
Calma! Não é o ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos). Trump estará a reconhecer outro papão: o aquecimento global, sugere o The New York Times.
Novo ano, vida nova. Tal como em 2025 — e 2024 — Donald Trump entrou em 2026 com a mesma ideia de os Estados Unidos se apoderarem da Gronelândia. Mas algo parece realmente ter mudado: estará o bilionário a reconhecer o aquecimento global?
Entre os interesses geopolítico e comercial declarados, outra motivação pode explicar esta fixação do presidente dos EUA pela gigantesca ilha do Ártico: o degelo.
Segundo a leitura do O jornal New York Timesa perda acelerada de gelo na Gronelândia poderá ser uma “bomba-relógio” em termos de acesso a recursos naturais valiosos no território atualmente controlado pela Dinamarca.
Segundo investigadores do Instituto Meteorológico Dinamarquês, entre setembro de 2024 e setembro de 2025 a Gronelândia terá perdido 105 mil milhões de toneladas métricas de gelo; entre 1985 e 2022, a camada de gelo encolheu aproximadamente 5.180 quilómetros quadrados. A disponibilidade de áreas atualmente cobertas por gelo e permafrost deverá aumentar nas próximas décadas, à medida que o clima aquece. E quando a temperatura aquece, Trump entra em jogo.
Debaixo do gelo existe um “tesouro” de minerais como grafite, zinco e terras rarasmatérias-primas com cada vez mais importância para a indústria tecnológica e para a transição energética. A lógica dos EUA dita que se o degelo tornar estes recursos mais acessíveis, a Gronelândia passa a ter um valor estratégico ainda maior, não só pela localização geográfica, mas pela capacidade de extração.
“A sua fixação na Gronelândia é uma admissão de que as alterações climáticas são reais”afirma John Conger, consultor do Centro para o Clima e Segurança, ao jornal nova-iorquino.
A motivação ganha relevância quando as outras deixam de fazer sentido: os EUA já têm acesso militar praticamente ilimitado na Gronelândia ao abrigo de um tratado da Guerra Fria com a Dinamarca, que dá aos norte-americanos a possibilidade de operarem da maneira que quiserem no território, adianta o historiador e analista económico Adam Tooze.
“Se a Gronelândia não está atualmente adequadamente defendida, isso pode ter a ver com o facto de os Estados Unidos terem desativado completamente várias bases militares que mantinham na Gronelândia durante a Guerra Fria”, afirmou Tooze no seu podcast.
Já a hipótese do interesse no petróleoconstantemente associada à intervenção norte-americana no estrangeiro, também não faz sentido: a Gronelândia deixou de conceder licenças de exploração petrolífera em 2021, por razões climáticas, ambientais e económicas.
