
palinchak/Fotos de depósito
Vista de Kiev à noite durante um apagão, em novembro de 2022.
Ataques russos deixaram centenas de milhares de pessoas sem eletricidade e aquecimento. Os residentes improvisam, mudam temporariamente de cidade e criam redes de solidariedade.
Os residentes de Kiev sentem há praticamente um mês os efeitos dos ataques massivos russos contra a infraestrutura energética da Ucrânia, que derrubaram o sistema de aquecimento de casas e estabelecimentos. A capital enfrenta uma vaga prolongada de frio intenso, com temperaturas negativas de dois dígitos há quase duas semanas.
Apesar das negociações de paz entre a Rússia, a Ucrânia e os Estados Unidos, o Kremlin lançou novos ataques em grande escala não só na capital, como também noutras regiões do país. Houve vítimas civis e novos danos graves na infraestrutura de fornecimento de energia. Segundo o vice-chefe do governo, Oleksii Kuleba, 800 mil pessoas estavam sem eletricidade em Kievno sábado passado.
Parte dos residentes começou a deixar a capital.
“Como não tínhamos eletricidade, aquecimento nem água, o meu marido, os meus dois filhos e eu mudámo-nos para a casa de campo dos meus pais, e o meu pai também veio para cá”, contou à DW uma moradora.
A casa tem um aquecedor a gás e, no jardim, é possível ligar um gerador a gasóleo. “Assim temos luz, água e calor. Tiramos água de um poço. Quando o gerador está a funcionar, temos eletricidade e as bombas trabalham”, explica Anastasia. É esteticista e tem horários flexíveis, normalmente em função da clientela. Agora está de férias.
“O meu marido é engenheiro energético e precisa de ir a Kiev todos os dias. O trajeto é longo e difícil, porque a autoestrada está congelada. Ele pode demorar até duas horas a chegar ao trabalho”, diz.
Descontos em hotéis
A escritora e tradutora ucraniana Tamara Horicha Sernja também deixou a capital com os filhos. “Vi no Facebook uma mulher a oferecer 50% de desconto no seu hotel, na região de Lviv, para pessoas de Kiev. Cobra cerca de 900 hryvnias por dia (cerca de 17 euros) por adulto, com três refeições incluídas. No dia seguinte, fizemos as malas e partimos”, conta.
As férias de inverno da maioria das instituições de ensino da capital foram prolongadas até 1 de fevereiro. O governo espera, assim, redistribuir a energia poupada para as zonas residenciais. As salas de aula das universidades estão vazias, mas as residências universitárias não.
“A maioria dos estudantes foi para casa porque é período de férias. Só ficam os que têm emprego em Kiev”, disse a diretora de uma residência da Universidade de Transportes, que preferiu não ser identificada. Segundo a responsável, o fornecimento de eletricidade é problemático. Mas a água e o aquecimento já regressaram às residências.
“Depois do bombardeamento russo, ficámos 28 horas sem eletricidade e sem aquecimento”, relata.
Ficar ou partir?
Cerca de 600 mil dos 3,6 milhões de habitantes de Kiev deixaram a cidade desde os ataques russos iniciados a 9 de janeiro, disse o presidente da câmara à AFP, com base no número de telemóveis ativos na cidade. A administração militar de Kiev, porém, não confirma essa estimativa.
“Se tantos consumidores de energia não tivessem ido embora, a situação do abastecimento provavelmente não seria tão crítica”, disse a porta-voz Kateryna Pop na televisão ucraniana.
Roman Nizowytsch, diretor de investigação do grupo de reflexão DiXi Group, discorda.
“O consumo de eletricidade pode, de facto, ser usado como indicador. Mas não sei se isso é significativo neste momento, porque o fornecimento é muito irregular”, afirma à DW. “Assim que a eletricidade volta, há um consumo excessivo, porque as pessoas lavam roupa e cozinham imediatamente.”
Entre os que tentam enfrentar os problemas sem sair de Kiev está Anja Syrotenko. A jovem vive num prédio alto e cuida sozinha do bebé, de três meses, desde que o marido foi mobilizado para o serviço militar.
“Moro no 15.º andar. Quase não há eletricidade e, sem eletricidade, não há água”, disse à DW. Como o fogão não funciona sem energia, comprou um fogareiro de campismo a gás. “Com ele posso fritar ovos e aquecer água para lavar o bebé. Ainda bem que o bebé está a ser amamentado.”
Ajuda aos mais vulneráveis
Já Marta Semenjuk, que cria uma filha pequena com o marido em Kiev, não tem aquecimento funcional no prédio há semanas. Para se aquecer, o casal recorre a um forno a gás. “Quando há eletricidade, ligamos uma ventoinha para espalhar o calor pelo apartamento”, conta.
Marta não quer levar a filha de volta ao jardim de infância, que se manteve aberto. A menina adoeceu com bronquite depois de frequentar a escola sem aquecimento.
As autoridades de Kiev servem refeições quentes diariamente às pessoas mais vulneráveis. Muitos voluntários também ajudam quem não consegue deslocar-se.
“Levamos refeições quentes nos nossos carros diretamente para os apartamentos onde vivem idosos e pessoas com deficiência”, relata Mykola Djatschenko, líder de uma organização de ajuda. “Entrego cerca de 115 refeições por semana.”
Sem calor até à primavera
Entretanto, técnicos ucranianos trabalham para restaurar os sistemas de eletricidade, água e aquecimento. A previsão é que sejam necessárias até duas semanas para reconectar toda a cidade.
Pequenas centrais de aquecimento vão suportando a maior parte da carga. Mesmo quando o aquecimento regressar, não poderá funcionar em plena capacidade, explicou Roman Nizowytsch, do centro de investigação DiXi Group, à DW.
Em edifícios onde canos ou radiadores rebentaram devido ao congelamento da água, o especialista acredita que não haverá aquecimento até à primavera, em março. Teme que, nesses casos, seja necessário substituir por completo os sistemas de aquecimento de blocos residenciais inteiros.
