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o dia triste em que só se ouvia o Benfica na rádio⁩



Relato de Sabacheira. Benfica ganhou ao Real Madrid, resultado histórico: “Histórico foi o que aconteceu connosco. Isso é só futebol”.

Junto de um rádio a pilhasna Sabacheira (Tomar), José Carlos Monteiro estranhou a falta de notícias sobre a depressão Kristin na quarta-feira, como se “as pessoas aqui não existissem” e “foram apagadas pelo vento”.

Foi “muito estranho. Eu ligava o rádio e só se ouvia o Benfica na rádio, foi tão triste”, lamenta o morador, que viu “árvores viradas ao contrário” e um “barulho assustador, uma espécie de aspirador gigante recorda o morador da Sabacheira, que não teve “grande azar na casa”, comparado com os vizinhos.

“Há pessoas aqui que têm a vida destruída. Anos de trabalho levados em poucas horas”, desabafa um morador da Sabacheira, enquanto bebia uma bica no café O Santo, que tem eletricidade há poucas horas.

A alguns quilómetros, a placa da localidade de Monchite, que havia resistido a um incêndio, como indiciam as letras queimadas, não sobreviveu ao vento forte que veio do mar.

“Foi vento, agora é chuva, já foram fogos e se for lá para baixo vão ser cheias”, diz Diamantino Silva, morador na zona, enquanto arrastava uns troços de árvores para a valeta.

“Lá para baixo” é Formigais, Ribeira de Couros e Ribeira do Fárrio, já no concelho vizinho de Ourém, onde se vê o rio Nabão a galgar as margens.

“Não vi cá ninguém”

Em Castelões, Ribeira de Couros, Sidónio Pais ajuda o sogro a manter o posto de combustível aberto, com raiva pela ausência das autoridades.

“Você veio aqui, chegou cá, não foi? Olhe, não vi cá nem proteção civil, nem Câmara, nem nada”, desabafa Sidónio Pais, emigrante na Islândia, que compara com o país onde nasceu.

“Lá até pode haver menos recursos, mas as coisas são organizadas”, diz, salientando que é o esforço do sogro, com um pequeno gerador, que mantém a terra com energia, apesar de o escritório estar destruído, bem como uma das bombas de abastecimento.

A sua mulher, Sónia Lopes, confirma. “Nós jogamos tudo: papéis molhados, equipamentos elétricos, coisas da empresa”.

Sónia Lopes olha para o abandono destas zonas e aponta o dedo às autoridades nacionais e locais: “Sei que não dá para tudo, mas ninguém apareceu a perguntar o que é que é preciso”.

“Há idosos isolados, com fraldas de vários dias e, se não fossem os vizinhos, era uma tragédia”, afirma Sidónio Dias.

Nestes dias, o posto tem servido de apoio para as pessoas carregarem baterias e até comprar fiado o combustível.

“Claro que fiamos, as pessoas não têm dinheiro, nada funciona”, diz Sónia Lopes, que lamenta a falta de comunicações.

“A minha irmã trabalha em Fátima e não sabia o que se passava, só quando cá veio é viu esta miséria”, diz.

Dono do posto há 33 anos, Joaquim Lopes não comenta os lamentos da filha e genro e só chora.

Não consigo falar, desculpe”afirmou o empresário, que gere o pequeno posto e o café da localidade, desalentado perante o abandono a que “um país sério e digno” está votado.

“Eu sei que eles não podem chegar a todo o lado e que em Leiria e na Marinha [Grande] foi grave, mas não podem pôr um gerador junto ao PT [Posto de Transformação]” da terra?

Se o meu gerador morre, a terra desaparece”, desabafa.

“É só futebol”

A alguns quilómetros, em Ferreira do Zêzere, a sensação de abandono é semelhante.

“Não querem saber de nós. O que conta é Lisboao resto não interessa. Se não fossem os nossos”, diz Artur, morador de uma aldeia vizinha da vila que conta com a ajuda dos filhos, que vivem em Lisboa, para tentar recuperar o telhado.

Na Sabacheira, José Carlos Monteiro aponta para o rádio onde ouviu as notícias e mostra-se hoje mais contente.

“As pessoas já repararam em nós, mas foi difícil, até porque as rádios locais também não existiam”, diz.

Ao longo dos anos, a crise das rádios locais levou à sua compra pelas estações nacionais, pouco atentas ao noticiário local.

Além disso, as que sobrevivem não têm geradores ou têm as antenas destruídas, pelo que, ainda hoje, muitas permanecem mudas.

Benfiquista, José Carlos Monteiro soube só dois depois que o Benfica ganhou ao Real Madrid (4-2)um resultado histórico para o clube.

Histórico foi o que aconteceu connosco. Isso é só futebol”responde.



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