
Clemens Bilan/EPA
Mark Rutte, secretário-geral da NATO, e Friedrich Merz, chanceler da Alemanha
Europeus, e sobretudo alemães, ganham peso na liderança militar da aliança. EUA garantem que não está em causa uma retirada.
Os parceiros europeus e OTAN deverão assumir mais responsabilidades nos próximos anos, numa reorganização interna que pode reforçar o papel da Alemanha na estrutura de comando militar.
Apesar do reforço europeu, os Estados Unidos garantem que não está em causa uma retirada da Aliançamas sim um reequilíbrio de encargos e funções.
De acordo com uma nova distribuição de responsabilidades, a que a agência alemã dpa teve acesso, a Alemanha poderá vir a ocupar mais cargos de topo na estrutura de comando militar da NATO do que os Estados Unidos.
É a pergunta que o Euronews deixa: nesta “reviravolta” na NATO, a Alemanha substituir os EUA na liderança da aliança?
Um dos sinais mais claros dessa mudança é a possível eleição do inspetor-geral das Forças Armadas alemãs, Carsten Breuer, para a presidência do Comité Militar da NATO — o órgão de política militar mais importante da organização — no verão de 2027.
A decisão será tomada em setembro deste ano, quando os Estados-membros elegerem o novo presidente do Comité Militar. Ainda não é certo se Breuer enfrentará concorrência de outros candidatos.
EUA mantêm papel central
Apesar do reforço da liderança europeia, Washington continuará a desempenhar funções-chave. Os Estados Unidos deverão manter o cargo de Comandante Supremo Aliado das forças da NATO na Europa (SACEUR), tradicionalmente ocupado por um general norte-americano.
O embaixador dos EUA na NATO, Matthew Whitaker, rejeitou qualquer cenário de desmembramento da Aliança. Durante a Conferência de Segurança de Munique, afirmou que os EUA não pretendem minar as estruturas existentes, mas antes promover um “reequilíbrio” das despesas e dos encargos com a defesa. O objetivo, disse, é incentivar os parceiros europeus a “fazer mais” e a tornarem-se mais fortes e capazes, argumentando que essa força é essencial para garantir a paz.
Whitaker já havia defendido, em novembro, na Conferência de Segurança de Berlim, um papel mais relevante da Alemanha na NATO. Segundo declarações citadas pela Euronews, os EUA pretendem ver as forças militares europeias em pé de igualdade com as norte-americanas — um objetivo descrito como ambicioso.
Para o especialista em segurança Carlo Masala, da Universidade Bundeswehr, estas declarações indiciam uma tendência clara: os EUA deverão reduzir gradualmente o seu envolvimento direto, esperando maior protagonismo europeu.
Mais investimento e produção europeia
A mudança não se limita à liderança política e militar. Também no plano material, os aliados europeus procuram reforçar a autonomia. O projeto de orçamento alemão para 2026 prevê despesas de defesa de cerca de 108,2 mil milhões de euros, incluindo verbas do orçamento regular e do Fundo Especial da Bundeswehr.
A maior parte dos contratos de aquisição deverá ser atribuída a fabricantes europeus, sendo apenas cerca de 8% das compras realizadas nos EUA. A decisão gerou críticas de responsáveis norte-americanos, que alertam para o risco de exclusão das empresas dos EUA do mercado europeu de defesa.
Ainda assim, a Alemanha continua dependente de tecnologia norte-americana em áreas estratégicas. Um exemplo é o caça F-35A, encomendado à empresa Lockheed Martin. A aeronave, certificada para transportar a bomba nuclear norte-americana B61-12, é vista como sucessora do Tornado no âmbito do programa de partilha nuclear da NATO.
Devido a restrições tecnológicas e legais, a produção do F-35 está fortemente concentrada nos EUA, limitando alternativas europeias a curto prazo.
A reorganização da NATO aponta, assim, para uma Europa mais responsável pela sua própria defesa, mas ainda ligada de forma estreita à capacidade estratégica e tecnológica dos Estados Unidos.
