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Um filme de 1927 imaginou como seria o mundo em 2026



Banco de imagens/Wikimedia Commons

Cena do filme alemão de ficção científica Metropolis (1927), de Fritz Lang

O que Metropolis previu, refletindo ansiedades de há 100 anos, foi, no mínimo, alarmante (e acertou em algumas coisas).

É considerado um dos filmes mais influentes de sempre (inspirou, em 2024, de uma maneira óbvia, a obra mais recente de Francis Ford Coppola, Megalópole). Em 1927situou a sua ação praticamente um século à frente da data de lançamento: no ano de… 2026.

Metrópole é um filme de ficção científica do alemão Fritz Langque aqui nos leva numa viagem hipnoticamente ordenada ao futuro que já chegou. Descreve, especialmente, as desigualdades cada vez mais extremas que ameaçam implodir o próprio sistema que as sustenta.

Metropolis regressou recentemente ao debate público, não só por 2026 ter chegado, e não como profecia arquitectónica, mas como diagnóstico político e social.

O filme não tentou adivinhar com exatidão como seriam os edifícios ou os transportes do futuro — aqui apresentados como gigantescos e voadores ou suspensos, respetivamente.

O filme propôs, em vez disso, uma pergunta que continua a organizar a vida urbana: quem beneficia do progresso e quem paga o seu preço? Para Lang, a tecnologia depende sempre de quem a controla.

A cidade do filme surge como uma personagem. A sua estrutura vertical — com um “acima” luxuoso e um “abaixo” subterrâneo — não é apenas uma ideia estética, mas uma tese visual. No topo, erguem-se arranha-céus, vias elevadas, tráfego sincronizado, ritmos quase coreografados de circulação. Uma paisagem que eficiência, modernidade e poder. No subsolo, existe outro mundo: fábricas, salas de máquinas, corredores de trabalho e habitação operária enterrados sob a superfície. A cidade funciona porque o esforço que a alimenta é escondido.

O brilho e a ordem do centro urbano são sustentados por um sistema de trabalho incessante, desumanizante. As máquinas nunca param e, os trabalhadores também não. O futuro, aqui, não é um lugar de descanso: é um lugar de produção contínua.

A cidade “perfeita” é, muitas vezes, a cidade que aprendeu a ocultar o custo humano da sua perfeição.

O ano de 2026, na lógica do filme, define-se pela separação. O mundo de cima é o da elite dirigente, protegida por conforto, vigilância e uma aparente serenidade. O poder concentra-se num arquiteto e gestor da cidade, que governa a partir de uma torre. O ambiente é controlado: jardins, linhas limpas, silêncio, distância. Um mundo onde os ricos raramente têm de olhar para baixo.

O mundo subterrâneo contrasta em tudo com o de lá de cima. Os trabalhadores deslocam-se em turnos sincronizados, substituem-se como peças de uma engrenagem e parecem definidos mais pela função do que pela identidade. Não têm tempo, autonomia, dignidade. A ideia de que pode haver progresso material sem progresso humano cria uma tensão que pode explodir a qualquer hora.

A cidade funciona porque “a cabeça” está separada “das mãos”, compara Isha Chaudhary no Arquitetura Paramétrica. O problema é que essa separação cria cegueira: decisões que afetam milhões são tomadas por poucos, sem contacto com as consequências.

O que “acertou” sobre 2026?

Quando se confronta a visão de 1927 com o presente, torna-se claro que **Metropolis** não é relevante por ter “adivinhado” a paisagem urbana.

Apesar de não acertar na paisagem urbana que temos hoje, Metropolis identifica mecanismos persistentes da modernidade: concentração de poder nas cidades; dependência de infraestruturas complexas; e trabalho invisível por trás de sistemas que prometem fluidez. Realidades macabras, inclusive de escravidão modernado campo de visão de quem consome.

O filme também captou como, se uma grande máquina falha, toda a cidade treme. Num 2026 onde tudo parece seguro, bastam interrupções em redes elétricas, comunicações, serviços automatizados ou plataformas digitais para travar a vida normal e provocar o pânico geral em poucas horas — o leitor está neste momento a lembrar-se do apagão de 2025, muito provavelmente.



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