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O Partido Comunista Chinês abriu guerra aos influencers: comida requentada x Economia



N509FZ/Wikipédia

Restaurante Xibei no shopping center Jin Yuan, em Pequim

Pequim pôs fim a uma disputa sobre comida num restaurante chinês. Um porta-voz do Partido Comunista afirma ser preocupante que publicações nas redes sociais possam mergulhar numa crise uma empresa que opera há 38 anos — aparentemente, a servir pratos requentados a preços elevados.

Após uma guerra de palavras de vários meses entre um influenciador e o proprietário de uma cadeia de restaurantes, o Partido Comunista deu o passo invulgar de intervir diretamente – deixando clara a determinação de Pequim em controlar as celebridades da internet e as plataformas de redes sociais.

Nos últimos meses, a cadeia nacional de Restaurantes em Xibeique tem mais de 60 estabelecimentos em Pequim, tem estado a ser alvo de críticas nas redes sociais, por ter pratos “pré-confecionados”.

A controvérsia foi desencadeada em setembro, depois de o empresário e influencer Luo Yonghaocom 3 milhões de seguidores no Weibo, ter criticado a comida num Xibei, que não sabia “como se tivesse sido feita na horamas antes pré-confecionada numa cozinha central e reaquecida no local”, contou na altura o O Pequim.

Luo considerou a prática “repugnante”criticou os preços elevados da comida nos XIbei, e apelou a uma maior transparência e legislação sobre rotulagem de alimentos para o setor, que deveria ser obrigado a divulgar quando são usados componentes “pré-confecionados”.

Jia Guo Longfundador da Xibei, negou veementemente as acusações, ameaçou o influencer com uma ação judicial por difamaçãoe abriu as cozinhas para inspeção pública. Mas os seus esforços saíram pela culatra, quando imagens divulgadas nas redes sociais mostraram que a Xibei usava ingredientes pré-embalados e congelados.

UM controvérsia cresceu rapidamenteà medida que os clientes começaram a criticar vários restaurantes por usarem pratos pré-confecionados — prática do setor da restauração não abrangida nas normas nacionais.

Entretanto, o enredo complicou-se, conta o Postagem matinal do Sul da China. Na semana passada, a Xibei confirmou que vai encerrar este ano mais de 100 restaurantes,  cerca de 1/3 dos seus estabelecimentos em todo o país — uma decisão que afeta cerca de 4.000 postos de trabalho.

Segundo Jia, a Xibei teve perdas de 500 milhões de yuan (60 milhões de euros) na sequência das queixas de Luo. O fundador da cadeia de restaurantes desafiou o influencer a debater no Weibo as suas “críticas difamatórias“, mas a rede social chinesa simplesmente encerrou as contas de ambos.

Wang GaofeiCEO do Weibo, explicou na altura ao Tempos Globais que as contas foram encerradas porque “organizar lutas ou debates” era estritamente proibido “segundo as normas sobre conduta negativa de celebridades” emitidas pelo regulador do ciberespaço da China no mês passado.

A controvérsia à volta da Xibei foi desencadeada pelo antigo professor, empresário e influencer Luo Yonghao, que conta com mais de mais de 7,8 milhões de seguidores na plataforma de partilha de vídeos curtos Douyin

Entra o Partido Comunista

A controvérsia, que parecia não ter fim, tinha inevitavelmente que chegar ao conhecimento do Partido Comunista da China, que decidiu intervir. Nos últimos dias, o Diário do Povoou “Diário Popular”, jornal oficial do partido, publicou vários artigos sobre a Xibei.

Isto é típico da era da internet. Um influencer proeminente domina a opinião pública online com matéria sensacional enquanto a parte exposta responde de forma desajeitada e as plataformas atiçam as chamas… para atrair atenção”, diz um dos editoriais do jornal.

Segundo o editorial, as perdas da Xibei eram entristecedorasmas é ainda “mais preocupante que publicações nas redes sociais possam mergulhar numa crise destas uma empresa que opera há 38 anos e gere centenas de estabelecimentos”.

Em outros artigos, o jornal apela às empresas que melhorem as suas competências de relações públicas — e aos influencers, que se comportem adequadamentede modo a ajudar a defender a estabilidade social e económicaem vez de simplesmente procurarem audiências.

Um dos artigos enumera vários tipos de “palavras e ações irresponsáveis” usadas pelos influencers nos últimos anos, incluindo interpretações superficiais ou distorcidas das políticas do partido e do Estado, opiniões demasiado tendenciosas sobre certas questões públicas, difamação de empresas por interesse pessoal e a encenação de conflitos “para gerar audiências e monetizar a atenção”.

No incidente da Xibei, diz o artigo, muitos utilizadores online viam as queixas de Luo apenas como as de um consumidor relativamente a uma empresa, “mas isto foi na verdade uma expressão públicacompletamente diferente de uma conversa privada com amigos”.

Num outro artigo, o People’s Daily critica as plataformas de redes sociais por “amplificarem conteúdo confrontacional através de algoritmos e pesquisas populares”, o que servia para “polarizar opiniões, dificultar a construção de consensos e corroer espaços online positivos“.

“UM opinião pública online tornou-se um fator que afeta a sobrevivência das empresas e até o desenvolvimento económico geral” da China, lê-se no editorial, citado pelo SCMP.

Inversão de rumo

Um cientista político sediado em Pequim, que prestou declarações ao SCMP sob anonimato por não estar autorizado a falar com os meios de comunicação, afirmou que estes editoriais são “uma inversão de rumo” face à anterior “tolerância mediática” ou até simpatia pelos direitos dos consumidores.

“Isto mostra que as autoridades estão cada vez mais receosas da influência exercida pelas redes sociais e pelos influencers, o que indicia que se preparam para exercer uma supervisão regulamentar ainda mais rigorosa no futuro”, afirmou.

Segundo o People’s Daily, o caso Xibei mostrou como a busca de audiências pelas plataformas poderia “alimentar a opinião pública negativa“, o desejo de espetáculo dos consumidores e os receios das empresas.

Nos últimos anos, o governo de Xi Jinping tem feito esforços para controlar a opinião pública na internet. Em 2024, a Administração do Ciberespaço da China (CAC) encerrou 107.802 contas nas redes sociais, alegando irregularidades que iam desde violência até difamação de heróis ou mártires nacionais.

Numa campanha lançada em setembro, os alvos do regulador incluíam “incitar antagonismo extremo entre gruposassociar forçadamente questões sociais a identidade, região e género, e “espalhar emoções negativas e pessimistas”, como referir-se à educação ou ao trabalho árduo como “inúteis”.

Desde a campanha, várias plataformas de redes sociais foram punidas com penalizações, e as contas de redes sociais de vários influencers foram eliminadas ou suspensas.

O alvo errado

Apesar de as autoridades chinesas terem dado claros sinais de que estão atentas ao que os consumidores pensam e dizem nas redes sociais, principalmente se isso afetar a saúde das empresas, o assunto Xibei não morreu totalmente.

Na semana passada, num raro momento de desacordo público com os meios de comunicação estatais, um utilizador anónimo requentou a controvérsia na sala de chat do Guanchajornal baseado em Xangai, onde deixou um comentário intitulado “Desculpe, People’s Daily, desta vez não posso concordar”.

Segundo o utilizador, que escreveu sob pseudónimo, o que aconteceu à Xibei foi “um colapso fundamental do valor do produtoe nenhuma promoção ou ação de relações públicas pode servir de cura”.

“Culpabilizar excessivamente o mau ambiente nas redes sociais e a opinião pública cria um mau precedente para as empresas chinesas — como se as empresas só precisassem de aprender a ‘controlar críticas’ ou apagar publicações”, afirmou. “Proteger as empresas não significa protegê-las das críticas“.

O artigo atraiu milhares de visualizações e suscitou uma animada discussão. Muitos dos utilizadores pedem ao People’s Daily que defenda os direitos dos consumidores e pressione o governo a introduzir regulamentação no sector das refeições pré-confecionadas — em vez de atacar os influencers e as redes sociais.

Afinal de contas, trata-se do Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista — talvez o último jornal que esperaríamos ver defender os interesses das empresas, dos empresários, e do seu respetivo capital. Sinais dos novos tempos na China.



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