
// Ciência e Tecnologia de Pequim / Folheto via Xinhua
Ilustração de Yang Liwei, o primeiro taikonauta, usada em capa de livro comemorativo dos 20 anos da sua missão
Há mais de vinte anos, Yang Liwei, o primeiro homem chinês no espaço, relatou ter ouvido um som inquietante no interior da sua cápsula. O fenómeno, que parece desafiar as leis básicas da física, continua a desconcertar os cientistas até hoje.
No vasto silêncio da órbita, qualquer ruído inesperado pode desencadear o pânico. Foi exactamente isso que aconteceu em 2003, quando Yang Liweio primeiro taikonauta, embarcou na sua missão histórica.
Durante o voo, foi sobressaltado por um estranho som de batidas que ecoava através da sua nave espacial, uma cápsula Shenzhou 5 — um momento que viria a tornar-se num dos mais duradouros mistérios dos voos espaciais.
“Soava como alguém a bater no cascocomo se estivesse a dar golpes num balde de ferro com um martelo de madeira”, contou Yang numa entrevista à BBCem 2016. “O ruído não vinha nem de dentro nem de fora da nave“, disse o taokonauta, incapaz de identificar a sua origem.
Determinado a encontrar uma explicação, Yang espreitou pela janela, à procura de sinais de impacto ou danos. Poderia ser um problema mecânico? Uma falha estrutural? Ou algo externo?
Nada parecia fora do normal — e, no entanto, o som continuava, rítmico e distinto. Com o tempo, o taikonauta aprendeu a viver com o ruído, que acabou por classificar como um “fenómeno normal”.
Teorias da física e da engenharia
De acordo com a física, a experiência de Yang deveria ter sido impossível. “As ondas sonoras precisam de um meio — ar, água ou matéria sólida — para se propagarem”, explicou o professor Goh Wior Cherespecialista em engenharia espacial da Universidade Nacional de Singapura, numa entrevista ao Galáxia Diária.
Mas no vácuo do espaço não existe nenhum meio que transporte o som. Seguindo essa lógica, Yang não deveria ter ouvido absolutamente nada. Então, o que causou realmente o ruído no interior da sua nave espacial?
Os cientistas sugeriram várias explicações possíveis. A mais simples é que tivesse sido um impacto físico. “Se foi uma batida, talvez algum objecto tenha embatido na nave espacial”, afirmou Goh, embora tenha reconhecido que a teoria é especulativa e praticamente impossível de confirmar.
Yang Liwei, o primeiro chinês no espaço
Enquanto orbitam a centenas de quilómetros acima da Terra, as naves espaciais enfrentam ameaças constantes de micro-detritos — pequenos fragmentos que se movem a velocidades suficientes para perfurar o metal. Mas nunca foi encontrado qualquer sinal de colisão durante a missão de Yang.
Outra teoria, do professor Wee-Seng Sohtambém de Singapura, aponta para as violentas mudanças de temperatura a que as naves espaciais estão sujeitas.
“Pode ser o casco a expandir-se ou a contrair-se à medida que atravessa mudanças extremas de temperatura”, disse. Se for verdade, o ruído poderá ser simplesmente osom dos materiais da nave a fletir sob tensão térmica.
Outros também ouviram
Talvez o mais curioso de tudo seja o facto de Yang não ter estado sozinho. Os meios de comunicação chineses noticiaram mais tarde que outros taikonautasdurante missões em 2005 e 2008 também ouviram a mesma misteriosa batida.
Yang chegou mesmo a avisar os futuros astronautas antes do lançamento: “Não se assustem se o ouvirem — também me aconteceu“.
Com o tempo, a “batida fantasma” tornou-se quase uma tradição nos voos espaciais chineses, e deixou de ser motivo de receio, para passar a ser uma parte aceite da vida dos taikonautas em órbita.
Além dos taikonautas, também astronautas da NASA ouviram sons estranhos no espaço. Em maio de 1969, durante um voo de teste para a alunagem da Apollo 11, os astronautas Thomas Stafford, John Young e Eugene Cernan ouviram também um som agudo de “assobio” enquanto orbitavam o lado oculto da Lua, fora de contacto com a Terra. Referiram-se ao som, em tom de brincadeira, como “música espacial”.
A explicação da NASA? Interferência rádio entre os sistemas do módulo lunar e do módulo de comando. Mas até essa resposta deixou alguns cientistas pouco convencidos, particularmente porque o tom e o ritmo eram tão invulgares.
Afinal, o que ouvem realmente os astronautas no vácuo do espaço? E porque é que a ciência, geralmente tão capaz de identificar causas físicas, é incapaz de explicar algo tão estranhamente tangível? Sem provas concretas, o mistério perdura, lembrando-nos de que até o silêncio do espaço pode ter os seus segredos.
