
Kevin Webb / NHM Image Resources / Museu de História Natural, Londres
Reconstituição de um homo sapiens (esq) e neandertal (dir)
Não foi só um engate, aqui ou ali. Introgressão foi um fenómeno geograficamente amplo, que cobriu quase toda a área ocupada por neandertais. Península Ibérica é uma de duas exceções.
O cruzamento entre Homo sapiens e neandertais pode ter ocorrido numa área muito mais vasta do que até agora se ele pensou: em grande parte da Eurásia e não apenas uma zona limitada no Médio Oriente, tradicionalmente apontada como o principal local de contacto sexual entre as duas populações.
O novo estudo publicado na bioRxiv ainda não foi revisto por pares, mas contraria a hipótese mais repetida até aqui. Hoje, praticamente todas as populações não africanas têm vestígios desse encontro evolutivo: em média, cerca de 2% do genoma de pessoas fora de África contém DNA neandertal. Embora esta herança genética seja bem conhecida, permanecia em aberto uma questão fundamental: onde aconteceuem concreto, a mistura entre as duas linhagens durante o Pleistocénico.
Os autores deste estudo recente analisaram 4.147 amostras genéticas humanas antigas, recolhidas em 1.200 locais espalhados pela Eurásia, com idades entre 44 mil e 6 mil anos. Partindo do pressuposto de que os primeiros Homo sapiens vindos de África terão chegado à Eurásia pela região do Levanteos investigadores procuraram padrões na distribuição de genes neandertais em populações humanas, observando como essa “assinatura” genética se comporta à medida que se afasta desse ponto inicial.
O resultado ditou que, em vez de diminuir, a introgressão (a incorporação de material genético neandertal em populações de Homo sapiens) aumenta quanto maior é a distância ao Levantequer para leste (em direção à Ásia) quer para oeste (em direção à Europa). No modelo proposto, a chamada “zona de hibridação” estende-se quase 4.000 quilómetros em várias direções, alcançando inclusive regiões tão a norte como o Mar Báltico.
Isto aponta para um cenário em que os contactos não foram um evento localizado, mas sim um fenómeno geograficamente amploque cobriu quase toda a área ocupada por neandertais.
Como exceções identificadas incluem a região dos Montes Altai, na Sibéria, e a Península Ibérica, onde os dados não indicam o mesmo padrão, segundo o Ciência IFL.
A equipa interpreta ainda esta distribuição como compatível com um único “pulso” contínuo de mistura, associado à expansão de Homo sapiens para fora de África há cerca de 60 mil anos. Mas apesar do alcance territorial, os episódios individuais de acasalamento terão sido raros, o que ajudaria a explicar a proporção relativamente baixa de herança neandertal nos humanos atuais.
O estudo não fixa com precisão o período exato de intercruzamento, mas refere trabalhos recentes que apontam para um início por volta de 50 mil anos atráspossivelmente prolongado por até sete milénios.
