
A neve mente: não é branca. É a luz a jogar com a nossa perceção.
Apesar da expressão popular “branco como a neve”, a ciência explica que a neve não é branca. O que vemos como uma superfície imaculada resulta de um jogo de luz com milhões de cristais de gelo microscópicos.
TEM Ciência Popularespecialistas em meteorologia e ciência do gelo descrevem como a aparência branca nasce da estrutura dos flocos e da forma como estes dispersam a luz solar. A neve é, essencialmente, se.
O meteorologista Jonathan Belles lembra que a precipitação começa quase sempre em forma de neve nas nuvens. Muitas vezes essa neve derrete ao atravessar camadas de ar mais quente antes de chegar ao solo, transformando-se em chuva, incluindo os aguaceiros de verão. Para nevar, a coluna de ar entre a nuvem e o chão tem de se manter suficientemente fria para que os cristais permaneçam congelados até ao impacto.
A formação dos flocos de neve começa com partículas em suspensão na atmosfera, como poeiras, fuligem ou pólen. À medida que uma gotícula de água sobre-arrefecida se fixa a uma dessas partículas, o vapor de água congela sucessivamente à sua volta. O modo como as moléculas de água se organizam ao congelar favorece uma geometria hexagonal, que dá origem às formas de seis lados típicas dos flocos. É precisamente essa arquitetura cristalina que explica o “branco”.
Mark Serreze, diretor do National Snow and Ice Data Center dos EUA, sublinha que a luz do Sol contém todas as cores do espectro visível. Quando incidem numa camada de neve, as múltiplas faces e arestas dos cristais dispersam essas cores em todas as direções, de forma relativamente uniforme. O resultado, para o olho humano, é a perceção de branco: uma soma de cores distribuídas por inúmeros “microprismas”.
A diferença para um cubo de gelo é sobretudo geométrica: numa peça compacta, a luz pode atravessar com menos desvios; numa camada de flocos, há um efeito de “espelho partido”, com reflexões e espalhamento contínuos nas superfícies irregulares.
A neve pode apresentar outras tonalidades. Grãos de areia podem dar um tom dourado-acastanhado; ferrugem e partículas no ar podem introduzir tons avermelhados. Um exemplo conhecido é a “neve melancia” (neve rosa ou vermelha), associada à alga Chlamydomonas nivalisque produz um pigmento carotenoide vermelho que funciona como “protetor solar” que altera a cor da neve em zonas montanhosas e geladas.
Na Antártida, excrementos de pinguins também podem tingir a neve de rosa. Já o azul de glaciares é explicado por outro mecanismo: o gelo muito compacto absorve mais comprimentos de onda longos (como vermelhos e amarelos) e devolve mais luz azul.
A reflexão da luz pela neve é quantificada pela “albedo”, medida de quanta radiação solar uma superfície reflete. Neve muito fresca pode ter valores elevados (cerca de 0,85 ou mais), o que a torna altamente refletora. Quando se acumula fuligem ou fumo, a albedo diminui: a superfície absorve mais energia, aquece e derrete mais depressa. Essa aceleração da fusão pode afetar reservas de água e agravar dinâmicas associadas ao aquecimento global.
As condições atmosféricas também alteram o modo como a neve é percecionada. Nuvens baixas e estratos uniformes podem contribuir para o branqueamentoreduzindo drasticamente a visibilidade e eliminando sombras (“luz plana”), com impacto na perceção de profundidade. Além disso, o forte espalhamento de radiação, incluindo ultravioleta, aumenta o risco de fotoceratite (a chamada “cegueira da neve”) e de queimaduras solares em atividades ao ar livre.
