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Alguns cogumelos tornaram-se “mágicos” para afastar os mosquitos



Defesa química explica porque razão tantos fungos desenvolveriam a capacidade de sintetizar moléculas semelhantes a neurotransmissores animais.

Os chamados “cogumelos mágicos” são, tecnicamente, fungos que produzem psilocibinauma substância psicadélica com efeitos conhecidos em humanos. E podem ter evoluído por um motivo bem menos místico do que se pode pensar: para funcionar como uma defesa química contra insetos que se alimentam de cogumelos.

A psilocibina surge em várias espécies espalhadas pelo mundo, presentes em todos os continentes exceto a Antártida. Em humanos, o composto atua sobretudo ao ligar-se a recetores de serotonina no cérebro, desencadeando alterações na perceção e no estado de consciência. Mas permanecia por explicar porque razão tantos fungos desenvolveriam a capacidade de sintetizar moléculas semelhantes a neurotransmissores animais.

Uma equipa liderada por Jon Ellisda Universidade de Plymouth, no Reino Unido, testou diretamente uma hipótese antiga, mas pouco verificada: a de que a psilocibina tem um papel defensivo contra invertebrados fungívoros. Para isso, os investigadores incorporaram cogumelos secos e moídos (Psilocybe cubensis) na alimentação de larvas de mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster) e acompanharam todo o ciclo de vida dos insetos, avaliando sobrevivência, ritmo de desenvolvimento e alterações físicas nos adultos, segundo a Novo Cientista.

As larvas alimentadas com a mistura com cogumelos apresentaram taxas de sobrevivência substancialmente mais baixas do que as do grupo controlo. Em doses menores, a sobrevivência até à idade adulta caiu para menos de metade; em doses mais elevadas, apenas cerca de um quarto das larvas chegou a completar o desenvolvimento.

Mesmo entre os sobreviventes, observaram-se sinais típicos de stress durante o crescimento: moscas adultas mais pequenas, corpos mais curtos e assimetrias entre as asas esquerda e direita.

A equipa avaliou também efeitos de curto prazo no comportamento. As larvas foram expostas durante uma hora a extratos líquidos dos cogumelos, adoçados com sacarose, e os investigadores filmaram os seus movimentos. As larvas percorreram distâncias menores, passaram menos tempo em deslocação e exibiram mudanças de direção mais erráticas, sugerindo menor coordenação motora. Segundo os autores, isto aponta para interferência na fisiologia e no sistema nervoso dos insetos com efeitos potencialmente nocivos, não necessariamente “psicadélicos” como nos humanos.

Num segundo passo, os investigadores recolheram sete espécies de fungos em Dartmoor (Reino Unido) e analisaram ADN de invertebrados presente nas amostras. Os fungos produtores de psilocibina albergavam um conjunto distinto de insetos quando comparados com a maioria dos restantes, o que sugere que estes compostos podem influenciar quais os invertebrados que conseguem viver neles ou alimentarem-se deles.

Ainda assim, o quadro não é linear. Um resultado inesperado foi que, moscas com níveis reduzidos do recetor de serotonina, o alvo típico da psilocibina, sofreram efeitos ainda piores.



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