
O fenómeno do segundo fôlego está por trás da súbita produtividade que muita gente sente à noite. No entanto, tem riscos para a saúde.
Assim que o seu corpo se sentir pronto para relaxar à noite, o seu cérebro poderá ter outros planos. Muitas pessoas experimentam um súbito aumento de energia ao fim da noite, um fenómeno a que os investigadores do sono chamam “segundo fôlego“. De acordo com os especialistas, este aumento contraintuitivo de alerta não é um acaso, mas uma resposta biológica bem documentada que pode dificultar muito o adormecer.
Os cientistas do sono referem-se a este período como a “zona de manutenção da vigília”, uma janela ao início da noite em que o cérebro resiste brevemente ao sono, mesmo que o corpo se sinta exausto. O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos refere que este aumento pode atrasar a hora de dormir e contribuir para a privação de sono crónicaespecialmente para as pessoas que já têm dificuldade em descansar o suficiente.
Dois sistemas biológicos são responsáveis por isso. O primeiro é o ritmo circadiano, que é influenciado pela exposição à luz, às refeições, à atividade física e ao stress. Este relógio interno determina quando o cérebro espera sentir-se alerta ou sonolento. O segundo sistema é a pressão do sonoque aumenta progressivamente quanto mais tempo a pessoa permanece acordada. Idealmente, os dois sistemas funcionam em conjunto, mas à noite podem entrar em conflito, deixando as pessoas com uma sensação simultânea de exaustão e energia estranha.
Os fatores ambientais podem intensificar este efeito. Luzes fortes, uso prolongado de ecrãs, exercícios físicos noturnos e estimulação mental enviam sinais ao cérebro de que o dia ainda está em pleno andamento. O Instituto Nacional de Ciências Médicas Gerais sublinha que a luz é o principal fator que regula o ritmo circadiano, sendo que o stress e a atividade física amplificam ainda mais o estado de alerta.
Embora o aumento de energia ao final da noite possa parecer produtivo, traz consequências. As autoridades de saúde recomendam que os adultos durmam entre sete a nove horas por noite. Dormir menos de sete horas de forma consistente tem sido associado a um maior risco de diversos problemas de saúde.
O CDC alerta que a “dívida de sono” pode acumular-se rapidamente: perder apenas duas horas de sono por noite pode resultar num défice de dez horas numa única semana de trabalho, deixando muitas vezes as pessoas cronicamente fatigadas, apesar de acreditarem que estão a descansar o suficiente.
Os especialistas sugerem abordar o problema antes que chegue o segundo fôlego. Diminuir a intensidade das luzes após o jantar, limitar o uso de ecrãs e programar atividades estimulantes para o início do dia podem ajudar a sinalizar ao cérebro que a noite está a chegar, refere a Vice.
Embora esta segunda energia possa parecer um presente de produtividade noturna, muitas pessoas arrependem-se na manhã seguinte. Permitir que a mente descanse um pouco, ao mesmo tempo que se protege a hora de dormir, pode ser a chave para obter o descanso que o corpo tanto deseja.
