
Rita Willaert/Flickr
Harbin, China
Os hábitos de aquecimento em Harbin, que é uma das cidades mais frias do mundo, podem ser úteis para quem quer poupar no consumo de energia e revelam uma abordagem diferente da dos europeus.
Em Harbin, no nordeste da China, as temperaturas de inverno atingem regularmente os -30°C e, em janeiromesmo os dias mais quentes raramente ultrapassam os -10°C. Com cerca de 6 milhões de habitantes atualmente, Harbin é facilmente a maior cidade do mundo a sofrer um frio tão constante.
Muito antes do ar condicionado elétrico e do aquecimento urbano, as pessoas da região sobreviviam aos invernos rigorosos utilizando métodos completamente diferentes dos radiadores e das caldeiras a gás que dominam as casas europeias nos dias de hoje.
Agora, o investigador em arquitetura e construção Yangang Xing, que é natural de Harbon, diz-se impressionado com as lições que podemos aprender com estes sistemas tradicionais. As faturas de energia ainda são muito elevadas e milhões de pessoas têm dificuldade em aquecer as suas casas, enquanto as alterações climáticas deverão tornar os invernos mais instáveis. Precisamos de formas eficientes e de baixo consumo energético para nos mantermos quentesque não dependam do aquecimento de uma casa inteira com combustíveis fósseis. Algumas das respostas podem estar nestes métodos.
Uma cama quente feita de terra
As primeiras memórias do inverno de Xing envolvem acordar num “kang” – uma cama de plataforma aquecida feita de tijolos de terra, utilizada no norte da China há pelo menos 2000 anos. O kang é menos um móvel e mais parte da própria construção: uma laje espessa e elevada, ligada ao fogão da família na cozinha. Quando o fogão é aceso para cozinhar, o ar quente circula por passagens sob o kang, aquecendo toda a sua estrutura.
Para uma criança, o kang parecia mágico: uma superfície quente e radiante que se mantinha quente durante toda a noite. Mas, como adulto pode-se apreciar o quão notavelmente eficiente é esta peça de engenharia.
Ao contrário do aquecimento central, que funciona aquecendo o ar em todas as divisões, apenas o kang (ou seja, a superfície da cama) é aquecido. O quarto em si pode estar friomas as pessoas aquecem-se deitando-se ou sentando-se na plataforma com cobertores grossos. Uma vez aquecido, as suas centenas de quilos de terra compactada libertam calor lentamente ao longo de muitas horas. Não há radiadores, nem necessidade de bombas, e não há aquecimento desnecessário de divisões vazias. E como grande parte do calor inicial era gerado pelas fogueiras de que seriam precisas para cozinhar de qualquer forma, poupava-se combustível.
Manter o kang era uma tarefa familiar. O pai de Xing – professor de literatura chinesa do ensino secundário, não engenheiro – tornou-se um especialista na construção do kang. Construir cuidadosamente camadas de carvão à volta do fogo para o manter aceso durante a noite era tarefa da sua mãe.
Mas, apesar de todas as suas desvantagens, o kang proporcionava algo que os sistemas de aquecimento modernos ainda lutam para oferecer: calor duradouro com muito pouco combustível.
Abordagens semelhantes em toda a Ásia Oriental
Em toda a Ásia Oriental, as abordagens para se manter quente em climas frios evoluíram em torno de princípios semelhantes: manter o calor junto ao corpo e aquecer apenas os espaços necessários.
Na Coreia, o antigo sistema ondol também canaliza o ar quente por baixo de pavimentos espessos, transformando todo o chão numa superfície aquecida. O Japão desenvolveu o kotatsu, uma mesa baixa coberta por uma manta grossa com um pequeno aquecedor por baixo para manter as pernas quentes. Podem ser um pouco caros, mas são um dos artigos mais populares nas casas japonesas.
As roupas também eram muito importantes. Todos os invernos, a mãe de Xing fazia-lhe um casaco grosso e acolchoado novinho em folha, recheado com algodão recém-afofado.
A Europa teve ideias semelhantes – e depois esqueceu-as
A Europa já teve abordagens semelhantes ao aquecimento. Os antigos romanos aqueciam edifícios utilizando hipocaustospor exemplo, que faziam circular ar quente por baixo dos pavimentos. As casas medievais penduravam tapeçarias pesadas nas paredes para reduzir as correntes de ar, e muitas culturas usavam almofadas macias, tapetes aquecidos ou áreas de dormir fechadas para conservar o calor.
A disseminação do aquecimento central moderno no século XX substituiu estas abordagens por um padrão que consome mais energia: aquecer edifícios inteiros a uma temperatura uniforme, mesmo quando apenas uma pessoa está em casa. Quando a energia era barata, este modelo funcionava, mesmo que a maioria das casas europeias (especialmente as do Reino Unido) tivesse um isolamento térmico deficiente para os padrões globais.
Mas agora que a energia está novamente cara, dezenas de milhões de europeus não conseguem manter as suas casas adequadamente aquecidas. As novas tecnologias, como as bombas de calor e as energias renováveis, ajudarão – mas funcionam melhor quando os edifícios que aquecem já são eficientespermitindo temperaturas de regulação mais baixas para o aquecimento e mais elevadas para o arrefecimento.
Isto destaca por que razão as abordagens tradicionais para aquecer casas ainda têm algo para nos ensinar. O sistema Kang e sistemas similares mostram que o conforto nem sempre advém do consumo de mais energia – mas sim de um projeto de aquecimento mais inteligente.
