
Família Tidwell / Flickr
Cobra real branca
Serpentes, pássaros, cães e cabras. Flutuações na pressão atmosférica, alterações no campo magnético Ao longo dos anos, não faltam relatos de animais que parecem conseguir prever catástrofes naturais, e explicações para esta capacidade — que a ciência ainda não conseguiu comprovar.
Em 1975, na cidade chinesa de Haicheng, centenas de serpentes saíram da hibernação precocemente — pouco tempo antes de um devastador terramoto de magnitude 7.3, recorda a Vida Selvagem da BBC.
Num outro caso, em 2014, antes de uma onda de tornados ter atingido o Tennessee, nos EUA, pássaros que tinham acabado de chegar na sua migração anual, fugiram dos seus territórios de reproduçãotendo voado 700 km para se afastar da região atingida pelos tornados.
Não faltam exemplos de animais que parecem prever catástrofes naturaiscom relatos que remontam até à Grécia Antigaquando o historiador Tucídides escreveu sobre ratos, doninhas, serpentes e cães que abandonaram a cidade de Hélice antes de um terramoto em 373 a.C.
Muitas catástrofes naturais apanham-nos de surpresa, e é tentador dar corda à noção de que os animais possam ser como videntes de bola de cristal.
Ainda hoje, embora a previsão meteorológica possa dar aviso prévio de eventos relacionados com o tempo como furacões e cheias, a ciência da sismologia ainda não é capaz de prever terramotos com precisão.
Os tsunamispor outro lado, que se seguem à atividade sísmica nos nossos oceanos, podem frequentemente ser previstos, mas comunidades remotas e vulneráveis carecem muitas vezes da infraestrutura necessária para sistemas de alerta eficazes.
Mas embora faça sentido que procuremos pistas que nos possam ajudar a evitar os impactos das catástrofes naturais, a ciência por detrás da previsão animal é bastante frágil.
Não só não há dados de referência suficientes a longo prazo sobre o comportamento animal ‘normal’ que possamos comparar com o chamado “comportamento invulgar”, como os relatos deste comportamento tendem a ser recolhidos retrospetivamenteem vez de no momento do próprio incidente.
Este viés de confirmação, a nossa tendência muito humana de interpretar informação de forma a que se ajuste às nossas crenças pré-existentesdesempenha aqui um papel importante.
O facto de as condições serem impossíveis de replicar com qualquer precisão, devido à própria natureza destes eventos catastróficos, é também problemático.
O que consideramos ‘invulgar’ quando se trata dos movimentos, vocalizações, hábitos alimentares ou de hibernação dos animais é altamente subjetivo e baseado na nossa compreensão ainda limitada das sensibilidades sensoriais e respostas comportamentais da maioria das espécies.
Segundo sugeriram alguns cientistas, antes de catástrofes naturais, os animais poderão estar a responder a minúsculas flutuações na pressão atmosféricaou alterações nas propriedades do campo magnético da Terra que possam preceder um evento catastrófico. Estas teorias são intrigantes e, portanto, possivelmente dignas de exploração.
É verdade que muitos animais são naturalmente mais sensíveis a fatores ambientais, incluindo atividade sísmicado que nós, mas até agora ninguém encontrou qualquer boa evidência de que pudéssemos usar esta sensibilidade como ferramenta de previsão.
Nos últimos anos, os cientistas têm tentado apurar até que ponto os animais terão alguma capacidade de antecipar eventos catastróficos — e de que forma o fazem.
É o caso de uma equipa do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, na Alemanha, que anteriormente realizou alguns estudos intrigantes sobre as respostas de vacas, ovelhas, cães e cabras à atividade sísmica em Itália.
Numa revisão de 2018 de 180 artigos académicos relacionados com comportamento animal invulgar antes de terramotosuma equipa de cientistas do Centro Helmholtz de Geociências GFZ, na Alemanha, encontrou uma forte correlação entre este comportamento e o padrão típico dos chamados ‘abalos prévios’ antes de terramotos.
A equipa formulou a hipótese de que os animais observados estavam na verdade a reagir na sequência destes tremores menores – em vez de em antecipação do evento sísmico principal.
Apesar destes esforços, encontrar mais do que uma correlação entre comportamentos anómalos dos animais e a ocorrência subsequente de eventos catastróficos tem sido um desafio para os cientistas.
Tudo indica assim que os animais não são adivinhos. Mas como dizem os nossos irmãos galegos: “eu não acredito em bruxas, mas que as há, há”.
