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80 mil casas finlandesas estão a ser aquecidas por uma fonte surpreendente: bitcoins



Será que a reutilização do calor residual da mineração de criptomoedas pode compensar a sua pegada de carbono? Aparentemente, sim — e todos saem a ganhar.

Para alguém que se preocupa com as alterações climáticas, Matt Carlson tinha aquilo que parecia ser um emprego de sonho: ensinar clientes a descarbonizar edifícios.

Mas estava frustrado. Podia dar aos clientes as ferramentas para melhorar a eficiência energética e eliminar progressivamente os combustíveis fósseis, mas se estes não conseguissem transformar facilmente as suas orientações em poupanças de custossimplesmente ignoravam-no.

“A maioria destas pessoas não vai agir, porque não vai haver justificação económica”, apercebeu-se.

Carlsson decidiu que precisava de encontrar um emprego onde pudesse defender a eficiência energética em termos económicoso que o levou a um lugar surpreendente: bitcoins.

UM mineração de bitcoin liberta uma quantidade enorme de calor. O termo “mineração”, neste contexto, refere-se ao processo computacional intensivo em energia através do qual as transações de bitcoin são verificadas, explica o Grão.

Numa transação típica, um computador tenta resolver o que é essencialmente um problema matemático muito complexo. Se conseguir fazê-lo antes de qualquer um dos outros “mineradores” que trabalham no problema em todo o mundo, o minerador é recompensado com bitcoins.

Este processo consome muita energia; no geral, a mineração de bitcoin representou cerca de 0,5% do consumo mundial de eletricidade em 2024.

Quanto mais complexa a tarefa em mãos, mais eletricidade é necessária — e mais calor é criado. Essencialmente, enquanto for lucrativo minerar bitcoinvai continuar a produzir muito calor extra como subproduto.

A questão passa a ser: pode esse calor ser utilizado de forma benéfica?

É aqui que entra Carlsson, que está agora a ajudar a aquecer as casas de 80.000 pessoas na Finlândia com calor residual de mineradores locais de criptomoedas, como parte de um projeto gerido pelo seu novo empregador, a empresa de mineração de bitcoin Participações MARA.

O processo é simples: a água usada para arrefecer os computadores de mineração passa através dos mineradores da MARAque estão armazenados em unidades metálicas no centro das localidades, arrefecendo-os antes de sair a uma temperatura escaldante de 50 a 78°C.

A partir daí, a água é bombeada subterraneamente através dos sistemas de aquecimento urbano existentes na cidade, reduzindo drasticamente a necessidade de caldeiras tradicionais.

Como resultado, desde que o seu primeiro projeto entrou em funcionamento, em 2024, os dois “bairros bitcoin” da MARA evitaram emissões de gases com efeito de estufa equivalentes às produzidas por 700 habitações comuns.

Carlsson pensa que isso modelo poderia ser expandido para cidades e edifícios em todo o mundo, e não é o único a pensá-lo. Operações conjuntas de mineração de bitcoin e aquecimento estão a surgir por toda a Finlândia — uma localização ideal, devido ao seu clima frio e aos sistemas de aquecimento urbano existentes aos quais as empresas se podem ligar facilmente.

O projeto “Genesis” da Energia Terahashpor exemplo, está a enviar calor residual da mineração de bitcoin para ser usado numa zona industrial do país nórdico, além de algumas casas próximas.

A empresa global de infraestruturas de mineração de bitcoin Hashlabs gere seis instalações que ligam mineradores a sistemas de aquecimento urbano noutros locais da Finlândia, com mais em preparação.

É um negócio, afinal de contas“, diz Alen Makhmetovcofundador da Hashlabs. “Só quero tornar o nosso negócio muito mais sustentável, robusto e de longo prazo”.

Embora também haja um argumento climático a favor da operação, Makhmetov refere-se a “sustentável” num sentido económicoporque a Hashlabs está agora protegida contra um colapso no preço do bitcoin: se perder receitas de criptomoedas, ainda terá receitas dos seus serviços de aquecimento.

Os clientes de aquecimento também estão protegidos: a Hashlabs prometeu continuar a produzir calor, mesmo que o valor do bitcoin torne a sua mineração não lucrativa.

“Foi realmente uma decisão óbvia“, diz Adam Swickdiretor de estratégia da MARA. Com efeito, a empresa consegue obter duas fontes de receita: ganha bitcoins através da mineração, obviamente, mas também recebe uma taxa dos municípios pelo fornecimento de calor — e ainda recebe gratuitamente a água necessária para arrefecer os seus mineradores.

Os residentes dos dois locais onde a MARA opera, a região de Satakunta e a cidade de Seinäjoki, podem nem se aperceber de que algo mudouuma vez que estão a receber calor das mesmas tubagens que sempre tiveram.

“Esse é um pouco o objetivo, que ninguém seja afetado“, diz Swick. A MARA assumiu todos os custos de equipamento e está a fornecer calor a um preço mais baixo em comparação com as empresas de aquecimento elétrico.

Na perspetiva da MARA, também é melhor para o clima. Os sistemas de aquecimento urbano na Finlândia são maioritariamente alimentados pela queima de biomassacomo aparas de madeira.

Embora a biomassa seja considerada renovável por alguns, incluindo a União Europeia, ainda assim emite carbono quando é queimada.

Ao reduzir a quantidade de biomassa e turfa que os municípios precisam de utilizar, a MARA calcula que eliminou quase 5.000 toneladas de emissões de gases com efeito de estufa ao longo do ano e meio em que os seus municípios estiveram a operar.

Claro que é fácil argumentar que a única coisa melhor do que utilizar eficientemente o calor residual do bitcoin é não minerar bitcoin de todo. Mas, num mundo em que tal já não vai acontecer, mais vale então aproveitar o calor extra gerado pela mineração — com vantagens para todos.



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