
Miguel A. Lopes / Lusa
Caixa-forte do Banco de Portugal onde estão armazenadas as reservas de ouro do Estado Português
382,66 toneladas, 47 mil milhões de euros. Portugal mantém ouro como âncora de segurança financeira em tempos de incerteza.
Como muitos sabem, Portugal tem muito ouro. Está até no top-15 mundial dos países com maiores reservas de ouro. Portugal é o 7.º país do mundo com mais ouro per capita.
Ao contrário da ideia generalizada que se espalhou, a maioria do ouro não será o que estava no Brasil, no século XVIII; dificilmente resistiu até hoje.
A maioria do ouro acumulado terá sido comprado aos nazis por Salazar, durante a II Guerra Mundial. Os alemães terão pagado com ouro o que vinha de volfrâmio, mas também vinho, azeite, café, conservas e azeitonas.
Hoje, a Portugal tem 382,66 toneladas de ouro. São cerca de 47 mil milhões de euros, segundo dados do World Gold Council.
E continua a guardar todo esse dinheiro… Para quê?
Ó Euronews explica: é uma âncora de segurança financeira em tempos de incerteza.
Apesar da crescente digitalização da economia global e da predominância de pagamentos eletrónicos, o ouro continua na posse de Portugal (Carregado e Londres).
O ouro continua a ser visto como um dos pilares fundamentais da estabilidade financeira. Isento de risco de crédito, independente das decisões de política monetária e resistente a choques financeirosfunciona como um seguro em cenários de crise económica, instabilidade monetária ou conflitos geopolíticos.
Essa função tem sido reforçada pela evolução recente dos mercados.
Nos últimos meses, o preço do ouro registou máximos de todos os temposimpulsionado por tensões internacionais, expectativas de cortes nas taxas de juro e pela procura crescente de ativos considerados seguros.
Em dezembro, a onça atingiu um recorde próximo dos 4.400 dólares, quase 3.800 euros, valor que voltou a ser superado no início de janeiro.
Esta valorização traduziu-se num aumento significativo do valor das reservas portuguesas, beneficiando diretamente o balanço do Banco de Portugal.
Mais do que um ativo financeiro, o ouro desempenha um papel central na credibilidade externa do país.
Para investidores e instituições internacionais, o volume de reservas de ouro é um indicador relevante na avaliação do risco soberano, da solidez da moeda e da capacidade de resposta a choques externos.
O metal precioso funciona também como uma rede de segurança em situações extremas.
Em cenários de colapso cambial ou de rutura no acesso aos mercados financeiros internacionais, o ouro pode ser convertido em moeda forte ou utilizado como garantia para obtenção de financiamento.
Ao longo da sua história recente, Portugal recorreu a este tipo de mecanismos durante as intervenções do Fundo Monetário Internacional (FMI) – em 1977, 1983 e 2011.
Além disso, o valor do ouro integra o balanço do banco central e contribui para a sua solvência. Um banco central financeiramente robusto reforça a confiança no sistema financeiro e na economia como um todo, desempenhando um papel estabilizador em períodos de turbulência.
E ainda o dólar
A estratégia portuguesa insere-se numa tendência mais ampla.
Nos últimos anos, vários bancos centrais têm reforçado as suas reservas de ouro, procurando reduzir a dependência do dólar dos EUA.
Países como a Polónia, a China, o Brasil, a Turquia ou o Cazaquistão lideraram as compras recentes, enquanto outros, como Singapura ou o Uzbequistão, optaram por vender parte das suas reservas.
Num mundo marcado pela incerteza, o ouro continua, assim, a ser visto como um ativo intemporal. Para Portugal, manter estas reservas não é um anacronismo – é uma escolha estratégica que reforça a segurança, a credibilidade e a estabilidade financeira do país.
