
Uma nova pesquisa descobriu os genes por trás do fenómeno de Dehnel, que se refere à habilidade dos musaranhos e outros animais de aumentar e diminuir o tamanho do cérebro sazonalmente.
Para sobreviver à escassez sazonal de alimentos no inverno, o musaranho-comum realiza um truque biológico que mais parece ficção científica. Este pequeno mamífero reduz o tamanho do seu cérebro até 30%, conservando energia quando os recursos são escassos, mas quando chega a primavera, o cérebro volta ao seu tamanho original, com os neurónios totalmente restaurados e sem danos cognitivos aparentes.
Os cientistas descobriram novas pistas sobre como este processo notável evoluiu e que genes o tornam possível. Conhecido como Fenômeno de Dehnel, foi descrito pela primeira vez pelo zoólogo polaco August Dehnel em meados do século XX. É extremamente raro entre os mamíferos, mas não é exclusivo dos musaranhos, com as toupeiras, doninhas e arminhos europeus a também reduzirem sazonalmente o tamanho do cérebro.
O que estes animais têm em comum é um metabolismo acelerado e o facto de não hibernarem, o que os obriga a encontrar formas alternativas de reduzir o gasto energético durante o inverno. Num novo estudo publicado na Molecular Biology and Evolution, o ecologista William Thomas, da Universidade de Stony Brook, e os seus colegas mapearam o genoma completo da musaranha-comum e compararam-no com o de outros mamíferos que apresentam o fenómeno de Dehnel. O trabalho baseia-se em pesquisas anteriores da equipa, que examinaram as mudanças sazonais na atividade genética em diferentes regiões do cérebro da musaranha.
Ao combinar dados genéticos e de expressão genética, os investigadores identificaram um conjunto de genes ligados à produção de células cerebrais que se mostraram consistentemente mais ativos em espécies capazes de encolhimento cerebral reversível. Na musaranha-comum, um gene em particular — o VEGFAassociado à permeabilidade da barreira hematoencefálica — apresentou uma atividade aumentada. Isto pode ajudar o cérebro a detetar e gerir melhor os nutrientes em períodos de escassez.
O genoma da musaranha também mostrou de genes envolvidos na reparação do ADN e na longevidade, sugerindo mecanismos de proteção intrínsecos contra danos durante ciclos repetidos de encolhimento e crescimento. Enquanto isso, o aumento da atividade nos genes de regulação da água reforça a ideia de que as alterações no volume cerebral ocorrem principalmente através da perda de águae não pela perda permanente de células cerebrais.
Em conjunto, as descobertas apontam para o que os investigadores descrevem como um “sistema finamente ajustado” que permite que o tamanho do cérebro flutue sem desencadear neurodegeneração. O trabalho destaca potenciais biomarcadores e alvos terapêuticos para doenças neurodegenerativas, embora ainda seja precisa cautela na extrapolação dos resultados obtidos em musaranhos para humanos.
