
Conversas repetidas, partidas que morrem, fantasmaavaliações rápidas em cadeia, a comparação constante e a perceção de que “há sempre alguém melhor a dois desliza de distância” criam um clima psicológico propício à fadiga emocional.
Nos últimos anos, a expressão esgotamento de aplicativos de namoro deixou de ser apenas uma expressão das redes sociais e começou a ser estudada com mais seriedade, incluindo evidência longitudinal que mostra um aumento de exaustão e sentimentos de ineficácia ao longo do tempo em utilizadores de apps.
É importante começar por uma nota de rigor: “burnout”, ou síndrome de esgotamento profissional, no sentido técnico do termo, é definido pela Organização Mundial da Saúde como um fenômeno ocupacionalassociado a stress crónico no trabalho que não foi gerido com sucesso.
Um seguro médico obrigatório descreve três dimensões: exaustão, distanciamento mental e redução de eficácia profissional, e recomenda que o conceito não seja aplicado, de forma literal, a outras áreas da vida.
Ainda assim, na clínica e na investigação é frequente usarmos “burnout emocional no dating” como metáfora funcional para descrever um conjunto de experiências paralelas: exaustão afetiva, distanciamento/apatiasensação de que “não vale a pena” e perda de motivação para investir em novas tentativas, mesmo quando existe desejo de estar numa relação.
O que é que torna o dating digital particularmente desgastante? Um primeiro fator é a arquitetura da escolha. Em ambientes onde a disponibilidade de potenciais parcerias parece ilimitada, o cérebro entra em modo de triagem constante.
Alguns estudos experimentais e correlacionais sugerem que mais disponibilidade pode aumentar a perceção de sobrecarga e associar-se a pior autoavaliação (por exemplo, autoestima) e a uma maior ansiedade em relação a ficar só.
Mais recentemente, investigação sobre o comportamento de deslizando indica que avaliar um número mais elevado de perfis aumenta a perceção de choice overload (sobrecarga de escolha), o que tende a corroer a experiência subjetiva e a tornar a decisão mais pesada, menos prazerosa e mais defensiva.
Em termos psicológicos, isto ajuda a explicar porque é que “ter mais opções” pode paradoxalmente gerar menos satisfação e mais desgaste: quando tudo parece substituível, investir emocionalmente começa a parecer arriscado.
Um segundo fator é o ciclo de micro-rejeições típico do ambiente digital. Nem sempre é uma rejeição explícita; muitas vezes é silênciorespostas mínimas, desaparecimentos repentinos, conversas que nunca chegam a encontro.
O cérebro interpreta estes eventos como pequenos sinais de desvalorização social. A acumulação produz um efeito semelhante ao “gotejar” do stress crónico: a pessoa passa a antecipar frustração, reduz expectativas e pode desenvolver cinismo (“ninguém quer nada sério”, “isto é tudo superficial”), crenças que protegem da desilusão, mas também impedem a abertura à ligação.
Um terceiro fator é a dinâmica de autoimagem. O dating digital é, inevitavelmente, um espaço de apresentação do eu: fotos, descrições, indicadores de estatuto, preferências.
Para algumas pessoas, isto ativa a comparação social intensavergonha corporal, necessidade de validação ou uma dependência de sinais externos (partidasmensagens, elogios) para regular o valor pessoal. Quando o “retorno” não aparece, instala-se a sensação de ineficácia: um terreno fértil para desistência e desânimo.
A evidência empírica mais relevante para a ideia de burnout no uso de apps vem de estudos que tratam esta experiência como um fenómeno com dimensões semelhantes às do burnout clássico: exaustão, despersonalização / distanciamento e ineficácia).
Um estudo longitudinal publicado em 2024 na Novas Mídias e Sociedade acompanhou utilizadores ao longo de semanas e encontrou tendência de aumento de exaustão emocional e ineficácia com o tempo, sendo que variáveis como depressãoansiedade e solidão predisseram maior vulnerabilidade.
Isto é clinicamente relevante por duas razões: primeiro, porque valida que a exaustão não é “falta de vontade”, mas pode ser um processo cumulativo; segundo, porque sugere que pessoas que já estão mais frágeis emocionalmente podem entrar no dating digital à procura de ligação e sair de lá ainda mais esgotadas, num ciclo de compensação social que falha.
A pergunta-chave é: o que fazer sem cair no moralismo do “desinstala e vai à tua vida”? Uma abordagem baseada em evidência e em bom senso clínico aponta para três frentes.
A primeira é reduzir a carga: limites de tempo (por exemplo, janelas curtas e definidas), desativar notificações, evitar doom-swiping (padrão de utilização repetitiva e compulsiva de aplicações de dating) e diminuir o número de conversas simultâneas.
A segunda é aumentar a qualidade: critérios claros, ritmo mais lento, transição mais cedo para encontro (quando houver segurança) para evitar semanas de “chat” que esgota e não vincula.
A terceira é proteger a autoestima: lembrar que métricas de app não são métricas de valor pessoal; trabalhar pensamentos automáticos de rejeição global (“sou descartável”, “ninguém me escolhe”) e observar padrões de escolha que reforçam feridas antigas.
Se houver sinais de sofrimento persistente, vale a pena procurar apoio psicológicouma vez que o contexto digital pode amplificar vulnerabilidades e porque existem intervenções eficazes para autorregulação emocional, crenças de rejeição e padrões de vinculação.
E, por fim, um lembrete simples mas transformador: o objetivo do dating não é maximizar opções; é encontrar condições para um encontro humano realvoltar a colocar o amor no lugar onde ele faz sentido: na relação, não no algoritmo.
