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Reino da Arábia Saudita “dirigiu ou autorizou” espancamento de comediante em Londres



Cristiano Ronaldo/Instagram

Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro saudita, com o jogador português Cristiano Ronaldo.

Reino foi esta segunda-feira considerado responsável pela intrusão de privacidade de Ghanem al-Masarir, hackeado e perseguido desde 2018, e terá de pagar indemnização milionária.

Com centenas de milhões de visualizações, o youtuber Ghanem al-Masarir estava no auge quando, a partir do seu apartamento, na cidade inglesa de Wembley, começou a fazer inimigos poderosos, além dos fãs. O comediante falador — que por vezes fazia piadas consideradas ofensivas — destacava-se como crítico da família real da Arábia Saudita.

A primeira coisa que al-Masarir reparou foi que os seus telemóveis estavam a comportar-se de forma estranha. Ficaram muito lentos e as baterias descarregavam rapidamente. Depois, começou a ver as mesmas caras quando circulava por diferentes zonas de Londres. Pessoas que pareciam apoiar o regime saudita passaram a abordá-lo na rua, a assediá-lo e a filmá-lo.

Mas como é que sabiam onde ele estava a toda a hora?

Al-Masarir temia que o seu telefone estivesse a ser usado para o espiar. Especialistas em cibersegurança confirmariam mais tarde que se tornara mais uma vítima da ferramenta de intrusão Pégaso.

“Era algo que eu não conseguia compreender. Eles conseguem ver a tua localização. Podem ligar a câmara. Podem ligar o microfone, ouvir-nos“, diz al-Masarir à BBC. “Têm os teus dados, todas as fotografias, tudo. Uma pessoa sente-se violada.”

Na segunda-feira, após seis anos de batalhas judiciais, o Tribunal Superior de Justiça de Londres decidiu que a Arábia Saudita é responsável pela intrusão e ordenou que o reino pagasse a al-Masarir mais de 3 milhões de libras de indemnização.

Golpe por mensagem

Os iPhones de al-Masarir foram pirateados em 2018, depois de ele ter clicado em ligações incluídas em três mensagens de texto aparentemente enviadas por órgãos de comunicação social, sob a forma de ofertas especiais de subscrição.

Isso levou a que fosse perseguido, assediado e, em agosto desse ano, espancado não no centro de Londres.

O tribunal ouviu que duas pessoas, que al-Masarir não conhecia, se aproximaram dele e gritaram “quem é ele para falar da família real saudita?”, antes de o atingirem no rosto com um murro e continuarem a agressão.

Pessoas que passavam intervieram e os dois homens recuaram, chamando o youtuber de “escravo do Catar” e dizendo que lhe iam “dar uma lição”.

O juiz do Tribunal Superior disse que o ataque foi premeditado e observou que um dos agressores usava um auricular.

“Há indícios convincentes” de que a agressão e a intrusão informática “foram dirigidas ou autorizadas pelo Reino da Arábia Saudita, ou por agentes a agir em seu nome”afirmou o juiz Pushpinder Saini.

“O Reino da Arábia Saudita tinha um claro interesse e motivação para silenciar as críticas públicas ao Governo saudita”concluiu o juiz.

Após a agressão, al-Masarir continuou a ser perseguido. Em 2019, uma criança aproximou-se dele num café no bairro de Kensington e cantou uma canção a elogiar o rei Salman, o monarca saudita. O incidente foi filmado e publicado nas redes sociais; tornou-se viral com uma hashtag própria e chegou a ser transmitido pela televisão estatal da Arábia Saudita.

No mesmo dia, um homem aproximou-se de al-Masarir quando este saía de um restaurante na capital britânica e disse-lhe: “Os seus dias estão contados”antes de se afastar.

Al-Masarir nasceu na Arábia Saudita, mas vive no Reino Unido há mais de 20 anos. Hoje é cidadão britânico e vive em Wembley, mas já não se aventura muito longe de casa — ir ao centro de Londres continua a ser um trauma.

O comediante, de 45 anos, ganhou notoriedade no mundo de língua árabe com vídeos satíricos no YouTube em que criticava os governantes sauditas, em particular o príncipe herdeiro Mohamed bin Salmanque governa de facto a Arábia Saudita.

As tiradas humorísticas de al-Masarir — e, por vezes, ataques pessoais e ofensivos ao Governo saudita — tornavam-se frequentemente virais, somando mais de 345 milhões de visualizações. No seu vídeo mais visto — com 16 milhões de visualizações — criticou as autoridades por estarem irritadas com um vídeo viral de raparigas a dançar na Arábia Saudita. De forma misteriosa, o som foi removido no YouTubee al-Masarir diz não saber como ou quando o vídeo foi editado.

Desde que foi pirateado e agredido, perdeu a confiança e entrou em depressão. Antes bem-humorado e aberto, aceitou falar com a BBC mas mostrou-se reservado e não quis revelar totalmente o rosto. Não publica vídeos há três anos e diz que, apesar da vitória em tribunal, o Governo saudita conseguiu silenciá-lo.

“Nenhuma quantia em dinheiro pode compensar o dano que isto me causou”, diz.

“Isto transformou-me. Já não sou o mesmo Ghanem de antes.”

O software Pegasus

Especialistas em spyware do Citizen Lab, da Universidade de Toronto, no Canadá, confirmaram que al-Masarir tinha sido atacado com o spyware Pegasus.

Enviaram um analista a Londres e consideraram altamente provável que a intrusão tenha sido orquestrada pela Arábia Saudita.

O Pegasus é uma ferramenta produzida pela empresa israelita NSO Group, que afirma vender o software apenas a governos, para ajudar a rastrear terroristas e criminosos. Mas o Citizen Lab encontrou o programa em telemóveis de políticos, jornalistas e dissidentes.

Quando al-Masarir tentou, pela primeira vez, avançar com uma ação contra a Arábia Saudita, o reino argumentou que estava protegido de processos judiciais ao abrigo da Lei de Imunidade do Estadode 1978.

Mas, em 2022, o tribunal decidiu que a Arábia Saudita não beneficiava dessa imunidade. Desde então, o país deixou de estar representado no processo.

“O Reino da Arábia Saudita não apresentou defesa nem respondeu a esta ação e violou múltiplas ordens adicionais. Parece improvável que participe no processo”, concluiu o juiz.

Ainda não é claro se a Arábia Saudita pagará a indemnização fixada. A BBC contactou a embaixada saudita em Londres, mas não obteve resposta.

Al-Masarir diz estar determinado a fazer cumprir a sentença e está disposto a recorrer a tribunais internacionais, se necessário. Mas, afirma, nenhuma quantia em dinheiro compensará a forma como a intrusão lhe virou a vida do avesso.

“Sinto-me deprimido por terem conseguido fazer algo assim em Londres, no Reino Unido.”





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