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o nome que expõe a hipocrisia de Trump sobre Maduro



presidência do Equador / Flickr

Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras

Há cerca de um mês, Donald Trump perdoou um líder político da América Latina que é alvo (e foi até condenado) das duas acusações feitas pelos Estados Unidos a Maduro: tráfico de droga e fraude eleitoral.

Nos últimos meses de tensão crescente, a justificação de Donald Trump para todas as suas decisões contra a Venezuela — os ataques aos navios venezuelanos aos bombardeamentos em Caracas e à captura de Maduro — foi sempre a mesma: Nicolás Maduro está envolvido com cartéis de droga e a usar o seu poder político para facilitar o envio de cocaína para os Estados Unidos.

Mas e se lhe dissermos que, há pouco mais de um mês, Trump perdoou outro chefe de Estado da América Latina que já tinha sido condenado em tribunal por tráfico de droga? E que se esse chefe de Estado também foi alvo de acusações de fraude eleitoral?

Quem é Juan Orlando Hernández?

Juan Orlando Hernández serviu dois mandatos à frente das Honduras, candidatando-se pela primeira vez em 2013 com o apoio dos conservadores do Partido Nacional. Em 2017, voltou a concorrer, tendo sido declarado o vencedor de uma eleição marcada por acusações de manipulação dos resultados e protestos nas ruas.

As alegações basearam-se numa súbita pausa na divulgação dos resultados quando Salvador Nasralla, o adversário de Hernández, tinha uma vantagem de quase 5 pontos já com 60% dos votos apurados.

A contagem foi retomada 36 horas depois, com a vantagem de Nasralla a ter desaparecido e a dar a Hernández uma vitória com uma pequena margem. A comissão eleitoral hondurenha, controlada pelos aliados de Hernández, declarou-o vencedor da eleição, mas a Organização dos Estados Americanos afirmou que o processo foi marcado por inúmeros atrasos e irregularidades inexplicáveis ​​​​“antes, durante e depois” da votação e pediu a realização de novas eleições.

Apesar das suspeitas, os Estados Unidos reconheceram a reeleição de Hernández, que sempre teve uma relação próxima com Washington enquanto esteve no poder, com Barack Obama a até descrevê-lo como um “excelente parceiro” na gestão da crise migratória. Donald Trump, que chegou à Sala Oval pouco depois da polémica eleição, também sempre defendeu a legitimidade de Hernández.

Mas a sorte de Hernández viria a mudar pouco depois.

El Chapo suborna 400 toneladas de cocaína

Em 2019, o mesmo departamento de procuradores federais nova-iorquino que tem agora em mãos o processo de Maduro acusou Hernández de aceitar um suborno de um milhão de dólares do famoso traficante de drogas Joaquín “El Chapo” Guzmán.

O dinheiro terá sido disfarçado como uma doação para a sua primeira campanha presidencial, com El Chapo a exigir proteção das rotas de tráfico de droga nas Honduras como moeda de troca.

As alegações inicialmente vieram à tona num caso separado envolvendo o seu irmão, Juan Antonio “Tony” Hernández, que foi detido em Miami em 2018 sob a acusação de contrabando de cocaína para os EUA. Na altura, o então presidente negou qualquer envolvimento nos crimes do irmão, com Tony Hernández a ser condenado a prisão perpétua em 2019.

Em 2022, o ex-chefe de Estado hondurenho foi detido e extraditado para os EUA sob acusações de tráfico de droga e posse ilegal de armas. O seu julgamento decorreu em 2024 e durou apenas três semanas.

A acusação americana referia que Hernández era uma figura importante numa rede de tráfico de droga que durou mais de 18 anos e que levou mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos, o que equivale a cerca de 4,5 mil milhões de doses individuais.

Os procuradores alegaram ainda que o político ofereceu metralhadoras e lança-granadas aos traficantes, tendo ainda ordenado que a Polícia Nacional protegesse os carregamentos de drogas nas viagens em direção aos Estados Unidos. Houve ainda relatos de que alguns dos traficantes próximos de Hernández terão cometido crimes violentos e assassinatos contra membros de gangues rivais e usado o apoio presidencial para expandir as suas operações.

“O povo das Honduras e dos Estados Unidos sofreu as consequências”, disse o então procurador-geral Merrick Garland.

No total, Hernández foi condenado a 45 anos de prisão.

A carta a Trump e o perdão presidencial

O hondurenho sempre insistiu que estava a ser alvo de perseguição política e, com o regresso de Trump ao poder no ano passado, decidiu escrever-lhe uma carta a apelar à sua intervenção no caso.

“Senhor Presidente, hesitei em enviar esta carta, ciente das imensas exigências do seu cargo, mas a grave injustiça que agora sofro obriga-me a apelar diretamente ao senhor. Escrevo-lhe de uma penitenciária federal, onde cumpro injustamente uma pena de 45 anos, o que, na prática, equivale a uma pena de prisão perpétua dada a minha idade. Tal como o senhor, Presidente Trump, sofri perseguição políticasendo alvo da administração Biden-Harris não por qualquer delito, mas por razões políticas”, escreveu Hernández na carta, que foi divulgada pelo Eixos.

Hernández associa ainda a sua acusação a “membros dos partido de esquerda radical Libre” e afirma que o caso se baseia apenas “na palavra de um traficante de droga” e que “o Departamento de Justiça de Biden-Harris seguiu uma agenda política para fortalecer os seus aliados ideológicos nas Honduras”.

O ex-líder hondurenho faz ainda vários paralelos entre a sua situação e a de Trump. “Encontrei força em si, senhor, na sua resiliência para regressar a este importante cargo, apesar da perseguição e dos processos que enfrentou, tudo porquê? Porque desejava tornar o seu país grande novamente. O que realizou é sem precedentes e verdadeiramente histórico. Tal como si, procurei apenas servir o meu povo. E tal como si, fui imprudentemente atacado por forças radicais de esquerda”, comparou.

A situação da Venezuela também foi mencionada. “A minha crença na democracia é também a razão pela qual condenei abertamente o regime de Maduro na Venezuela, opondo-me à sua fraude e repressão, mesmo quando isso provocou ataques ferozes por parte da mesma liderança radical de esquerda do Partido Livre nas Honduras”, afirmou Hernández, que termina a carta com um apelo a um indulto.

A carta acabou por surtir efeito, com a Trump a garantiu um perdão presidencial a Hernández, justificando a decisão por achar que a condenação inicial foi uma “armadilha de Biden” e alegando que o antigo presidente hondurenho foi tratado “de forma muito dura e injusta”.

Dois pesos e duas medidas?

As acusações de hipocrisia contra Trump pelas suas diferenças no tratamento de Maduro e Hernández não tardaram.

“Foi difícil para mim acreditar, porque havia provas tão contundentes contra Hernández”, disse Michael Shifter, professor adjunto do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Georgetown, à BBC.

Shifter acrescentou que o que lhe pareceu mais intrigante foi a “contradição” entre o perdão e a política declarada de Trump de repressão do narcotráfico.

Questionado sobre esta situação já depois do ataque a Caracas e do rapto de Maduro, Trump fez um paralelo entre a si e Henández. “O homem que eu perdooei estava a ser tratado pela administração Biden da mesma forma que um homem chamado Trump. Este homem foi acusado de forma muito injusta. Ele era o líder do país”, justificou.

“Não se pode argumentar de forma convincente que as acusações de tráfico de droga exijam uma invasão num caso, enquanto se concede um perdão noutro”, criticou o senador Mark Warner, Democrata da Virgínia.

O ex-procurador federal Bruce Green concorda. “Trump pensa que pode utilizar os processos criminais federais para qualquer fim, ou seja, para promover as suas visões de política externa, para promover as suas vingançaspara promover os seus interesses pessoais e para promover os seus interesses políticos percebidos”, remata em declarações ao New York Times.



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