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Porque somos tão bons a Inglês, enquanto espanhóis e brasileiros falam ingrish



PES/Flickr

António Costa com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchez

Os portugueses têm “proficiência muito elevada” em inglês, ao contrário dos espanhóis, que lá vão arranhando a língua, e dos brasileiros — que são uma desgraça. Entre as várias razões para esta diferença, uma é preponderante: os filmes e séries que vemos não são dobrados.

Portugal é um dos 15 países do primeiro escalão da edição de 2025 do Índice EPIo maior ranking mundial de países e regiões por proficiência em inglês, que continua a ser liderado pelos Países Baixoscom 624 pontos.

O nosso país, que subiu um lugar, está classificado6ª posiçãocom 612 pontos, atrás da Croácia, Áustria, Alemanha e Noruega. A Polónia, com 600 pontos, fecha o grupo de “Proficiência Muito Elevada“.

Ó Camboja, com 390 pontos e “Proficiência Muito Baixa”, fecha a lista de 123 países avaliados pela Education First, empresa dedicada à educação fundada em 1965 e sediada em Zurique.

A evolução da tendência de proficiência em inglês em Portugal registou uma aumento consistente desde 2011ano em os portugueses obtiveram uma classificação de 509 pontos (“Proficiência Elevada”).

De acordo com o EPI, os portugueses têm proficiência muito elevada a ler (632 pontos) e ouvir (610 pontos), elevada a escrever (550 pontos) e moderada a falar (502 pontos).

Por atividade profissionalsão os estudantes (650), trabalhadores das áreas jurídicas (643) e de apoio a cliente (617) quem melhor fala inglês. As piores classificações são obtidas nas área administrativa (560) de operações (575) e contabilidade e finanças (594).

UM região de Coimbra (635 pontos) é aquela em que melhor se fala inglês em Portugal. No outro extremo, Bragança: 561 pontos.

EF EPI

Proficiência em Inglês – Global Ranking of Countries and Regions 2025

Porque somos tão bons

Um dos aspetos mais surpreendentes do Global Ranking of Countries and Regions de 2025 é a posição em que encontramos a Espanha e o Brasil.

Os espanhóis, nossos vizinhos do lado e com uma língua, tal como a nossa, com origem no Latim, estão classificados na 36ª posição, com 540a que corresponde uma Proficiência Moderada.

Mais surpreendente ainda é a posição dos brasileiros, que falam a mesma língua que os portugueses (ou algo parecido) que obtêm apenas 482 pontos, correspondentes a uma Baixa Proficiência em inglês.

Por que motivo povos com tantos aspetos culturais e linguísticos em comum como os portugueses, brasileiros e espanhóis, têm proficiências tão diferentes em inglês?

São várias as explicações apontadas para esta disparidade, incluindo, no caso dos espanhóis, a ideia popular de que a sua dificuldade no inglês possa resultar de “diferenças físicas na estrutura da cavidade bucal” que causaria “alterações fonéticas” — uma ideia sem qualquer fundamento científico.

A principal razão apontada para a nossa proficiência é um fator cultural muito singelo: em Portugal, os filmes e séries que passam na TV são legendadosnão são dobrados, como acontece no Brasil e Espanha.

Isto significa que os portugueses crescem a ouvir inglês constantemente na TV e no cinema. Em Espanha e no Brasil, onde quase todo o conteúdo estrangeiro é dobrado, não há essa exposição natural ao idioma.

Há outras explicações para esta disparidade, normalmente relacionadas com a enorme diferença de dimensão da população, da economia e da indústria cultural entre Portugal e os outros dois países.

Segundo estas explicações, com apenas 10 milhões de habitantes, o mercado português é pequeno, o que força as pessoas a olharem para fora e a dominarem inglês para aceder a conteúdos, oportunidades de negócio e emprego internacional. Espanha (47M) e Brasil (215M) têm mercados internos enormes, onde é possível viver confortavelmente só em espanhol / português.

Os portugueses habituaram-se também a consumir música, podcastsvídeos e conteúdo digital em inglês. Em Espanha e Brasil, há indústrias culturais gigantes que produzem tudo em espanhol / portuguêssegundo uma das possíveis explicações.

Além disso, em Portugal, o inglês entrou cedo no currículo escolar e manteve-se de forma consistente e progressiva ao longo de décadas, sendo visto como uma competência prática e não apenas académica.

Em Espanha, durante muito tempo, o ensino de línguas foi mais teórico e baseado na gramática, com menos ênfase na oralidade. No Brasil, a qualidade do ensino público de inglês é muito desigual e, em muitos casos, insuficiente para garantir fluência funcional.

Qual será então a verdadeira razão para a nossa fluência em Inglês? Provavelmente, uma combinação de todos estes fatores. Mas um deles é, aparentemente, o fator fundamental: são as legendas!

Esta conclusão é sustentada em vários estudos científicos realizados nos últimos anos. É o caso de um estudo fazer Bureau Nacional de Pesquisa Econômicapublicado em julho de 2025, que concluiu que os países que usam legendagem têm proficiência em inglês superior aos países que usam dobragem.

Um outro estudopublicado em 2019 na Jornal de Comportamento Econômico e Organizaçãotinha já concluído que a legendagem aumenta 16,9% a pontuação nos testes TOEFL (Test of English as a Foreign Language), e que a TV é especialmente benéfica para “compreensão auditiva“.

O facto de os filmes e séries em Portugal serem legendados é então a principal razão para a nossa facilidade em entender inglês — mais a ler e ouvir do que a escrever e falar, como concluiu o índice EPI.

UM RTP fez algumas experiências com dobragem de telenovelas brasileiras e algumas séries nos anos 1970/ 1980, e alguns canais por cabo experimentaram ocasionalmente dobrar séries, mas sem grande adesão do público.

Assim, com exceção do conteúdo infantil, regularmente dobrado em português, nunca houve no nosso país tradição de dobragem; o público adulto está tão habituado a legendas, que geralmente rejeita a dobragem, considerando-a artificial — ou preferindo ouvir as vozes originais dos atores.

E aí, você fala comigo?



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