
Centenas de histórias de “assistentes sociais fantasma” que batiam à porta para raptar crianças lançaram o pânico entre a população britânica. Após anos de investigação, a polícia concluiu que apenas dois casos eram genuínos. Até hoje, as origens desta lenda urbana são desconhecidas.
No início dos anos 90, começaram a surgir relatos por todo o Reino Unido e nos Estados Unidos sobre desconhecidos misteriosos que se faziam passar por assistentes sociais, apareciam às portas das casas e tentavam examinar ou raptar crianças.
A polícia levou os relatos a sério. Os pais estavam aterrorizados. Os meios de comunicação social deram uma cobertura exaustiva. Havia apenas um problema: nada daquilo era real.
Entre 1990 e 1994, a polícia britânica recebeu mais de 250 denúncias destes “assistentes sociais fantasma”. Apesar de investigações extensas, nenhum caso se veio a revelar tratar-se de um rapto efetivo ou sequer numa observação confirmada que pudesse ser corroborada.
O padrão era sempre o mesmo: alguém que se identificava como assistente social aparecia à porta, pedia para examinar uma criança e ia-se embora quando confrontado. Mas os verdadeiros assistentes sociais têm identificação e não fazem visitas sem aviso prévio sozinhos.
Ó mito urbano gerou tanta histeria na população que levou as autoridades policiais locais de South Yorkshire a criar a Operação Childcare, uma task force para investigar a alegação, recorda o Tudo que é interessante. Tornou-se uma das maiores investigações da história do Reino Unido, com a participação de 23 forças policiais distintas.
Após um ano de investigação, a polícia tinha reunido 250 denúncias, das quais apenas dois casos se revelaram ser genuínos — além de 18 casos que “mereciam ser levados a sério”. Não foram feitas detenções, e a Operação Childcare foi desde então desmantelada.
Segundo alguns criminologistas, mesmo os casos genuínos poderiam ter envolvido particulares a investigar casos de abuso infantil por conta própria, ou indivíduos que procuravam fazer falsas acusaçõesem vez de reais abusadores sexuais de crianças.
Sociólogos que estudaram o fenómeno concluíram que este se enquadrava num padrão do chamado “pânico moral” — uma onda de medo que se propaga numa comunidade, que se alimenta a si própria, amplificada pela cobertura mediáticanormalmente envolvendo um grupo, ideia ou condição exageradamente retratado como uma grave ameaça aos valores e interesses da sociedade.
Os “assistentes sociais fantasma” no Reino Unido surgiram durante o período do chamado “Pânico Satânico” nos EUA, durante os anos 80 e início dos anos 90, que envolveu medos e acusações infundadas de Abuso Ritual Satânico (ARS) generalizado, especialmente de crianças em creches e jardins de infância.
Este “pânico social” levou na altura a falsas acusações, condenações injustas e a uma intensa atenção mediática sobre seitas ocultasembora as investigações tenham encontrado pouca ou nenhuma prova credíveldesmentindo as alegações.
Segundo alguns investigadores, as denúncias de “assistentes sociais fantasma” atingiram o pico ter sido dada cobertura mediática ao fenómeno, sugerindo que as pessoas estavam a interpretar encontros banais através de uma “lente de medo”.
Acredita-se que os relatos eram apenas histórias para assustar ou lendas urbanas alimentadas pela história de Marieta Higgsuma pediatra de Cleveland, em Inglaterra, que diagnosticou 121 crianças como sendo vítimas de abuso sexual por parte dos seus pais — sem qualquer prova ou motivo.
A polícia acredita que algumas das visitas poderão na realidade ter sido feitas por “cidadãos justiceiros” que conduziam as suas próprias investigações sobre abuso infantil. Outras visitas denunciadas podem ser explicadas pela identificação errada de vendedores porta a portaangariadores e missionários religiosos.
O pânico acabou por desvanecer-se, deixando para trás um estudo de caso sobre como o medo se propaga.
Encerradas as investigações, concluiu-se que nenhuma criança tinha sido afetada por assistentes sociais fantasma — porque não existiam assistentes sociais fantasma. Apenas pais ansiosos, meios de comunicação amplificadores e a tendência para ver padrões no ruído.
Os tempos eram outros. Não havia internetas redes sociais estavam a décadas de distância, e ninguém sonhava na altura que haveria um dia uma coisa chamada Inteligência Artificial Generativa.
Caso tais maravilhas da tecnologia existissem então, a propagação dos relatos teria certamente atingido uma escala diferente, e é mais que certo que teriam aparecido vídeos convincentes a mostrar “assistentes sociais reais” a raptar criancinhas — com muitos comments e emojis horrorizados.
