
Filipe Amorim / LUSA
António Leitão Amaro, ministro da Presidência
Faz falta mão de obra para ajudar a “reconstruir” as zonas afetadas pelo mau tempo. Porém, a estratégia do atual Governo parece ter boicotado essa missão. “Seguiu-se o ponto de vista desinformado da multidão, para recolher ganhos políticos. As consequências estão à vista”.
Em junho, o Governo anunciou um pacote com várias mudanças para mudar o rumo da imigração, em Portugal, entre as quais constava um reajustamento nos vistos de trabalho, em que só os profissionais altamente qualificados beneficiariam de uma exceção na possibilidade de virem para Portugal sem contrato de trabalho.
“O visto para vir para Portugal ainda sem contrato ou promessa de contrato de trabalho subsistirá apenas para pessoas altamente qualificadas (…) investigadores, docentes, estudantesque venham investigar, ensinar, estudar…”, anunciou o ministro da presidência António Leitão Amaro.
“Há um sinal de redirecionamento dos fluxos para que nos permitam adquirir mais talento. Encetaremos também rapidamente com as instituições de ensino superior a proposta de negociação de um regime em que seja possível garantir previsibilidade e agilidade quando são cumpridas condições de atração de talento”, acrescentou.
Oito meses depois, o ministro da Economia, Manuel Castro Almeidasobre as tempestades que têm atingido algumas regiões do país e a necessidade de gente para ajudar na reconstrução das mesmas, reconheceu, em entrevista na RTP, que “a falta de mão de obra é uma dificuldade enorme no setor da construção civil”, admitindo a entrada de mais imigrantes para garantir a tal mão de obra.
Esta semana, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousadefendeu a abertura de “um canal de entrada” de imigrantes para dar resposta à falta de mão-de-obra para reconstruir as zonas afetadas.
O Chefe de Estado disse ter ouvido já várias pessoas com a mesma preocupação: “Um dos problemas levantado por vários empresários e setores afetados, e até por instituições como os bombeiros, foi dizerem-me que tudo isto [dos apoios] é muito bonito, mas é preciso haver mão de obra para fazer as obras”.
“O Governo não foi pedagógico” e agora…
Já CNNPortugalesta semana, recuperando as declaração de junho do Executivo, Sérgio Sousa Pinto apontou que o país está a sofrer as consequências de decisões “descabidas” do Governo.
“Depois de um conjunto de medidas tomadas pelo Governo, em concertação com o Chega, no sentido de condicionar o acesso de imigrantes ao país, e de dizer algo completamente descabelado de que o país precisa de quadros qualificados e não de quadros com qualificações médias ou baixasque são, justamente, aquelas que neste momento a situação exige, não temos as disponibilidades necessárias para lidar com uma situação desta natureza”, notou.
O ex-deputado do PS considerou ainda que Marcelo Rebelo de Sousa quis dizer que o Governo não foi pedagógico com os portugueses e agora são os mesmo portugueses a sofrer as consequências: “O Presidente foi claro quando disse que a política é feita de escolhas e que o Governo, em vez de liderar e ter uma ação pedagógica sobre a opinião pública acerca da situação demográfica do país, sobre os impactos do mercado de trabalho, sobre a percentagem de imigrantes indispensáveis à mão de obra nacional, que já vai em números recorde, não fez pedagogia”.
“Em vez disso, seguiu-se o ponto de vista desinformado da multidão, para recolher ganhos políticos. As consequências estão à vista e vão continuar a manifestar-se, com a necessidade de mão de obra, impossível de satisfazer. Como é que se vai reconstruir a zona centro, que está completamente devastada?!”, acrescentou.
“É pôr os milhões de cientistas e investigadores a consertar telhados”
Esta sexta-feira, também na CNNPortugalSérgio Sousa Pinto voltou a expressar indignação perante a situação de falta de mão de obra que considera ter sido provocada pelo Governo, que acusa de ter preferido “namoriscar o Chega”, em vez de tomar decisões baseadas nas necessidades reais do país.
“Convém lembrar que a imigração legal regulada que o Governo anunciou era o ministro Leitão Amaro a dizer que só queríamos cientistas, estudantes e investigadores. Pois, então, já devem ter vindo milhões, que devem estar todos ali na fronteira a tentar entrar para vir investigar, é pô-los todos a consertar telhados“, disse, com ironia.
“O Governo preferiu, por razões políticas sofisticadíssimas, namoriscar o Chega e isolar o PS e tratá-lo como o partido do facilitismo, entrando na fase das portas fechadas. Agora vamos ver quem é que vai resolver o problema da reconstrução do centro do país. Felizmente, o primeiro-ministro já disse que a imigração regulada, presumo que sejam os tais investigadores, vão rapidamente avançar em direção a Leiria com um balde e uma pá“, concluiu, reforçando a crítica.
