
O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, reúne-se com o presidente de França, Emmanuel Macron.
O secretário-geral da NATO alinha com Trump e aponta as armas à China e Rússia. França, mais uma vez, não se deixa ficar.
O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, afirmou esta segunda-feira que a Europa não consegue defender-se sem os Estados Unidos. Perante eurodeputados das comissões de Defesa e de Assuntos Externos do Parlamento Europeu, Rutte foi ‘curto e grosso’.
“Se alguém pensa que a União Europeia, ou a Europa como um todo, se consegue defender sem os EUA, que continue a sonhar. Não pode”. Para o líder da NATO, a ideia de um “pilar europeu” dentro da aliança é, na prática, “uma palavra vazia” se for entendida como alternativa ao envolvimento norte-americano.
Rutte criticou a hipótese de criação de um exército europeuargumentando que representaria “muita duplicação” face às estruturas já existentes na NATO. E acrescentou que uma força europeia autónoma seria, do ponto de vista estratégico, vantajosa para Moscovo: “Putin iria adorar”afirmou.
França, mais uma vez, respondeu rápida e rispidamente através do ministro dos Negócios Estrangeiros.
“Não, meu querido caro Mark Rutte. Os europeus podem e devem assumir a responsabilidade pela sua própria segurança. Até os Estados Unidos concordam. Este é o pilar europeu da NATO”, disse Jean-Noël Barrot, citado pelo Político.
Muriel Domenach, ex-embaixadora da França na NATO, escreveu também no X: “com todo o respeito pelo Secretário-Geral da NATO, não se trata de saber se a Europa pode, mas sim se e como deve dissuadir qualquer ataque e defender-se sozinha, se necessário. Brandir a fraqueza europeia para garantir a proteção dos EUA é uma estratégia ultrapassada e passa a mensagem errada à Rússia”.
E os EUA “precisam da NATO”
As declarações do secretário-geral surgem numa fase em que a relação transatlântica é novamente escrutinada, após semanas de declarações de Trump sugerindo que os EUA poderiam “tomar” a Gronelândia, incluindo a possibilidade do uso de força — entretanto descartada — e ameaças de novas tarifas contra países europeus — também, entretanto, retirada.
Trump avançou em vez disso com um pré-acordo “fantástico” que, disse, daria aos EUA maior controlo sobre a ilha, e cujos detalhes não se conhecem. Mas terá atribuído a Rutte um papel na intermediação desse entendimento.
O secretário-geral reconheceu ter sido envolvido, mas sublinhou que não tinha “mandato para negociar” em nome da Dinamarca e rejeitou que as conversações sobre a Gronelândia estivessem ligadas a garantias de segurança dos EUA para a Ucrânia.
“O que saiu da reunião de quarta-feira [em Davos, no Fórum Económico Mundial] são pelo menos duas questões que têm de ser tratadas. A primeira é a Rússia. A segunda é a China. Como impedir que esses dois países ganham acesso ao Ártico, seja em termos militares, seja em termos económicos”, afirmou Mark Rutte numa audição no Parlamento Europeu, onde procurou também reforçar a mensagem de que Washington continua comprometido com o princípio de defesa coletiva da NATO.
“Os EUA têm um compromisso total” com a aliança, disse, acrescentando que “os EUA precisam da NATO”.
O antigo primeiro-ministro neerlandês creditou ainda Trump por ter acelerado o aumento das despesas militares entre os aliados, apontando que, no ano passado, todos os países da NATO terão atingido a meta de 2% do PIB em defesa. “Acham mesmo que Espanha, Itália, Bélgica e Canadá teriam passado de 1,5% para 2% sem Trump? De modo nenhum”, declarou.
Seguindo o argumento de que uma estratégia europeia de defesa “a solo” seria incomportável financeiramente, referindo-se ao compromisso dos aliados de elevarem o investimento em defesa para 5% do PIB até 2035, afirmou que, sem os EUA, “não chega”: para substituir capacidades norte-americanas, incluindo o dissuasor nuclear, a Europa teria de gastar “10%” do PIB, num esforço que implicaria “mil milhões e mil milhões de euros”.
A intervenção incluiu ainda um apelo direto à União Europeia para permitir que a Ucrânia utilize parte do novo empréstimo de 90 mil milhões de euros para comprar armamento aos Estados Unidos. A proposta da Comissão Europeia, publicada este mês, prevê que dois terços do montante financiem despesas militares ucranianas, dando prioridade aos fabricantes de armas europeus. Nesse modelo, Kiev só poderia adquirir armas fora do espaço europeu em caso de “necessidade urgente”, quando “não exista alternativa”, e após autorização da Comissão e dos Estados-membros.
O Parlamento Europeu já aprovou a aceleração do processo legislativo do pacote financeiro, que deverá vigorar até 2027, enquanto os governos negoceiam um compromisso sobre o texto final.
