parte foram recolhidos uma ferradura, um esqueleto de raposa e ossos de pequenos mamíferos. Um detalhe chamou a atenção: uma camada de carvão ao longo do túnel — sinal de que, em algum momento, foram feitas fogueiras no local.
A descoberta aconteceu no âmbito de trabalhos de prospeção e documentação iniciados no ano passado, antes da instalação de aerogeradores na área. O sítio era já conhecido por conter um fosso trapezoidal utilizado como espaço funerário por comunidades da Cultura Baalbergeque viveram naquela região durante o Neolítico, há cerca de 6.000 anos.
Segundo os arqueólogos, em comunicadoa passagem subterrânea foi escavada muito depois: parte do fosso antigo foi cortado quase em ângulo reto. À primeira vista, a forma do corte no terreno, uma cavidade oval alongada, levou a equipa a suspeitar de uma sepultura; a confirmação de que se tratava, afinal, de uma erdstall foi uma surpresa.
As erdstalls são até hoje uma das maiores interrogações da arqueologia europeia. Existem centenas de exemplos registados, mas a sua função, ninguém sabe qual é ao certo. Algumas hipóteses apontam para esconderijos usados em tempos de perigoenquanto outras sugerem usos econômicoscomo caves de armazenamento, explica o 404 Mídia; há ainda interpretações que admitem funções religiosas ou rituaiseventualmente associadas a práticas cristãs. O problema é que estas estruturas raramente contêm materiais arqueológicos suficientes para sustentar conclusões firmes, e é possível que tenham desempenhado papéis diferentes consoante o contexto local.
No caso de Reinstedt, a equipa considera plausível que a escolha do local, um antigo cemitério “pagão”, não tenha sido acidental. A área poderia ser um esconderijo discreto e pouco frequentado.
Por serem extremamente estreitas, estas passagens surgem associadas em várias regiões a narrativas sobre duendes, goblins e anõesrefletidas em designações populares como “buracos de goblins” ou “buracos de anões”.
A escavação em Reinstedt está concluída e a equipa encontra-se agora a avaliar os dados e os materiais recolhidos. Está prevista uma publicação científica, e os investigadores esperam que futuras descobertas permitam compreender melhor a distribuição, o uso e, sobretudo, a função destas enigmáticas estruturas subterrâneas que continuam a ser um mistério.
