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Os skinheads não eram racistas. Eis como tudo mudou



Dos bairros operários de Londres ao neonazismo: como uma história de troca cultural, reggae, moda, música e identidade foi reescrita pelo extremismo e ódio — com a ajuda da política.

Parece uma realidade distante, mas quando nasceu nas ruas londrinas, nos anos 60, a cultura skinhead era uma expressão de um tipo de orgulho muito diferente do que seria pouco mais de uma década mais tarde e até aos dias de hoje.

Hoje exclusivamente associado ao racismo, violência, ódio e neonazismo, o movimento começou como uma espécie de troca cultural entre jovens brancos da classe trabalhadora e comunidades jamaicanas, recém-chegadas ao Reino Unido.

No início, ser skinhead era, acima de tudo, afirmar identidade de classe. Muitos dos jovens que adotaram o estilo vinham de bairros pobres ou subúrbios pouco prestigiados. Sentiam-se longe da contracultura hippie e que esta não respondia exatamente às suas preocupações — como precariedade e falta de oportunidades.

Como procura explicar o britânico Don Letts — negro ligado à primeira geração de skinheads em Londres — no documentário A história do skinheadé impossível falar na origem do movimento sem recordar as mudanças na imigração que se viviam no Reino Unido nessa altura.

A chegada de jamaicanos a Londres e a outras cidades trouxe novas comunidades para zonas onde já viviam trabalhadores brancos. A proximidade física motivou o contacto e a troca cultural. Jovens ingleses começaram a ouvir e a colecionar discos de ska e reggae.

“A cultura skinhead não foi feita para ser racista”, lembrar Tommaso Lanzi na Revista Vilãoexplicando também que os primeiros skinheads foram muito influenciados pelo ska, rocksteady e reggae [estilos de música jamaicana] que chegaram das Caraíbas. O movimento “começou em bairros da classe operária e foi mais moldado pela música, estilo e solidariedade do que pela política”, mas “com o tempo, grupos extremistas apropriaram-se do visual, distorcendo uma subcultura que originalmente se baseava na identidade, orgulho e pertença”.

No vestuário e na apresentação, os primeiros skinheads também abraçavam subculturas anteriores, como moda ou roqueiros., recorda o Tudo que é interessante. Usavam casacos bem cortados, sapatos polidos e rapavam ou encurtavam muito o cabelo, mas como uma forma de se identificarem como um orgulhoso operário, parte de um grupo que ambicionava e vivia as mesmas coisas.

Tudo mudou nos anos 70

A partir do início dos anos 1970, a palavra “skinhead” começou a ganhar outra força. A figura do skinhead, muito presente nas ruas, cresceu e passou a ser frequentemente associada à violência, ao álcool, ao futebol e ao racismo, e seria a segunda ‘geração’ de skinheads a deixar de resistir a essa imagem: apropriou-se dela.

A estética e a agressividade projetada pelos media começa a ser adotada por elementos racistas e grupos ligados às claques de futebol inicialmente rejeitados pela primeira geração da subcultura.

Infiltração organizada

Com a expansão da subcultura, organizações políticas viram uma oportunidade.

“Estávamos a tentar pensar em guerras raciais”adianta um antigo membro da Frente Nacional Britânica, Joseph Pearce, no documentário de Letts. Os skinhead, vítimas de frustração económica e social, tornavam-se assim terreno fértil para mensagens etnonacionalistas.

“O nosso trabalho”, recorda o antigo militante do partido e autor de propaganda nos anos 80, “era basicamente desestabilizar a sociedade multicultural, a sociedade multirracial, e torná-la inviável.”

O partido procurava recrutar em massa onde os skinheads estavam, e os jogos de futebol eram um espaço preferido. Vender revistas e materiais de propaganda nos arredores dos estádios permitia alcançar centenas, até milhares, de potenciais simpatizantes. Em algumas zonas rurais, onde havia menos oferta cultural, o National Front terá até recorrido a clubes noturnos com entrada restrita a membros.

Oi! e o motim de Southall

À medida que o discurso racista ganhava espaço, o movimento começou a “apodrecer por dentro”, segundo a narrativa. Um exemplo simbólico surge no universo musical: a banda punk Sham 69, com forte base de fãs skinhead, teria interrompido concertos depois de episódios violentos protagonizados por apoiantes do National Front, incluindo um motim num espectáculo em 1979.

A mudança de significado da cultura skinhead terá sido tão rápida que alguns membros da subcultura original foram empurrados para fora do grupo. Aconteceu a Barry “Bmore” George, antigo skinhead que contou a sua história no documentário: “tudo depende de onde se começa a contar a história”, adianta.

Terá havido ainda um último momento de tentativa explícita de reaproximação multicultural: o Movimento de 2 tonsno final dos anos 1970, que misturou ska ao estilo dos anos 1960 com energia punk e uma estética frequentemente associada a mensagens anti-racistas; mas quando esta vaga perdeu o fôlego, um novo som emergiu: o Oi!, descrito como a fusão do ethos operário skinhead com a força do punk.

Nacionalistas de direita procuraram apropriar-se do Oi! desde cedo. O álbum Strength Thru Oi! foi inspirado num slogan nazi, e a capa incluía um neonazi que acabaria condenado por ataques a jovens negros numa estação de comboios no mesmo ano, e, após sair da prisão, viria a trabalhar como segurança de uma banda de punk rock, Skrewdriver.

Um dos episódios mais marcantes foi o motim de Southallem 1981, em Londres. Dois autocarros de skinheads dirigiam-se a um concerto num bairro com grande população indiana e paquistanesa. Pelo caminho, encontraram uma mulher asiática e agrediram-na brutalmente, enquanto vandalizavam lojas e partiam vidros.

Indianos e paquistaneses seguiram os skinheads até ao pub onde decorria o concerto e abriu-se a confusão total, segundo um artigo do O jornal New York Timesdatado de 5 de julho de 1981. Um porta-voz da associação juvenil local afirmou que os skinheads exibiam símbolos da Frente Nacional Britânica e suásticas e acusou a polícia de os proteger, empurrando-os para trás das barricadas em vez de os deter. A imagem do skinhead ficaria eternizada como abertamente racista e violenta.





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