
José Coelho / Lusa
António José Seguro a celebrar a vitória na segunda volta das presidenciais
Apesar de ter muitos críticos e céticos dentro do próprio PS, António José Seguro conseguiu uma vitória histórica e até obteve o maior número de votos de sempre numas presidenciais.
Ninguém dava muito por ele quando anunciou a candidatura. Afinal, à data da primeira sondagem, em novembro de 2024, António José Seguro tinha menos de 5% das intenções de voto.
Até dentro do próprio PS, partido de que ainda é militante, havia uma grande hesitação e até rejeição total por parte de alguns setores. Depois de Seguro ter afirmado em finais de 2024 que estava a ponderar avançar, os dirigentes socialistas tentaram logo acalmar as pressões para o apoiar, pressões essas que vinham de figuras influentes no partido, como Francisco Assis.
“Começou o tempo de manifestação dos candidatos, ainda não começou o tempo da decisão dos partidos”, afirmou uma fonte direção socialista na altura à Renascença. “Não me apanhou de surpresa. Ao fim de 10 anos, não melhorou“, criticou outro dirigente do PS.
A mera menção feita por Pedro Nuno Santos do nome de António José Seguro como um dos possíveis candidatos do PS numa entrevista foi o suficiente para chatear a sua direção socialista, que entendeu a referência como um encorajamento indesejado. À época, o Expresso falou com a grande maioria dos membros deste órgão de direção socialista e nenhum era fã do avanço de Seguro, com alguns até a descrevê-lo como “bastante próximo do PSD“. “Causou muita alegria à direita e é uma boa razão para não ser um candidato do PS”, atirou uma fonte.
“Não foi lançado, foi referido, tal como outros”, disse um dirigente à Renascença, com outro a frisar que “isso é desculpa de mau pagador”. A deputada Isabel Moreira também chegou a dizer publicamente que “António José Seguro não é a pessoa mais indicada, com o melhor perfil”.
Dado o seu historial com Seguro, não foi muito surpreendente que Pedro Nuno Santos tenha rapidamente tentado apagar o fogo. Recorde-se que o à altura secretário-geral do partido apoiou António Costa nas primárias contra Seguro em 2014. “Nós não estamos ainda nessa fase neste momento. O PS terá o seu tempo para tomar decisões”, afirmou.
Perante as movimentações de Seguro, os socialistas que não eram seus adeptos apontaram para Mário Centeno como um “tampão” para as ambições dos seguristas. “Cabe agora à maioria sensata do PS fazer tampão a isto. Está na hora de Centeno dizer que também está a ponderar, até porque está. Antes que isto se torne numa onda incontrolável”, afirmou um dirigente.
Quando Centeno não avançou, as atenções viraram-se para António Vitorino. Quando Vitorino não avançou, houve ainda quem falasse em Augusto Santos Silva — que foi durante algum tempo apontado como o favorito durante a maioria absoluta de curta duração do PS.
Quando Santos Silva não avançou, ainda se falou em António Sampaio da Nóvoaque já tinha concorrido em 2016. No entanto, fontes ouvidas pelo Público avançaram que o ex-reitor estava a hesitar porque acreditava que o aparelho do PS iria apoiar Seguro — o oposto do cenário de 2016, quando a máquina socialista apoiou Sampaio da Nóvoa e a maioria dos seguristas estava com Maria de Belém.
Outros nomes foram outrora sugeridos, como Anna Gomes, Elisa Ferreira ou até o secretário-geral da ONU António Guterres. Nenhum se chegou à frente.
Até depois da demissão de Pedro Nuno Santos, o mais centrista José Luís Carneiro continuou a adiar o anúncio do apoio a um candidato presidencial. A confirmação, aparentemente relutante, lá acabou por surgir em outubro de 2025.
Com o avanço da pré-campanha e a sua subida nas sondagens, Seguro foi, um a um, conquistando os mais céticos e somando apoios dentro do partido, incluindo de Pedro Nuno Santos. Esta hesitação acabou até por dar força às repetidas descrições do novo Presidente à sua candidatura como “apartidária” e “sem amarras”.
O caminho até Belém
Licenciadoem Relações Internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa, o interesse de Seguro pela política começou cedo. Militante socialista desde 1980, Seguro construiu o seu percurso político no seio do partido, primeiro como secretário-geral da Juventude Socialista (1990-1994) e também como presidente do Conselho Nacional da Juventude e do Fórum da Juventude da União Europeia. Para além disso, foi ainda vice-presidente da União Internacional das Juventudes Socialistas.
Militante socialista desde 1980, Seguro construiu o seu percurso político no seio do partido, primeiro como secretário-geral da Juventude Socialista (1990-1994) e mais tarde como secretário-geral do PS.
Entre os episódios marcantes da sua liderança na JS está o “Deixa-me seduzir-te”, uma campanha distribuição de preservativos para sensibilizar para a prevenção da SIDA, numa altura de crescimento da epidemia. A iniciativa gerou forte controvérsia, sobretudo junto de setores conservadores e da Igreja Católica, mas consolidou a imagem de um dirigente empenhado em causas sociais e de saúde pública.
Em 1995, Seguro entrou para o Governo e tornou-se um dos elementos mais próximos de António Guterres, integrando o núcleo político de confiança de São Bento. Foi secretário de Estado da Juventude e, mais tarde, secretário de Estado adjunto de Guterres. Após uma passagem pelo Parlamento Europeu, chegou a secretário-geral do PS em 2011após a saída de José Sócrates.
Um dos momento mais determinantes da sua carreira política surgiu em 2014, quando, enquanto secretário-geral do PS, decidiu que o partido se absteria na votação do Orçamento do Estado. A decisão, justificada como colocando o interesse do país acima do partidário, desencadeou forte contestação interna.
Contestação essa que foi encabeçada por António Costana altura Presidente da Câmara de Lisboa, que pediu a demissão do secretário-geral e exigiu publicamente a convocação de um congresso extraordinário para novas eleições primárias. Seguro respondeu ao desafio e convocou as primárias, mas acabou por as perder e deixou o cargo após a derrota.
Esta derrota acabou por ditar uma pausa na vida política. Nos 10 anos desde a sua saída da liderança do PS, António José Seguro, dedicou-se sobretudo à carreira académica e deu aulas na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).
Agora, Seguro voltou à política com um estrondo. E, se céticos ainda houvessem depois da sua vitória na primeira volta, já devem restar poucos, após a sua vitória contra André Ventura na segunda ronda, com 66,8% dos votos e o recorde de Presidente eleito com mais votos em Portugal.
