
Aníbal Cavaco Silva
“São demasiadas referências depreciativas aos africanos para tão poucos dias”, lia-se no Expresso, há quase 34 anos. E Luís Filipe Menezes terá feito eco da frase proferida pelo antigo primeiro-ministro pouco depois.
André Ventura e o “isto não é o Bangladesh”: uma triste novela da campanha presidencial. A frase gritada e escrita com orgulho pelo líder do Chega valeu-lhe, como seria de esperar, acusações de preconceito, xenofobia, racismo e comparações a Adolf Hitler; o secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, defendeu intervenção do Ministério Público para acionar mecanismos sancionatórios contra quem atente contra o Estado de direito; o professor universitário e advogado António Garcia Pereira citou a frase colocada em cartazes pelo candidato a Belém para convencer o tribunal de que o partido Chega é inconstitucional; a Comissão Nacional de Eleições sinalizou que pediria intervenção do MP para avaliar eventual ilegalidade.
Mas Ventura — que até já usa variantes da ínfame frase com outros países — não terá sido o único na história da política portuguesa a referir-se a um país africano como inferior a Portugal.
Isto não é o Uganda
Quase a fugir da página, na secção “O que eles dizem…” da edição de 20 de junho de 1992 do Semanário Expresso, o ZAP, ao tentar confirmar uma suspeita, detetou uma crónica que imediatamente faz lembrar a frase que seria cantada 34 anos mais tarde por André Ventura.
A frase em questão terá saído da boca de Cavaco Silvaà época primeiro-ministro, e é citada no semanário, ao que tudo indica, pelo jornalista José António Lima.
Em termos gramaticais, a única diferença entre a frase atribuída a Cavaco e a frase de Ventura é o país.
“‘Portugal não é o Uganda!’exclamou Cavaco Silva a propósito da ameaça de tanques nas ruas aventada por Mário Soares”, lê-se no excerto que o ZAP ressuscitou.
A “ameaça” atribuída a Mário Soares referia-se às declarações do histórico socialista (à época presidente da República), a apenas duas semanas da cimeira europeia. Soares disse que preferia que os militares que se opunham à redução nas Forças Armadas cometessem infrações processuais em vez de mobilizarem tanques nas ruas, durante aquela que foi, na altura, “a mais grave afronta militar ao poder civil desde a Revolução dos Cravos”, comparava o O país.
“Um verdadeiro escândalo!”, terá continuado Cavaco, seguindo com outra referência depreciativa a cidadãos de países africanos. “Se até os emigrantes cabo-verdianos votam nas suas eleições presidenciais porque será que os nossos não podem?”, cita o Expresso.
“Se fosse permitido aos portugueses votarem num referendo sobre Maastricht, ‘Portugal passaria a ter um nível de desenvolvimento de um país do Norte de África’”, terá dito ainda o ex-Presidente da República, segundo o excerto do semanário.
“São demasiadas referências depreciativas aos africanos para tão poucos dias que só o nervosismo do confronto institucional e o desdém de quem se sente (por uns dias) a dirigir a Europa podem explicar”, lê-se na crónica.
Isto não é o Uganda (parte 2)
Umas frases depois, o texto dá conta de que outro social-democrata, Luís Filipe Menezes, fez ecoar os “piropos” de Cavaco, proferindo, alegadamente, exatamente a mesma frase.
“Portugal não é o Uganda para andar a rever a Constituição todos os anos”terá dito o atual presidente da Câmara de Gaia, na altura Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares no Governo de Cavaco Silva.
“Como se temia, estes piropos de Cavaco sobre os pretos fizeram logo escola nas fileiras de incontáveis ’yes men’ do PSD. Esperemos, ao menos, que nunca mais os deixem pôr os pés no Uganda”, apelou, por fim, o autor do texto.
ZAP
Excerto da edição de 20 de junho de 1992 do jornal Expresso, consultada pelo ZAP.
