
ABIR/EPA
Sem Internet há duas semanas, as estimativas do número de mortos no país oscilam entre os três mil e os 30 mil mortos. EUA querem falar, mas também têm tudo a postos para um ataque.
Faz esta quarta-feira um mês desde que eclodiram os protestos contra o custo de vida no Irão, que segundo testemunhas contaram com milhões de pessoas nas ruas em milhares de locais espalhados pelo país. O líder supremo iraniano terá ordenado os militares a “não terem misericórdia” no auge dos protestos, a 8 e 9 de janeiro, segundo o O jornal New York Times: “Esmaguem-nos. Disparem a matar e não tenham misericórdia”, terá dito o Ayatollah Ali Khamenei a partir do bunker em que estará a refugiar-se.
A crise interna que se instalou durante a repressão às manifestações já é uma das mais graves dos últimos anos. E ninguém sabe ao certo quantas pessoas perderam a vida nos últimos dias: os números oscilam entre os três mil e os 30 mil mortos.
Se o governo iraniano dá conta de 3.100 mortos, uma rede com mais de 80 profissionais de saúde, em 12 das 31 províncias iranianas, confessa diretamente ao O Guardiãosob anonimidade, que “todas as contagens publicamente citadas representam uma subestimação severa” e defendem a hipótese de o total de mortos nas ruas, nos dias 8 e 9 de janeiro, ultrapassar os 30 mil, ao encontro da estimativa da Iran Internacional, página independente ligada à oposição.
Já a organização baseada nos EUA Human Rights Activists News Agency (HRANA), que apresentou números fiáveis em repressões anteriores, aponta para “mais de 6 mil” mortes, mas tem ainda “mais de 17 mil” casos sob investigação — o que poderia elevar o total para cerca de 22 mil. Outra organização, a Iran Human Rights (IHR), sediada na Noruega, alertou que o número final de mortos poderá ultrapassar os 25 mil.
E porque é que os números dispersam tanto? Como é que se vai comunicar quando não há Internetque foi desligada pelo Governo há cerca de duas semanas.
O que dizem testemunhas e o que se viu em vídeos verificados
Morgues e cemitérios descrevem ao O Guardião situações de colapso logístico e pressão institucional para acelerar processos de remoção e sepultamento de corpos.
No cemitério Behesht-e Sakineh, em Karaj, a cerca de 50 km a oeste de Teerão, “Reza” (nome fictício) conta ao jornal que “centenas de corpos” terão sido levados para o local, “não reclamados e não identificados”, transportados em pequenas carrinhas normalmente usadas para frutas e legumesnem todos estariam selados em sacos mortuários. Reza descreve corpos “colados” uns aos outros, com sangue ainda fresco ou já seco.
Ahmadi, médico que organizou a rede que aponta para as 30 mil mortes, também viu “camiões frigoríficos normalmente usados para gelados ou carne” a deslocarem-se em “comboios” para instalações de medicina legal e entradas traseiras de hospitais. E outra testemunha do jornal diz ter tido acesso ao cemitério para procurar o corpo de um amigo: relata ter vasculhado centenas de cadáveres “empilhados”.
Funcionários de instalações forenses de duas cidades diferentes dizem ter recebido corpos com ferimentos de bala na cabeça, a curta distânciaque foram transferidos de morgues hospitalares ainda com cateteres e tubos.
Fotografias verificadas pela organização iraniana Factnameh mostrarão pacientes mortos em sacos mortuários, com roupas hospitalares e cateteres, com aparentes ferimentos de bala na testa. Para um médico iraniano baseado no Reino Unido, essas fotografias são consistentes com pessoas “atingidas diretamente na cabeça enquanto estavam em tratamento”.
Também a Verificação da BBCem colaboração com a BBC Persian, denuncia que detetou vídeos de corpos empilhados num hospital, alegados atiradores posicionados em edifícios e tentativas de destruição de câmaras de videovigilância, apesar de o corte da Internet estar a dificultar todo o trabalho.
Sinais contraditórios dos EUA, colapso “não está garantido”
Militares israelitas acreditam que os Estados Unidos estão a preparar-se para um possível ataque ao Irão, avança o Canal 13 de Israel, citado pela Euronews. Segundo a estação, esta semana será decisiva para a tomada de decisões, embora responsáveis norte-americanos indiquem que ainda não existe uma autorização final para avançar com operações ofensivas.
Os sinais que chegam de Washington são contraditórios.
Por um lado, os EUA ameaçam cada vez mais com um ataque. Estão a concluir a constituição de forças navais, aéreas e terrestres capazes de sustentar uma campanha que poderá prolongar-se por “várias semanas”. A mobilização inclui destacamentos colocados em pontos estratégicos, com capacidade de atingir rapidamente o alcance operacional necessário para ações contra o território iraniano.
Não é um plano naval, o superporta-aviões USS Abraham Lincoln está no Índico, pronto para entrar em açãocom milhares de militares a bordo e um contingente aéreo que inclui cerca de 90 aeronaves, entre as quais caças F-35 e helicópteros Blackhawk. A missão integrará ainda submarinos equipados com mísseis de cruzeiro Tomahawk. Caças F-15 foram transferidos para várias bases na região, como a Jordânia, três contratorpedeiros terão sido posicionados perto da costa espanhola e um submarino no sul da Grécia. Há navios equipados com o sistema Aegis e com baterias THAAD, de defesa antimíssil balística.
Donald Trump ainda não terá tomado uma decisão final, mas os EUA pretendem concluir, até ao final da semana, os instrumentos e arranjos para uma operação de contingência. Entretanto, os EUA estão “abertos a negociações” se o Irão desejar entrar em contacto com Washington, afirmou uma autoridade norte-americana na segunda-feira à Reuters.
Apesar de tudo, o colapso do regime “não está garantido”acredita Guido Ambroso, antigo representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) no Azerbaijão, em declarações à Euronews., que delineou dois cenários para o futuro do Irão: um em que as autoridades continuam a tentar conter a agitação através da repressão restaurando a estabilidade à força, e outro, que considera menos provável, de uma transição política para um sistema mais aberto.
