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Criador de uma app de spyware descobriu (da pior forma) que “apanhar traidores” é ilegal



O criador de uma app de monitorização de atividade nos telemóveis, que quando foi lançada, há 25 anos, servia essencialmente para fins legais, declarou-se esta semana culpado de ter desenvolvido e comercializado um programa informático para espiar outros adultos sem o seu consentimento.

Em 2002, Bryan Fleming ajudou a criar o pcTattletaleum programa informático para monitorizar a utilização de telemóveis e computadores.

A ferramenta de Fleming gravava tudo o que era feito no dispositivo-alvo, e os vídeos eram carregados para um servidor onde podiam ser visualizados pelos subscritores do serviço oferecido pelo pcTattletale.

Isto pode parecer assustador, mas também pode ser legalquando utilizado por um pai a monitorizar um filho ou por um empregador a controlar o trabalho dos seus funcionários.

Estes eram os casos de utilização que inicialmente constavam no site do pcTattletale, onde o programa era apresentado como tendo “ajudado dezenas de milhares de pais a impedir que as filhas se encontrassem com pedófilos“.

Segundo constava no site, as empresas podiam “acompanhar a produtividade, roubos, horas perdidas e muito mais“, e até “esquadras de polícia o usavam para investigações”.

Entretanto, algures pelo caminho, a aplicação deixou de ser uma ferramenta para uso legal, e passou a ser uma aplicativo de “stalkerware”que durante anos serviu essencialmente para “espiar maridos infiéis“.

O pcTattletale acabaria por fechar portas em 2024, após um vazamento de dados, e dois anos depois os procuradores federais norte-americanos terem iniciado uma investigação à conduta de Fleming.

Esta semana, quase 25 anos após o lançamento do pcTattletale, Bryan Fleming declarou-se culpadonum tribunal federal dos EUA, de ter conscientemente “criado e comercializado um programa informático para espiar outros adultos” sem o seu consentimento.

Por outras palavras, diz o Ars Técnicao pcTattletale era frequentemente usado para espiar parceiros românticos sem o seu conhecimento — e Fleming ajudava as pessoas a fazê-lo.

Não é claro quando o pcTattletale começou a ser apresentado como uma ferramenta para apanhar traidoresmas o sócio original de Fleming deixou a empresa em 2011, e Fleming passou na altura a gerir a empresa sozinho a partir de casa, num subúrbio a norte de Detroit.

Em 2021, a Vice noticiou que o pcTattletale estava a deixar vazar dados sensíveis que recolhia. A reportagem citava materiais de marketing sobre o uso da app para apanhar um “cônjuge infiel“, o que exigia que os utilizadores soubessem o “código de acesso” do cônjuge e tivessem “acesso ao telemóvel durante 5 minutos”.

A melhor altura para fazer isto é quando estão a dormir“, explicava o material de marketing da aplicação. A empresa também fornecia aos utilizadores instruções para ocultar ícones que pudessem revelar que o pcTattletale estava a funcionar no telemóvel da vítima.

Uma consulta feita pelo Ars Technnica às versões arquivadas do site do pcTattletale na Wayback Machine mostra que, em 2022, o pcTattletale tinha acrescentado numerosas ligações sobre “traição” no site e apresentava múltiplas publicações no blogue sobre formas de “apanhar o teu namorado a trair“.

Estas orientavam explicitamente as pessoas a usar o “código de desbloqueio do telemóvel do teu namorado” para instalar “a aplicação espiã pcTattletale” de modo a “ver tudo o que ele faz no telemóvel“.

Por volta dessa altura, investigadores federais na Califórnia tinham lançado uma investigação sobre “stalkerware”e o pcTattletale estava entre os seus alvos. Fleming era surpreendentemente fácil de encontrar, e os investigadores obtiveram rapidamente cópias da sua conta de correio eletrónico.

O email de Fleming continha muitas mensagens de apoio técnico do género “além disso, se houver uma forma de NÃO deixar o utilizador saber que estás a tirar uma captura de ecrã, isso também seria útil”, e respostas a problemas como “o meu marido sabe quando está a ser tirada uma captura de ecrã porque faz um sinal sonoro. Ele agora suspeita que há algo no telemóvel dele”.

Apesar de lhe terem dito repetidamente que as pessoas estavam a usar o seu produto para espiar outras sem o seu consentimento, Fleming ajudava-as com apoio técnico.

Um investigador governamental chegou mesmo a abrir uma conta de marketing de afiliados para o pcTattletale, e Fleming entrou em contacto para oferecer anúncios em banner já prontos com textos como “pcTattletale Marido a Trair? N.º 1 para apanhar um traidor” e “A Melhor Aplicação Espiã para Apanhar um Traidor”.

Fleming chegou a afirmar, numa mensagem, que o pcTattletale tinha mais sucesso quando comercializado junto de mulheresporque “há muito mais mulheres que querem apanhar o seu homem do que o contrário”.

Com base nestes dados, o governo federal obteve um mandado de busca 2022 e fez uma rusga à casa em Bruce Township onde Fleming vivia.

Os procuradores federais acabaram por acusar Fleming de vender um produto “sabendo ou tendo razões para saber” que o programa era “principalmente usado com o propósito de interceção sub-reptícia de comunicações por cabo, orais ou eletrónicas”.

Esta semana, na Califórnia, Fleming declarou-se culpado da acusação e foi libertado sob fiança enquanto aguarda a sentença.

Massa queda em desgraça de Fleming começou na verdade em 2024. Segundo noticiou na altura o TechCruncho pcTattletale tinha sido pirateado e grande parte dos seus dados tinham sido roubados.

Aparentemente, os piratas informáticos tinham obtido acesso às chaves privadas da conta da Amazon onde eram armazenados os dados dos vídeos criados pela aplicação. Fleming afirmou na altura que a sua empresa estava “fora do negócio e completamente acabada” após a violação.

Há agora menos uma ferramenta de stalkerware no mercado. Infelizmente, muitas outras continuam a oferecer os seus serviços, e os seus proprietários e operadores são frequentemente mais difíceis de apanhar do que o aparentemente ingénuo Bryan Fleming.



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