
“Gordura é formosura” e poder ser, afinal, sinal de vitalidade. As evidências de que a nossa gordura corporal ajuda, desde a saúde óssea até ao humor, estão a aumentar. Um novo estudo sugere que também regula a pressão arterial e a imunidade.
Se tem a ideia de que a gordura corporal era apenas um depósito passivo de armazenamento de calorias, se calhar deverá repensá-la.
Um estudo publicado na semana passada na Metabolismo Celular sugere que, afinal, a gordura corpotal desempenha um papel importante na nossa saúde geral.
Como explica a Novo Cientistaa gordura existe sob várias formas. Por exemplo, existe a gordura branca, que armazena energia e liberta hormonas que influenciam o metabolismo; a gordura castanha, que gera calor; e a gordura bege, que se situa algures entre ambas, ativando a produção de calor sob determinadas condições.
Já se sabia que, mesmo dentro destas categorias, a localização importa: a gordura sob a pele é geralmente menos prejudicialenquanto a gordura profunda no interior do abdómen — conhecida como gordura visceral — está fortemente associada à inflamação, à diabetes tipo 2 e às doenças cardíacas.
A investigação mais recente acrescenta mais substância a este quadro, sugerindo que a gordura, ou tecido adiposo, ajuda ativamente a regular a pressão arterial e a coordenar respostas imunitárias em locais-chave.
O estudo acima referido mapeou a arquitetura celular da gordura visceral proveniente de múltiplas localizações dentro do abdómen. Descobriu-se que a gordura epiplóica, que envolve o intestino grosso, é invulgarmente rica em células imunitárias, bem como em células adiposas especializadas que produzem proteínas inflamatórias associadas à ativação imunitária.
Experiências adicionais mostraram que produtos microbianos com origem no intestino desencadeiam a ativação destas células adiposaslevando-as a ativar células imunitárias próximas.
Mas atenção!
Na obesidade, no entanto, este sistema pode tornar-se cronicamente sobreativado. Comer em excesso, ou demasiadamente certos alimentos, e ter composições bacterianas específicas no microbioma intestinal pode potencialmente conduzir a uma sinalização imunitária persistente na gordura intestinal, contribuindo para a inflamação de baixo grau associada a uma série de condições metabólicas, como a diabetes tipo 2 e a obesidade.
Um segundo estudo, publicado na revista Ciênciarevelou outro papel inesperado da gordura: o controlo da pressão arterial.
Aqui, procurou-se compreender porque é que a obesidade, caracterizada pelo excesso de gordura branca, está associada à hipertensão, enquanto a gordura castanha e a gordura bege parecem ser protetoras.
Como detalha a New Scientist, este concentrou-se no tecido adiposo perivascular, uma camada de gordura rica em células de gordura bege que envolve os vasos sanguíneos. Em ratos geneticamente modificados para perderem a sua gordura bege, os vasos sanguíneos tornaram-se mais rígidos e reagiram de forma excessiva a sinais hormonais do quotidiano que contraem as artérias, levando a uma pressão arterial elevada.
A equipa rastreou este efeito até uma enzima chamada QSOX1libertada por células adiposas disfuncionais. O bloqueio desta enzima evitou danos nos vasos sanguíneos e normalizou a pressão arterial nos ratos, independentemente do seu peso corporal.
“[O estudo] sublinha a necessidade de uma compreensão mais matizada dos impactos do tecido adiposo na saúde, independentemente da massa gorda ou do índice de massa corporal (IMC) global”, disse Kristy Townsend, da Universidade Estatal de Ohio, em Columbus, à New Scientist.
Os resultados apontam para futuras terapias que se concentrem menos em simplesmente reduzir a gordura e mais em preservar ou restaurar as suas funções benéficas, através do direcionamento de depósitos específicos de gordura, da modulação da comunicação entre o sistema imunitário e a gordura ou da manutenção de uma atividade saudável da gordura bege.
