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António Costa no seu último Conselho Europeu
A grande vitória do velho rival António José Seguro e as falhas na governação que terão dado gás a Ventura são os dois motivos apontados para a “derrota” metafórica de Costa nas presidenciais.
“Ó maior derrotado das eleições presidenciais deste fim-de-semana em Portugal foi o presidente do Conselho Europeu, António Costa”. É desta forma que começa uma nova análise do Políticoque traça o legado do ex-primeiro-ministro e o efeito de dominó sentido nas presidenciais.
Para chegar a esta conclusão, o Politico aponta duas razões: a vitória de António José Seguroo seu antigo rival interno no PS, e a consolidação de André Venturacom a sua qualificação para a segunda volta a ser um sinal de crescimento num país que foi durante vários anos visto como imune à ascensão da extrema-direita.
Ó choque com Seguro já vem de longa data. Em 2014, quando, enquanto secretário-geral do PS, Seguro decidiu que o partido se absteria na votação do Orçamento do Estado, uma decisão que desencadeou uma grande contestação interna e motivou o avanço de Costa pela liderança do PS, acusando Seguro de ser demasiado permissivo com o Governo do PSD.
Ó conflito entre costistas e seguristas continuou durante vários anos, com a ala de Costa a apoiar maioritariamente a candidatura de Sampaio da Nóvoa nas presidenciais de 2016, enquanto os fiéis a Seguro estavam com Maria de Belém. Estas velhas feridas ficaram novamente a nu quando Seguro avançou com a candidatura presidencial, com muitos dirigentes socialistas mais próximos de Costa e Pedro Nuno Santos a tecerem-lhe duras críticas.
A grande vitória de Seguro contra Ventura pode agora ser interpretada como um sinal de que os eleitores gostam das posições mais centristas do ex-líder socialista em comparação com a postura mais aguerrida de Costa.
“Com base nos resultados de domingo, os eleitores parecem partilhar da preocupação de Seguro de que o país esteja a seguir o caminho errado”, refere o Politico.
Falhas de Costa ajudaram o Chega?
Após vários anos de austeridade durante o governo de Passos Coelho, o país pareceu recuperar o otimismo durante o primeiro mandato da “geringonça”, com a aliança de esquerda a reverter muitos dos cortes e a repor os benefícios perdidos durante a era da troika.
A recuperação económica em Portugal até transformou Costa numa vedeta no plano internacional, com muitos a apontar as suas políticas como o antídoto para o extremismo que estava a crescer em países como a França, os Estados Unidos ou o Brasil.
Agora, problemas como a crise estrutural na habitaçãoas falhas constantes no Serviço Nacional de Saúde, os desafios trazidos pela elevada imigração num curto período e a corrupção parecem estar a empurrar os eleitores para o populismo do Chega e de Ventura.
“É perfeitamente legítimo relacionar este fenómeno com o modelo económico e social aqui implementado nos últimos 10 anos — uma economia baseada em mão-de-obra pouco qualificada e baixos salários num contexto de aumento drástico dos preços. E Costa é a personificação desse modelo”, afirma ao Politico Riccardo Marchi, especialista em radicalismo de direita do Centro de Estudos Internacionais ISCTE-IUL, em Lisboa.
O Politico especifica a aposta no turismo durante a governação de Costa como um dos principais problemas que agora mancha o seu legado. Apesar de ter sido um grande motor económico, o turismo em massa contribuiu também para o aumento exponencial do custo de vida e para a explosão dos preços no mercado imobiliário, principalmente em Lisboa e no Porto. Os preços dos imóveis em todo o país subiram mais de 124% entre 2015 e 2025.
Decisões de Costa como manter o programa de vistos gold até 2023, a sua defesa da importância do Alojamento Local e a falta de reformas estruturais são agora amplamente criticadas. Enquanto Presidente do Conselho Europeu, Costa tem instado os países a adotar medidas para resolver a crise na habitação, mas o seu historial em Portugal mostra que não seguiu os seus próprios conselhos. Recentemente, um relatório da União Europeia arrasou a resposta portuguesa e instou o país a impor limites nas rendas e nas licenças de Alojamento Local.
“O turismo tem os seus prós e contras, e ajudou a revitalizar muitas das nossas cidades. Mas esta não é a principal preocupação de uma família que já não consegue pagar a renda”, refere o ex-deputado socialista Sérgio Sousa Pinto.
UM degradação dos serviços públicos também abriu caminho a que a retórica anti-imigração de Ventura ganhasse vapor, com muitos eleitores a culpar a entrada em massa de estrangeiros pelas falhas. Pedro Nuno Santos chegou até a reconhecer erros da gestão socialista da imigração.
“É a mesma coisa que ele usou contra a comunidade cigana. É uma linha de argumentação economicamente irracional, mas que agrada aos eleitores frustrados com o aumento dos custos e dos impostos”, explica Pedro Magalhães, especialista em comportamento eleitoral do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
O Chega aproveitou também a profunda desconfiança nas elites políticas. Este sentimento atingiu um auge em 2023, quando o próprio primeiro-ministro foi mencionado na investigação da Operação Influencer. Embora Costa negue qualquer irregularidade e não tenha sido acusado ou constituído arguido, a investigação levou mesmo assim à sua demissão e prejudicou a confiança pública, tanto nos políticos como no próprio Ministério Público.
O politólogo António Costa Pinto, da Universidade de Lisboa, observa ainda que as atitudes autoritárias e o saudosismo pelos tempos de Salazar nunca desapareceram por completo após a transição para a democracia em Portugal, em 1974. “Cerca de 18% do eleitorado adopta valores autoritários”, afirmou, acrescentando que estes eleitores apoiavam historicamente os partidos conservadores tradicionais ou abstinham-se de votar. Ventura está agora a conseguiu captar este eleitorado.
“A gestão de Costa à frente do Partido Socialista é caracterizada pela falta de imaginação”, refere Sérgio Sousa Pinto, que considera que o seu último governo era composto por figuras “medíocres” e refletia a “degradação geral da qualidade dos nossos políticos”.
No entanto, Magalhães é mais cético sobre as supostas culpas de Costa, defendendo que o Chega limitou-se a acordar um setor do eleitorado que estava “mumificado”. “O que temos hoje é um melhor reflexo da diversidade das opiniões públicas do que no passado — quer queiramos, quer não.”
