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Porque os antigos comiam estas bizarras iguarias (e porque deixámos de o fazer)



AR-tem / DepositPhotos

Recriação moderna de garum

Molho de tripas de peixe fermentado, língua de flamingo, tarte de lampreia, ratinhos gordos recheados com carne de porco… a cultura, a necessidade de sobrevivência e a ciência criaram algumas das refeições mais estranhas da história. Algumas caíram entretanto em desuso.

Segundo os padrões modernos, as dietas de algumas civilizações antigas podem parecer francamente bizarras.

Basta pensar em peixe fermentado deixado em tinas ao ar livre durante meses, insetos assados inteiros, ou roedores recheados com carne de porco apresentados numa caçarola de barro.

Para os comensais antigos, estes alimentos eram nutritivos, medicinais e, nalguns casos, sagrados — por muito que possam fazer estremecer os epicuristas dos nossos dias, diz a Descobrir.

Para as sociedades antigas, estes alimentos bizarros forneciam sustento em tempos de fome, eram eficientes em ambientes com recursos limitados e conferiam benefícios espirituais, culturais ou medicinais que se perderam ao longo dos milénios.

Segundo Nawal Nasrallahautora e historiadora especializada em cultura alimentar árabe, o que torna um alimento bizarro para uma cultura e normal para outra depende de vários fatores.

“Penso que, na maioria dos casos, o quão bizarro é um alimento depende em grande medida da disponibilidade desse alimento numa determinada região, o que determina a sua familiaridade ou estranheza”, diz Nasrallah.

Além disso, as nossas reações sensoriais àquilo a que estamos habituados a comer podem desempenhar um papel”, acrescenta. “Eu venho do Iraque, por exemplo, onde a cultura de comer crustáceos é praticamente inexistentee não suporto sequer olhar para comensais a sorver ostras cruas.”

Nos Andes peruanos, por exemplo, o porquinho-da-índiacontinua a ser um prato popular. É um prato antigo, rico em proteínas, que remonta a 5000 anos. Tal como o lixo de uns pode ser o tesouro de outros, o alimento bizarro de um grupo pode ser simplesmente o vosso novo petisco favorito, nota a historiadora.

Leirões: uma iguaria antiga

Tomemos por exemplo o leirão (Eliomys quercinus). É um roedor gordo do tamanho de um rato que vive nas árvores do sul da Europa e que já foi um dos pratos favoritos de algumas sociedades antigas, incluindo os antigos romanos.

Recheado numa caçarola de barroassado no forno ou cozido numa panela, pensa-se que a refeição era preparada com carne de porcopequenos pedaços de aparas de carne de leirão, e triturada com pimenta e frutos secos. Aparentemente, tem um sabor e textura semelhantes aos do esquilo.

“Para os antigos mesopotâmios, era um gosto adquirido, e aqueles que se atreveram a prová-lo dizem que gostavam do seu sabor delicado“, diz Nasrallah. “No entanto, não sabemos exatamente como era preparadomas muito provavelmente era assado ou grelhadocomo costumavam fazer com os gafanhotos”.

Os leirões eram originalmente considerados uma iguaria da elite, mas documentos sugerem que os roedores apareciam em grande número todos os anos após as cheias do Nilo. Este estrondo populacional permitiu à classe baixa do Egito medieval desfrutar de proteína gratuita e nutritiva à custa dos leirões.

Atualmente, porém, a iguaria perdeu popularidade.

“Embora ainda sejam consumidos em algumas zonas da Europa de Lestepenso que o público em geral não aprecia a ideia de comer um roedortal como aconteceu com os esquilos. A nossa consciência dos perigos de lidar e consumir roedores tem sido um forte dissuasor”, explica Nasrallah.

Garum: um molho de tripas de peixe

Entre as suas muitas reputações históricas, os antigos romanos também tinham jeito para alimentos bizarros. Uma dessas iguarias era o garum ou garoum prato que consistia em tripas de peixe fermentadas deixadas durante meses em tinas ao ar livre cheias de sal até se liquefazerem num molho.

Segundo um estudo publicado em 2025 na revista Antiquity por uma equipa de investigadores da Universidade de Cambridge, liderada pela portuguesa Paula Campo, os romanos foram das primeiras sociedades a industrializar a pesca nos seus oceanos, e estabeleceram fábricas para fermentar garum ao longo das suas costas.

Segundo escrevem os autores do estudo, a iguaria era confecionada com sardinhae estas “tripas de peixe podre a preço de luxo” eram presença garantida nas mesas do Império.

Tarte de lampreia: digna de um Rei

Como lampreias são um dos peixes mais antigos da Terra, e provavelmente dos mais aterradores. Mas apesar disso, é um dos pratos mais apreciados em alguns países, incluindo em Portugalonde é confecionada habitualmente à bordalesa ou como arroz de lampreia.

Estes peixes sem maxilar têm uma boca em forma de disco de sucção cheia de dentes alarmantes semelhantes a presas, cujos restos os investigadores usaram para revelar uma forma antiga de preparar esta iguaria europeia: a tarte de lampreia.

Segundo um estudo conduzido em 2018 por arqueólogos do Museum of London Archaeology e publicado na Arqueologia Atualestes peixes assustadores eram cozidos em tartes para a nobreza britânica medieval.

De facto, os britânicos de classe alta apreciavam tanto as tartes de lampreia que há rumores de que Henrique I sofreu uma morte prematura após desfrutar de um “excesso de lampreias”.

Línguas de flamingo e outras especialidades

Na sua famosa obra enciclopédica “História Natural”, o autor e historiador do século I Plínio, o Velhodá a conhecer a língua de flamingo como uma iguaria, o que faz sentido, dado que coma partes de pássaros exóticos era considerado uma subcultura de alto estatuto na Roma antiga.

“Apício, o comilão mais glutão de todos os esbanjadores, lançou a ideia de que a língua do flamingo tem um sabor especialmente refinado“, escreve Plínio, O velho, que atribui adescoberta desta estranheza culinária ao gastrónomo romano Marco Gávio Apício.

Diz-se, aliás, que o gastrónomo do antigo império romano gostava tanto de língua de flamingo, que terá cometido suicídio ao perceber que já não tinha dinheiro suficiente para manter a sua dieta.

Outros favoritos da elite romana incluíam línguas de pavãocérebros de flamingo, ovos de perdiz, cabeças de papagaio e barbas de salmonete.

O que faz os alimentos caírem em desuso?

Embora alguns destes alimentos bizarros tenham ficado no passado, alguns ainda são regularmente consumidos, como o tubarão fermentadoou hákarl, na Islândia. Mas o que faz uma dieta passar de moda, e porque é que algumas iguarias se mantêm em voga?

Segundo Nasrallah, é uma combinação de mudanças nos valores culturaiscompreensão da saúde e segurançae alterações nas condições ambientais.

“Pode ser a crescente consciência da natureza insegura desse alimento, ou pode ser a sua escassez, como no Egito, quando as cheias deixaram de acontecer”, diz a historiadora.

“Ou podem ser proibições ou restrições culturais. As modas alimentares podem facilmente entrar e sair de moda, simplesmente porque não são alimentos básicos”, conclui Nasrallah.

Tristemente, é o caso do tutano de vacaque deixou praticamente de estar disponível nos talhos, após os casos de encefalopatia espongiforme bovina,  chamada “doença das vacas loucas”, que matou centenas de pessoas nos anos 1990 — mas que desapareceu entretanto.



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