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Acordo UE-Mercosul fechado. Terá “mais perdas do que ganhos”



Paulo Novais / Lusa

Um “passo histórico em frente” para uns, mas uma invasão da Europa para muitos agricultores, que temem pelo futuro.

O Conselho da União Europeia anunciou hoje a aprovação do acordo comercial com quatro países do Mercosul, que deverá ser assinado esta segunda-feira pela presidente da Comissão Europeia no Paraguai.

Esta aprovação foi saudada pelo ministro cipriota do Comércio, Michael Damianos, que detém atualmente a presidência do Conselho da UE, considerando que o dia de hoje marca “um passo histórico em frente no fortalecimento da parceria estratégica da UE com o Mercosul”.

“Num tempo de incerteza global crescente, é essencial reforçar a nossa cooperação política, aprofundar os nossos laços económicos e manter o nosso compromisso com um desenvolvimento sustentável”, lê-se numa nota do ministro divulgada pelo Conselho da UE.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, saudou a aprovação do acordo: é “bom para a Europa” e traz “benefícios reais para os consumidores e empresas europeias”.

“É importante para a soberania e autonomia estratégica da UE. Com este acordo, a UE está a moldar a economia global”, refere o ex-primeiro-ministro, que acrescenta que este acordo reforça também “os direitos dos trabalhadores, a proteção ambiental e as salvaguardas para os agricultores europeus”.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, acha que este é “um passo decisivo” para reforçar as relações económicas e políticas entre a Europa e a América Latina.

“Mais perdas do que ganhos”

Mas Confederação Nacional da Agricultura (CNA) avisou que o acordo entre a UE e o Mercosul terá “mais perdas do que ganhos” e defendeu que os agricultores terão os seus rendimentos ainda mais comprimidos.

“Ao longo destes últimos anos temos vindo a alertar para as consequências negativas deste acordo para os agricultores e, portanto, olhamos para isto como uma muito má notícia, sobretudo, para os países mais periféricos, como Portugal, que já têm problemas de abandono da agricultura e desequilíbrios na balança comercial”, apontou o dirigente da CNA Vítor Rodrigues, em declarações à Lusa.

. sacrificou a agricultura “no altar das grandes indústrias”, em particular da Alemanha e França, abrindo a porta a produtos do Mercosul, que vão comprimir os rendimentos dos agricultores.

A confederação vincou ainda ser impossível fiscalizar “do outro lado do oceano com os critérios deste lado” e destacou o impacto que se vai sentir em setores como o da carne bovina.

O que vamos perder será muito mais do que alguma coisa que se possa ganhar”, insisti.

Os agricultores pedem à Europa que encontre formas de dignificar os seus rendimentos neste quadro de liberalização do comércio.

Entre os instrumentos à disposição, Vítor Rodrigues destaca a proibição de compra de produtos agrícolas abaixo do preço da produção.

“UM prioridade da União Europeia neste processo nunca foi a agricultura, mas a grande indústria, como a dos automóveis”, lamentou.

O dirigente da CNA Vítor Rodrigues considerou que o preço do azeite já é alto e que as tarifas aplicadas não constituem um fator decisivo na formação do valor deste produto.

Já no que se refere aos queijos, a confederação disse que, do ponto de vista dos principais componentes da alimentação humana, o ganho neste setor não é comparável com as perdas nos setores da carne bovina, suína e de aves.

Paris foi palco de um protesto em larga escala nesta quinta-feira. Os agricultores franceses temem a invasão da Europa por produtos concorrenciais e com menor controlo de produção oriundos de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.



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