
Enquanto a mulher ainda tiver óvulos, esses óvulos podem ser tratados”. A janela reprodutiva pode estender-se até à menopausa.
Cientistas estão a desenvolver um novo fármaco que poderá reduzir drasticamente um dos principais obstáculos à gravidez em idades mais avançadas: o envelhecimento dos óvulos.
A abordagem, ainda em fase inicial, promete aumentar as probabilidades de sucesso de tratamentos de fertilidade — como a fertilização in vitro (FIV) — em mulheres a partir dos 35 anos, podendo aproximá-las das taxas observadas em mulheres mais jovens.
O problema central está no modo como o envelhecimento afeta a qualidade dos óvulos.
As mulheres nascem com um estoque finito de células reprodutivas, mantidas nos ovários como óvulos “imaturos”, que só completam o processo de maturação em cada ciclo de ovulação.
Com o avanço da idade, esse processo torna-se mais propenso a falhas: a degradação do material genético durante a maturação pode impedir a fertilização ou originar embriões inviáveis, aumentando o risco de aborto espontâneo.
Os números atuais refletem essa dificuldade. Em média, mulheres com menos de 35 anos têm uma probabilidade de cerca de um em três de alcançar uma gravidez por ciclo de FIV – mas essa taxa cai para menos de 5% após os 40 anos.
Segundo os investigadores, o novo tratamento procura atacar a causa dominante dessa quebra: a instabilidade do material genético nos óvulos mais velhos.
A tecnologia está a ser desenvolvida pela U-Ploid Biotechnologies. O cofundador da empresa, Jordan Abdi, diz que a equipa compreende o mecanismo biológico há vários anos, mas que só agora dispõe de uma estratégia para o contrariar.
A premissa é direta: “enquanto a mulher ainda tiver óvulos, esses óvulos podem ser tratados”citar ou O telégrafosugerindo que a janela reprodutiva poderia, em teoria, estender-se até à menopausa.
Na prática, a ambição é reduzir a dependência de óvulos de dadora em mulheres com mais de 42 anosatualmente uma das poucas alternativas para muitos casos de infertilidade relacionada com a idade.
O fármaco, chamado Lyvanta, atua como uma espécie de “cola” molecular, ajudando a manter coeso o material genético do óvulo durante a maturação.
Em vez do protocolo típico de FIV — no qual a mulher recebe medicação hormonal para estimular a maturação dos óvulos dentro do corpo antes da recolha —, a nova abordagem recolhe óvulos imaturos diretamente dos ovários e injeta o fármaco com técnicas semelhantes às usadas em clínicas para a injeção de espermatozoides.
Depois, os óvulos seriam induzidos a amadurecer em laboratório e utilizados num ciclo de FIV convencional.
Os investigadores apontam ainda um possível benefício adicional: ao deslocar a maturação para o laboratório, algumas pacientes poderiam evitar parte do desgaste físico e psicológico associado às injeções hormonais.
Os resultados mais avançados vêm de estudos em ratos, apresentados numa conferência de medicina reprodutiva em outubro, onde a equipa reportou uma redução de 84% nos danos genéticos em óvulos mais velhos.
O próximo passo é testar o procedimento em óvulos humanos em clínicas de fertilidade no Reino Unido ainda este ano, com o objetivo de avançar para ensaios clínicos em ciclos de FIV de pacientes já a partir de 2027.
Os estudos começarão por avaliar se o fármaco protege efetivamente o processo de maturação e, depois, se os óvulos tratados fertilizam e se desenvolvem em embriões.
Especialistas externos pedem prudência. Sarah Norcross, diretora da Progress Educational Trust, sublinha que a investigação está numa fase muito precoce e que será necessário mais trabalho antes de qualquer aplicação clínica. Por agora, a promessa existe — mas a prova em doentes ainda está por fazer.
