
Marcos Santos / USP
Apesar do curso ter sido desenhado em associação com os serviços secretos franceses, está também a atrair estudantes que querem trabalhar no setor privado.
O professor universitário Xavier Crettiez reconhece que não sabe o nome verdadeiro de muitos alunos da sua turma.
É uma situação altamente incomum no mundo académico, mas o trabalho do professor também é fora do padrão. Ele ajuda a treinar espiões franceses.
“Raramente conheço os antecedentes dos agentes de inteligência quando eles são encaminhados para o curso e duvido que os nomes informados sejam verdadeiros”, conta.
Se a intenção era criar um ambiente para uma escola de espionagem, o campus da Universidade Sciences Po Saint-Germain-en-Laye, nos arredores da capital da França, Paris, parece bastante adequado.
As suas austeras construções do início do século XX, com aparência que chega a ser sombria, são cercadas por intimidadores portões metálicosque levam a rodovias comuns e movimentadas. Tudo muito discreto.
A diferença é o seu diploma único, que atrai igualmente estudantes típicos com pouco mais de 20 anos e membros ativos do serviço secreto francês, normalmente entre os 35 e 50 anos de idade.
O curso chama-se Diploma em Inteligência e Ameaças Globais — Diploma em Inteligência e Ameaças Globaisem tradução livre. Foi desenvolvido pela universidade, em associação com a Academia de Inteligência, o setor de treinamento do serviço secreto francês.
As aulas foram um pedido das autoridades francesas, uma década atrás. Depois dos ataques terroristas em Paris, em 2015, o governo da França promoveu uma campanha de recrutamento em massa nas agências de inteligência do país.
Por isso, o governo pediu à Sciences Po, uma das principais universidades francesas, que criasse um novo curso para formar possíveis novos espiões e fornecer treinamento contínuo para os agentes atuais.
Grandes empresas francesas também demonstraram interesse rapidamente, tanto para levar os seus funcionários de segurança para o curso, quanto para contratar muitos dos formandos mais jovens.
Ó curso tem 120 horas-aula e dura quatro meses. Para alunos externos (espiões e funcionários de empresas), o custo é de cerca de 5 mil euros.
O principal objetivo do programa é ensinar os alunos a identificar ameaças em qualquer lugar, como rastreá-las e superá-las.
Os principais temas incluem aspetos económicos do crime organizadojihadismo islâmico, recolha de inteligência comercial e violência política.
Para comparecer a uma das aulas e conversar com os alunos, é preciso receber aprovação prévia dos serviços de segurança franceses. O tema da lição era “a inteligência e a dependência excessiva da tecnologia”.
Um dos alunos é um homem na casa dos 40 anos, que se apresenta com o nome de Roger, um banqueiro de investimentos.
“Ofereço consultoria em todo o oeste africano e entrei no curso para fornecer avaliações de risco aos meus clientes na região”, conta.
Crettiez leciona radicalização política. Ele explica que os serviços secretos franceses passaram por uma enorme expansão nos últimos anos.
Existem agora cerca de 20 mil agentessegundo o professor, no que ele chama de “círculo interno”, composto pelo DGSE, que cuida dos assuntos internacionais (o equivalente francês ao MI6 britânico ou à CIA americana) e pelo DGSI, voltado às ameaças internas (como o MI5 britânico ou o FBI dos EUA).
Mas nem tudo trata apenas de terrorismo, segundo o professor.
“Existem as duas agências de segurança principais, mas também a Tracfin, uma agência de inteligência especializada em lavagem de dinheiro.”
“Ela cuida do aumento da atividade mafiosa, especialmente no sul da França, incluindo a corrupção nos setores público e privado, principalmente devido aos lucros massivos do tráfico de drogas ilegais”, explica.
Outros professores incluem um agente do DGSE que já foi destacado para Moscovo, na Rússia, um ex-embaixador francês na Líbia e um agente sénior da Tracfin.
O chefe de segurança da gigante francesa de energia EDF também é responsável por um dos módulos do curso.
Ó interesse do setor privado pelo diploma aparentemente continua em crescimento.
Grandes empresas demonstram cada vez mais disposição para contratar os alunos para enfrentar as implacáveis ameaças de espionagemcibersegurança e sabotagem. Elas incluem especialmente companhias do setor de defesa e aeroespacial, mas também marcas francesas de produtos de luxo.
Recentemente, os formandos têm sido recrutados pela operadora francesa de telemóveis Orange, pela gigante aeroespacial e de defesa Thales e pela LVHM, dona de quase tudo, desde a Louis Vuitton e a Dior até as marcas de champanhe Dom Perignon e Krug.
Vinte e oito estudantes estão matriculados para as aulas deste ano. Seis deles são espiões.
Com os braços cruzados e sem declarar exatamente o seu cargo, um deles afirma que o curso é considerado um trampolim para uma rápida promoção do escritório para o trabalho de campo.
Outro conta que consegue ter ideias novas no ambiente académico. Ambos assinaram a lista de presença do dia apenas com seus primeiros nomes.
Um dos alunos mais jovens é Alexandre Hubertde 21 anos. Ele conta que queria compreender melhor a iminente guerra económica entre a Europa e a China.
“Observar a recolha de inteligência do ponto de vista de James Bond não é importante”, afirma ele. “A questão é analisar os riscos e trabalhar para combatê-los.”
Outra estudante é Valentine Guillot, também com 21 anos. Ela conta ter-se inspirado na popular série de TV francesa Le Bureau des Légendes (2015-2020).
“Vir aqui para descobrir este mundo que eu não conhecia, exceto pela série de TV, é uma oportunidade memorável”, diz.
“E, agora, estou muito interessada em entrar nos serviços de segurança.”
Quase a metade dos alunos da turma, na verdade, são mulheres. Esta é uma mudança relativamente recente, segundo um dos professores, Sebastien-Yves Laurent, especialista em tecnologia de espionagem.
“Ó interesse das mulheres pela recolha de inteligência é algo novo. Elas estão interessadas por acreditarem que irão colaborar para um mundo melhor.”
“E, se existir uma linha comum entre todos esses jovens estudantes é que eles são muito patriotas e isso é novo, em comparação com há 20 anos”, explica o professor.
Se quiser matricular-se no curso, um requisito essencial é possuir cidadania francesa. Mas são aceitas algumas pessoas com dupla cidadania.
O professor Crettiez conta que precisa ser cauteloso na seleção de candidatos.
“Recebo regularmente inscrições de mulheres russas e israelitas muito atraentes, com ótimos currículos”, conta. “É claro que elas são imediatamente descartadas.”
Numa foto recente do grupo de estudantes, é possível identificar imediatamente quem são os espiões. Eles ficam de costas para a câmera.
“Poucos novos recrutas acabarão no campo”, segundo. “A maioria dos empregos nas agências de inteligência francesas são para trabalhar no escritório.”
