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António Damásio jantou com Epstein. Casa Pia, Maddie e Costa mencionados nos ficheiros



Magnata norte-americano Jeffrey Epstein

Neurocientista português confirmou dois encontros com o pedófilo, depois dos emails que trocou com este terem sido divulgados. Em nenhum dos casos de menções a portugueses ou Portugal há qualquer indício de crime.

Uma denúncia enviada às autoridades norte-americanas em julho de 2019, com o assunto “Jeffrey Epstein”, foi enviado semanas antes de este morrer na prisão, enquanto aguardava julgamento.

O email, agora incluído nos ficheiros divulgados pelo Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA, não apresenta provas novas nem documentação adicional, mas pede que seja investigada uma possível ligação entre Epstein e alegações mencionadas num documentário sobre o desaparecimento de Madeleine McCann.

O remetente justificava o alerta com um excerto do documentário em que é recordado o escândalo de abusos na Casa Pia. Segundo a mensagem, no episódio citado é afirmado que “milionários americanos” viajavam para Portugal em jatos privados “com o propósito” de abusar sexualmente de crianças institucionalizadas.

O email não identifica nomes, datas concretas nem descreve fontes primárias: apenas sugere que a informação poderia ser do interesse das autoridades.

O segmento do documentário assenta em declarações de Felícia Cabritajornalista portuguesa que refere ter encontrado indícios de ligações a cidadãos norte-americanos que, desde a década de 1960, se deslocariam a Portugal com a alegada conivência de responsáveis ​​da instituição, abusando das vítimas.

Nenhum e-mail divulgadoque data de 23 de julho de 2019, lê-se:

Exmos Senhores,
Um documentário de 2019, atualmente em exibição na Netflix Canadá, intitulado The Disappearance of
Madeleine McCann, trata da menina inglesa de quatro anos que desapareceu em Portugal em 2007
enquanto passava férias com os pais e os irmãos. Ela nunca foi encontrada.

Na 1ª temporada, episódio 3, os jornalistas portugueses referem um escândalo ocorrido anos antes relacionado com
abuso infantil num orfanato português. O caso chama-se Pacto do Silêncio. Em relação ao
orfanato Casa Pia, um jornalista afirma que é um facto conhecido que os milionários americanos
voavam para Portugal em jatos privados com o propósito de abusar sexualmente destas crianças.

Esta pode ser uma linha de investigação que queiram seguir.

Atenciosamente,

No material agora divulgado, esta será a única referência direta ao processo Casa Pia.

Os emails com António Damásio

António Damásio, neurocientista luso-americano e professor na University of Southern California, confirmou ao Observador ter-se encontrado por duas vezes com Jeffrey Epstein em Nova Iorque, em contextos relacionados com investigação científica.

Segundo documentos divulgados pelo Departamento de Justiça, um desses encontros ocorreu a 28 de fevereiro de 2013na casa do milionário, e esteve ligado a um pedido de financiamento para um projeto na área da neurociência.

Damásio garante no entanto que desconhecia os crimes de Epstein e sublinha que nunca recebeu qualquer apoio financeiro do empresário, que cometeria suicídio na prisão seis anos após o encontro entre os dois.

De acordo com a correspondência nos ficheiros divulgados, a aproximação de Damásio a Epstein intensificou-se no final de fevereiro de 2013. Num email de 26 de fevereiroo cientista recordou ao milionário conversas anteriores e apresentou “ideias excitantes” para investigar a base celular dos sentimentos. O objetivo seria dar início a experiências sem recorrer a empréstimos institucionais que pudessem comprometer o controlo do projeto. Daí a pergunta direta: estaria Epstein disposto a financiar o trabalho?

Obrigado, Jeff. Junto envio o e-mail que não foi entregue. Estou em Nova Iorque agora e vou ficar até domingo. Se houver alguma hipótese de eu te ver por alguns minutos, seria ótimo. Por favor, avise-me.

António

Caro Jeff: Deve lembrar-se que lhe falei sobre algumas novas ideias interessantes para investigar a base celular dos sentimentos. Chegámos ao ponto em que precisamos de prosseguir experimentalmente, mas não quero fazê-lo através de pedidos de financiamento convencionais, pois obviamente perderíamos o controlo das ideias. Podemos conversar sobre a possibilidade de vocês financiarem este projeto? Estarei em Nova Iorque quinta e sexta-feira e, no caso de lá estar, posso ir a sua casa e dar detalhes sobre o projeto. Atenciosamente, António

Damásio terá tido dificuldades em chegar a Epstein e recorreu a Richard Saul Wurman, arquiteto e fundador das conferências TED Talks:

Carol Ricardo:
Fico feliz que tenha visto o Jeff Epstein ontem, mas ainda não encontrei uma forma viável de o contactar. Pode ajudar?

Atenciosamente,
António

Carol Ricardo:

Estou a tentar entrar em contacto com Jeff Epstein sobre um assunto bastante importante, mas os seus e-mails retornam e o seu telefone
não atende. Poderia me ajudar? Talvez os meus números estejam desatualizados e possa
fornecer-me os corretos.

Muito obrigado desde já.
Atenciosamente,
António Damásio

Essa intervenção permitiu-lhe falar com Lesley Groff, assistente pessoal de Epstein, que confirmou a reunião para as 18h00 do dia 28, com a localização proposta pelo próprio: a sua residência no centro de Manhattan. “Ele disse que tinha um jantar para ir, mas teria muito tempo para estar consigo”, lê-se.

Após o encontro, uma assistente da University of Southern California enviou a Epstein documentação sobre o tema da investigação.

No dia seguinte, 1 de março, Damásio voltou a escrever ao milionário, numa mensagem que mistura linguagem informal e referências a robótica e anexou ficheiros associados ao projeto. No entanto, o pedido não avançou: Damásio afirma que Epstein recusou “de forma educada” e sugeriu que o cientista procurasse doadores “locais”, na Califórnia, em vez de financiadores em Nova Iorque.

Os documentos sugerem contactos anteriores. Em 2009, há referências a um jantar na casa de Epstein e a convites para eventos académicos e mesas-redondas, incluindo iniciativas associadas ao psicólogo Dan Ariely. Damásio confirma que, antes de 2013, ele e a mulher, Hanna Damásio, aceitaram um convite para jantar na mesma casaacompanhados por outros académicos de instituições de topo.

“A minha mulher e eu aceitámos um convite para jantar na sua casa em Nova Iorque, onde fomos acompanhados por outros cientistas e professores de variadas instituições de elite”, diz o cientista português.

O nome do neurocientista surge ainda em trocas de emails envolvendo o biólogo Marc Hauser, que mencionou Damásio como peça central de um projeto de realidade virtual e, mais tarde, como potencial participante numa discussão sobre mecanismos do comportamento criminoso. Já em 2019, Damásio aparece num documentário da PBS financiado por Epstein, através do programa Closer To Truth.

Ainda assim, António e Hanna Damásio insistem: após 2013, não voltaram a encontrar-se com Epstein nem mantiveram contacto. E se tivessem sabido dos crimes, “nunca” teriam procurado o seu apoio.

Outras menções a Portugal

Os Ficheiros Epstein contêm outras menções a Portugal, sobretudo relacionadas com registos de voos e paragens técnicas nos Açoresnomeadamente na ilha de Santa Maria.

Entre os elementos citados está o avião privado associado a Epstein, conhecido como “Lolita Express” — uma alcunha que remete para o polémico romance de Vladimir Nabokov, frequentemente invocado em referências públicas ao caso. A bordo desse avião viajaram, além de Epstein e da sua namorada atualmente presa, Ghislaine Maxwell, várias figuras públicas.

Uma segunda referência a Portugal nos documentos envolve o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado. O nome surge integrado numa lista de 15 personalidades que um remetente não identificado sugeria como potenciais contactos de Epstein. Contactado pela SIC há cerca de um mês, o antigo governante considerou o assunto “ridículo” e garantiu nunca ter visto Epstein.

É importante sublinhar que a denúncia de 2019 não permite concluir se existiu investigação, nem estabelece qualquer ligação comprovada entre Epstein e as alegações sobre Portugal.

O ex-primeiro-ministro de Portugal António Costa também é mencionado quatro vezes em emails dirigidos a Epstein, embora não se estabeleça qualquer contacto direto, encontro ou troca de informação entre Costa e o pedófilo.

“Desculpe, estou na sala de conferências a ouvir o Primeiro-Ministro de Portugal… Nada de revolucionário, na verdade“, lê-se num dos emails, escrito por Ariane de Rothschild.



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